Liceu de Artes e Ofícios: marco do design em São Paulo

Tempo de Leitura: 7 minutos

Atualizado em 01/05/2024 por Sylvia Leite

Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAquele Liceu de Artes e Ofícios idealizado pelo engenheiro/arquiteto Ramos de Azevedo – na esteira do movimento internacional Arts and Crafts – e voltado para a valorização do desenho aplicado às artes decorativas e às belas artes, não existe mais. Ao longo dos anos, a escola foi tomando outros rumos e hoje está focada no ensino médio convencional pago e em dois cursos técnicos gratuitos: um de Produção Industrial e outro de Multimídia. Mas o Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios, que funciona dentro da instituição, guarda a memória daqueles tempos por meio de fotos e objetos que restaram após um incêndio que atingiu sua sede em 2014. Quem visita esse pequeno museu pode ter um vislumbre do que representou o antigo Liceu das Artes e Ofícios para a produção de monumentos, mobiliário e decoração de importantes prédios não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil.

Embora o Liceu tenha sido criado em 1847, só recebeu esse nome quase 40 anos depois, quando passou por uma reestruturação curricular. Sim, porque inicialmente a escola tinha um propósito mais próximo do atual: promover escolaridade e formar mão de obra especializada para a indústria, ao comércio e à lavoura. Ao que tudo indica, a reforma de 1882 já teria sido influenciada pela experiência do Arts and Crafts (Arte e Artesanato ou Artes e Ofícios) – um movimento estético nascido na Inglaterra e liderado por William Morris, que busca valorizar o artesanato no momento em que começam aCentro Cultural Liceu de Artes e Ofícios - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA ganhar terreno a mecanização e a produção em massa. Mas foi preciso esperar mais de uma década para que, em 1897, o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo passasse pela reforma que alinhou o seu currículo com os ideais do movimento inglês.

A partir dessas mudanças, o Liceu passou a oferecer cursos de desenho aplicado tanto à indústria, como às artes, além de modelagem em gesso e barro, pintura, carpintaria, marcenaria, ebanisteria, serralheria entre outras. Era intenção de Ramos de Azevedo criar as bases para a fundação de uma escola de belas artes.

Nas oficinas do Liceu eram produzidos variados artigos de artes decorativas e industriais.muitos dos quais ainda podem ser vistos em praças e prédios públicos. O Liceu possuía um selo que tornou-se respeitado em todo o país e os recursos levantados com a venda das peças eram suficientes para remunerar os alunos que participavam de sua confecção e para tornar as oficinas auto-suficientes.

O suporte a tudo isso vinha de um consistente aparato didático que incluía desde uma biblioteca especializada em artes visuais e decorativas até um pequeno museu com reproduções em gesso de grandes obras escultóricas. Além disso, os professores realizavam pesquisa de ponta e produziam tecnologia original.

Pinacoteca do Estado - Reprodução Centro Cultural Liceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAs mãos do Liceu em prédios históricos

Até hoje, as obras produzidas nas oficinas do Liceu de Artes e Ofícios ornamentam sedes de instituições, residências e até praças públicas. Talvez o prédio que mais encarne a memória desse antigo Liceu seja o prédio da Pinacoteca do Estado. As razões são diversas: primeiro porque o prédio foi construído para abrigar o Liceu – que funcionou ali em seus primeiros anos -, segundo porque foi projetado por seu então diretor, Ramos de Azevedo, terceiro porque como outros inúmeros prédios de São Paulo, utilizou, em sua construção, peças da serralheria e da marcenaria da escola.

Entre os prédios históricos que guardam elementos utilitários e decorativos produzidos no Liceu de Artes e Ofícios está o Theatro Municipal de São Paulo, inaugurado em 1911. Coube às oficinas do Liceu a produção do mobiliário, incluindo cadeiras e poltronas de todos os ambientes do prédio. Foram também seus alunos que confeccionaram as tapeçarias e cortinas e realizaram toda a decoração em estuque, bronze artístico e ferro batido. Na reforma de 1955, o Liceu foi convidado a fornecer novas poltronas e o mobiliário dos camarins além dos pisos de granilite, das decorações em estuque e de peças de bronze para a iluminação. Foi encarregado, ainda, de todo o trabalho de madeira para o novo palco mecânico e da confecção de um ciclorama – espécie de cortina grande e côncava que se coloca no fundo do palco, atrás dos artistas.

A atual Catedral da Sé, cuja construção se estendeu de 1913 a 1954, também guarda as marcas do Liceu. Em sua oficina de marcenaria foram produzidas as oito portas da igreja, todas em Jacarandá da Bahia – uma delas dotada de um sistema de ferragens de extrema precisão que torna fácil o manuseio apesar de suas enormes dimensões. Foi também o liceu que produziu todo o mobiliário da catedral, inclusive cátedras e púlpitos, talhados em nogueira com detalhes em bronze.

Entre as décadas de 1940 a 1950, as oficinas do Liceu produziram as esquadrias metálicas do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e peças para a decoração interna de hotéis famosos. Caso do Quitandinha, em Petrópolis e dos hotéis termais de Poços de Caldas e Araxá. Mais recentemente, entre fins da década de 1950 e começo da década de 1960, o Liceu colocou sua marca na construção de Brasília, fornecendo, entre outras peças, caixilhos de ferro para as esquadrias metálicas de diversos prédios da nova capital, inclusive palácios, ministérios e congresso.

A modelagem de monumentosPalácios de Brasília - Acervo Centro Culrutal Liceu - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Célebres monumentos também saíram das oficinas do Liceu de Artes e Ofícios. Talvez o mais conhecido deles seja o famoso “Empurra” – apelido do Monumento às Bandeiras – moldado na escola sob a orientação do próprio autor, o escultor Victor Brecheret. Embora polêmica, por homenagear os Bandeirantes – que reconhecidamente exterminaram milhares de índios ao explorar o interior do país – a obra é considerada um ícone de São Paulo, tanto pela ideia de progresso, como pelo fato de ter sido criada por um dos integrantes da Semana de Arte Moderna.

Outros monumentos fundidos no Liceu foram a estátua de Duque de Caxias, também de Victor Brecheret, instalada na Praça Princesa Isabel, no Centro de Sã Paulo, a do próprio Ramos de Azevedo, de autoria de Galileo Emendabili , instalada em frente ao antigo prédio da escola, onde hoje funciona a Pinacoteca e a de Mercúrio, na Praça da República.

Liceu de Artes e Ofícios: um selo premiado

Estante giratória premiada - Acerv Centro Cultural - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAO desenho e a qualidade das peças produzidas nas oficinas do Liceu fizeram com que a escola conquistasse vários prêmios internacionais. O primeiro deles foi a medalha de ouro da Exposição Universal de Saint Louis, nos Estados Unidos, na categoria desenho artístico, com a Estante Giratória. Acredita-se que a peça tenha sido avalada não apenas por sua excelência estética, com “formas sinuosas, sugerindo um motivo floral, nun jogo de cheios e vazios que valorizava a maestria do artesão na transformação da madeira em suaves linhas curvas, mas também pelo mecanismo giratório que, ao que tudo indica, proporcionava “uma movimentação suave e exata”. O Liceu teve peças premiadas, também, em exposições internacionais da Bélgica, da Itália, da Espanha e no Brasil.

O fim dessa época áurea foi definido pelas transformações do mercado que passaram a ter novas demandas. Embora as oficinas do Liceu tenham se adaptado aos novos estilos, o novo padrão estético já não exigia tantos ornamentos e a redução das encomendas obrigou a instituição a mudar de rumo.

O Centro Cultural do Liceu de Artes e OfíciosFoto e peças da Oficina de serralheria - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O que restou daquelas décadas de efervescência foi exposto no Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios criado em 1980. O museu durou pouco mais de 30 anos. Em 2014, foi parcialmente destruído por um incêndio que consumiu grande parte do acervo. Materialmente restou pouca coisa, mas o prédio foi reconstruído, algumas peças restauradas e a memória resgatada em uma linha do tempo que vale a pena acompanharmos.

Quem conheceu o primeiro museu, vai identificar na decoração atual as estruturas metálicas que sustentavam o prédio original. Foram recuperadas, também, algumas réplicas em gesso da gipsoteca que integrava a aparato didático da escola.

Nos nichos que rodeiam a linha do tempo, a história do Liceu de Artes e Ofícios é contada por meio de painéis fotográficos que mostram o funcionamento das oficinas e as obras de arte produzidas por seus alunos e professores. Algumas dessas obras podem depois ser observadas ao vivo em vários pontos de São Paulo e de outras cidades. Mas há algumas que já foram destruídas e talvez a única forma de admirá-las seja visitando Centro Cultural Liceu.1

Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo – Luz – São Paulo – São Paulo – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,2,4,5,6,7) Sylvia Leite i2=(3) Acervo do Centro Cultural

Referências

  • Site oficial
  • Um novo centro cultural para o Liceu de Artes e Ofícios - Artigo de Fernanda Carvalho e Rachel Vallego - Universidade de São Paulo - Baixar PDF
  • Site do Governo de São Paulo
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2 anos atrás

A história do Liceu nos remete em parte à história da arte como ofício e sua evolução desde o final do século XIX. Interessante a valorização dos diferentes aspectos ao longo do tempo

Hebe
Hebe
2 anos atrás

Não conhecia a história do Liceu Sylvia.
Adorei saber das mudanças ao longo do tempo.
Que post bacana. Parabéns!

Sonia Pedrosa
2 anos atrás

O Liceu de Artes e Ofícios construiu uma bela história. Valeu, Sylvinha!

Cynara Vianna
2 anos atrás

Quando li Arts and Crafts nas primeiras linhas do texto voltei imediatamente aos anos 90 quando estava na faculdade de Design e ouvi e li tanto sobre aquele movimento artístico tão maravilhoso. Pena que o Liceu de Artes e Ofícios de hoje não é o que traz as características da época, mas nem por isso é menos interessante.

Roberto Junior
Roberto Junior
1 ano atrás

Excelente publicação! Muito descritiva e didática, conduzindo a trajetória desta importante instituição para São Paulo e Brasil. Formei-me técnico em eletrônica neste colégio na década de 80 e só tenho a agradecer pela excelente qualidade técnica do ensino. Vale a pena conhecer no detalhe a história deste importante marco.

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Margarida nepomuceno
Margarida nepomuceno
1 ano atrás

Ótima a materia. Instrutiva!!