Atualizado em 27/09/2025 por Sylvia Leite
Quando a República foi proclamada, a família real teve de deixar o país e o novo regime tratou de apagar todos os símbolos da monarquia, mas pelo menos um deles ficou esquecido: o brasão do Império talhado em gnaisse 1 na fachada do castelo da Ilha Fiscal. Conta-se que, ao descobrirem o esquecimento, autoridades pretendiam determinar sua exclusão, mas o engenheiro que projetou o edifício – Adolpho José Del Vecchio – os convenceu a manter o brasão sob a alegação de que se tratava de uma obra de arte.
A Ilha Fiscal, como o próprio nome denuncia – é uma pequena extensão de terra, localizada na Baía de Guanabara, onde Dom Pedro II instalou a Alfandega do Rio de Janeiro. O que a denominação não revela é que, para abrigar a instituição, foi construído um dos prédios históricos mais icônicos da Arquitetura carioca e que nele foi realizado o último e mais famoso baile do Império.
O brasão, na verdade, é apenas um dos símbolos imperiais inseridos na construção. Outra importante referência são os vitrais ingleses coloridos a fogo com brasões imperiais contornando as imagens da Princesa Isabel e de Dom Pedro II. Em torno da figura do monarca, consta a inscrição em Latim – “D. PETRUS II G. C. IMP PERP BRAS ET DEF – que pode ser traduzida como “Dom Pedro II, imperador perpétuo do Brasil e seu defensor”.
O verde-jade nas paredes da fachada e nas cortinas do torreão, é mais uma referência ao Império por se tratar da cor símbolo da Casa de Bragança à qual pertencia a família real brasileira. A própria decisão de construir um palacete para abrigar uma estação aduaneira, assim como a beleza e o requinte do projeto, também remetem a Dom Pedro II, que era reconhecidamente um amante e incentivador das artes e, ao encomendar a obra, teria dito que “a ilha é um delicado estojo, digno de uma pequena jóia”.2
O castelo neogótico
Segundo fontes históricas, a construção de um posto alfandegário definitivo para controle de entrada e saída das mercadorias – pois o serviço era feito no local, desde a década de 1850, em instalações provisórias -, foi solicitada pelo conselheiro José Antônio Saraiva, do Ministério da Fazenda, mas a decisão de que seria um castelo e a escolha do estilo arquitetônico teriam sido de Dom Pedro II. A ideia do monarca era erguer um edifício que não conflitasse com a paisagem da Serra do Mar. Entre as decisões tomadas pelo monarca estava a de inserir no projeto um relógio alemão com quatro faces, que poderia ser visto tanto por marinheiros como por quem estivesse em terra firme, lembrando que na época não havia relógios de pulso e apenas os homens de alto poder aquisitivo tinham relógios pessoais de bolso.
O projeto de Del Vecchio para a Ilha Fiscal foi influenciado pelas ideias do arquiteto francês Eugène Viollet-le-Duc e inspirado em castelos do século 16 (há quem diga século 14). O estilo adotado, que ficou conhecido como neogótico-provençal, mesclava tendências de época – como o uso do ferro – com conceitos e formas medievais, entre as quais se destaca a cantaria – técnica de lapidação de rochas em formas geométricas, que havia sido muito utilizada no estilo gótico.3. Essa técnica fica bastante evidente na praça de armas, localizada no centro da construção (foto).
A obra durou oito anos e sua inauguração ocorreu em abril de 1889, portanto menos de um ano antes do 15 de novembro, quando ocorreu a tomada do poder pelos republicanos. Entre a inauguração do castelo e a queda do Império foi realizado o famoso baile que reuniu milhares de pessoas e ficou conhecido como o Baile da Ilha Fiscal.
O baile da Ilha Fiscal
A decisão de realizar um grande baile foi tomada pelo presidente do Conselho de Ministros Afonso Celso de Assis Fiqueiredo, o Visconde de Ouro Preto. O pretexto era homenagear os oficiais do principal navio de guerra chileno – o couraçado Almirante Cochrane – que ancorou na Bahia de Guababara cerca de duas semanas antes. A festa seria uma forma de agradecer a atenção dada pelo Chile, no início daquele ano, aos oficiais do Cruzador Almirante Barroso, que chegou a Valparaíso com diversas avarias após a travessia do Estreito de Magalhães e ali recebeu os devidos reparos a fim de prosseguir viagem. Essa estreita relação Brasil-Chile visava dar equilíbrio às forças políticas na América Latina, pois o Peru e a Colômbia – que tinham problemas de fronteiras com os dois países – estavam prestes a fazer aliança com a Argentina.
Há quem diga, no entanto, que a necessidade de agradar ao Chile foi apenas uma justificativa aceitável para a realização do baile – mesmo porque os oficiais chilenos já haviam sido homenageados com solenidades e espetáculos artítsticos, além de terem ocupado, por vários dias, as páginas dos jornais cariocas. A verdadeira razão, segundo algumas fontes, seria a comemoração das Bodas de Prata da Princesa Isabel com o Conde D’Eu4, mas há quem acredite que a real motivação da festa teria sido salvar a monarquia, acalmando a classe dominante, que estava insatisfeita coma abolição da escravatura, e mostrando o poder e a solidez do Império, num momento em que as forças republicanas já estavam se movimentando com a simpatia do Exército.
O baile foi inicialmente marcado para o dia 19 de outubro, mas precisou ser adiado por causa da morte do rei Dom Luís I, de Portugal, que era sobrinho de Dom Pedro II
– o que provocou um grande desperdício de comida e decoração. Os gastos com o baile, aliás, foram bastante criticados pela imprensa e pelos opositores do regime, que acusaram a Coroa de desviar para a festa o dinheiro que seria destinado à reparação das perdas provocadas pela seca no Nordeste. .
Calcula-se que o valor gasto na festa correspondia a 10 por cento do orçamento de toda a província do Rio de Janeiro para o ano seguinte e a grandiosidade do evento não contrasta com essas informações. O cardápio, com enorme variedade de pratos, foi regado por 3 mil e 96 garrafas de bebidas entre vinhos champagnes, cervejas, destilados e licores. Para preparo das refeições, foram consumidos quantidades incalculáveis de ingredientes, entre os quais 800 latas de lagosta, 800 kg de camarão, 300 frangos, 120 latas de aspargos, além de uma enorme quantidade de sorvete, que era novidade na época5.
O castelo ficou com portas e janelas abertas para que os convidados (uns falam em 500, outros em dois mil, outros em quatro ou até cinco mil) pudessem ouvir às bandas de música posicionadas do lado de fora e assistir ao espetáculo de luzes composto por lanternas venezianas e lâmpadas elétricas – que eram novidade na época. Sem falar nos fogos de artifício.
A repercussão do Baile
Embora Dom Pedo II fosse fotógrafo, e as câmeras portáteis já existissem desde o ano anterior, o Baile da Ilha Fiscal não tem registros fotogáficos. Sua imagem só foi impressa em 1905, pelo pintor Aurélio de Figueiredo, na tela “O Último Baile do Império”, que pertence ao acervo do Museu Histórico Nacional e tem uma replica no Castelo da Ilha Fiscal. O quadro faz um registro alegórico da festa e é considerado como uma imagem da transição entre o Império e a República.
Entre as curiosidades divulgadas sobre o baile está um episódio supostamente ocorrido com Dom Pedro II. Conta-se que, ao entrar no Castelo, o monarca escorregou e, ao se levantar, disse em tom de brincadeira: “A monarquia tropeça, mas não cai”, ou, segundo outras fontes: “o Imperador tropeça, mas a monarquia está firme”. E o ‘folclore’ da festa não para aí.
Segundo o pesquisador Cláudio da Costa Braga, em seu livro “O último Baile do Império – o baile da Ilha Fiscal”, o engenheiro abolicionista André Rebouças teria dito que o baile “Foi um verdadeiro bacanal”. Nos dias que se seguiram, jornais que faziam oposição ao império publicaram listas de peças de vestuário encontradas ao final da festa. Da relação constavam desde ornamentos de patente militar, chapéus e inocentes lenços de cambraia, até coletes, ligas e outras peças íntimas.
Linha do tempo da Ilha Fiscal
Até tornar-se sede da alfândega, o lugar era conhecido como Ilha dos Ratos, segundo alguns por suas rochas lembrarem silhuetas desse animal, segundo outros por estar infestada de roedores fugidos da vizinha Ilha das Cobras. A escolha do local para instalação da sede da Alfândega teve motivação geográfica, pois a localização da ilha – no interior da Baía de Guanabara e próxima aos pontos de fundeio – facilitava o trânsito de mercadorias a serem inspecionadas em pequenas embarcações.
Mesmo depois da queda do Império, o Castelo da Ilha Fiscal continuou como sede da Alfândega. Em 1893, um grupo de altos oficiais da Marinha se rebelou, na Baía de Guanabara, contra o então presidente Floriano Peixoto – num movimento conhecido como Segunda Revolta Armada. Por sua localização, a Ilha Fiscal acabou atingida por balas de canhão que danificaram paredes e quebraram vitrais. Há quem diga que a ilha foi usada como ponto de apoio pelos revoltosos.
Desde 1903, a Ilha Fiscal pertence à Marinha6 e atualmente seu castelo funciona como museu histórico. Além das visitas guiadas, que acontecem em três turnos diários a partir das 12h45m, a construção é cenário de um Café da Tarde com música ao vivo. Tanto o café como algumas visitas contam com encenações do último baile. A Ilha Fiscal tem sido palco, ainda, de eventos empresariais e particulares, como aniversários e casamentos, inclusive de famosos.
As visitas são organizadas pelo Centro Cultural da Marinha, de onde partem as excursões. Os inscritos são orientados a chegar com antecedência a fim de visitar o navio Bauru e o submarino Riachuelo, que se mantêm ancorados no pier da instituição. A travessia dura apenas 10 minutos, na escuna Nogueira da Gama, mas em dias de mau tempo o acesso à ilha é feito de ônibus ou de van, por um ‘mole’ construído pela Marinha. De uma maneira ou de outra, a visita é um agradável encontro com a História do Brasil.7
Notas
- 1 Gnaissse é um tipo de rocha usada em trabalhos de cantaria - a mesma encontrada no Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro e na Pedra do Ingá, na Paraíba
- 2 Há relatos diferentes sobre o momento e as circunstâncias em que Dom Pedro II teria dito essa frase. Para alguns, foi um comentário feito por ele ao conhecer o projeto de Del Vecchio
- 3 Embora bastante característica do estilo gótico, a Cantaria é muito mais antiga e foi utilizada até mesmo pelos Incas
- 4 Essas bodas já teriam sido festejadas anteriormente, mas talvez houvesse a intenção de fazer uma nova comemoração
- 5 Os números variam conforme a fonte, então optei por informar os de maior consenso
- 6 A ilha Fiscal foi trocada com o Ministério da Fazenda pelo Vapor Andrada, que passaria a servir de alojamento aos guardas da Alfândega. A troca foi anunciada pela edição de 27 de janeiro de 1914 do Correio da Manhã, na terceira coluna
- 7 Leia, aqui no blog, matéria sobre outros lugares de importância histórica e cultural no Rio de Janeiro: Museu de Imagens do Inconsciente / Castelo Mourisco / Casa da Gávea / Urca / Museu do Amanhã / Cristo Redentor / Cais do Valongo
Ilha Fiscal – Baía de Guanabara – Rio de Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil – América do Sul
Fotos
Participação especial
- Augusta Leite Campos
Referências
- Site da Marinha, visita guiada e textos expostos no museu
- livro O último Baile do Império - o baile da Ilha Fiscal, de Cláudio da Costa Braga
- Artigo A Ilha Fiscal na Baía de Guanabara, no Site Brasiliana Fotográfica


Muito bom!!! Lugar lindo. Adorei o texto.
Valeu, Marize, obrigada pelo comentário. O lugar é lindo mesmo!
Sempre tive curiosidade sobre este castelo na minúscula ilha situada na Baia de Guanabara, desde adolescente, quando morava no Rio e estudava no centro, toda vez que o avistava do ônibus, que me levava e trazia da escola, abria uma curiosidade imensa dentro de mim para saber a respeito dessa micro ilha e seu castelo. Mais tarde fiquei sabendo que era a Ilha fiscal construída por D. PedroII e onde ocorreu o famoso baile de despedida da monarquia brasileira. Valeu, Silvinha, gostei bastante dessa sua pesquisa, que findou por matar toda a minha curiosidade a respeito da Ilha Fiscal.
Que legal. Bom saber que o texto conseguiu matar a sua curiosidade sobre a Ilha Fiscal, mas garanto que ir até lá pode ser melhor ainda!
Parabéns pelo texto, Sylvia!
Obrigada! Volte sempre!
Belo registro, Sylvinha! A ilha fiscal é a cara da minha infância, lembra muito a minha tia Stella, hoje, com 98 anos, lúcida e saudável, que não saía com a gente sem contar a história de cada monumento, prédio e o que quer que fosse, sempre que saia com os sobrinhos para passear aos domingos. A Ilha fiscal foi um desses lugares.
Bom saber que a matéria da Ilha Fiscal te trouxe boas lembranças.
Morei 10 anos no Rio et não conheço.
Agora fiquei com vontade.
Sempre bom te ler.
Muito obrigado.
Vale a pena. O castelo é lindo e a ilha muito agradável.
A Arte venceu a Política desde a criação do palácio da Ilha Fiscal para ser a Alfândega. Na cabeça de Dom Pedro II e no projeto de Aphonso Del Velcchio a estética tinha prioridade. Esse laço foi tão forte que mesmo após a derrota da monarquia e a chegada da república Del Vecchio conseguiu defender um símbolo do império pela sua beleza artística. Parabéns Sylvia por esse olhar além dos fatos.
Augusta
Valeu, Gusta!! Bom saber que gostou da matéria!