Atualizado em 04/01/2026 por Sylvia Leite
Para os turistas, não há dúvida: o distrito de Barra do Guaicuí – no município mineiro de Várzea da Palma – é ‘sinônimo’ de uma igreja inacabada, devotada a Bom Jesus de Matozinhos, que embora esteja em ruínas, e aparentemente sem manutenção, não desaba graças a uma gameleira que se enroscou em sua parede posterior. Essa curiosidade fez com que a igreja ganhasse fama e desse origem a diferentes lendas.
Mas o lugar tem também importância histórica e geográfica, pois marca o encontro do Rio das Velhas com o São Francisco e está fortemente relacionada à conquista do sertão por Jesuitas, Bandeirantes e outros caçadores de pedras preciosas. Se quisermos ir além, podemos dizer que nessa localidade encontra-se, provavelmente, a Guararavacã do Guaicuí – espaço literário paradisíaco, onde o personagem narrador do romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, o jagunço Riobaldo, teve certeza do seu amor por outro jagunço, de nome Reinaldo ou Diadorim, que, ao final da história, ele descobre ser uma mulher.
Alguns elementos que dão relevância ao local estão entrelaçados entre si. A Igreja de pedra, por exemplo, teria sido erguida por Jesuítas, com mão de obra indígena de Cariris migrados do Ceará – ou, segundo outras fontes, de escravizados negros. Os entrelaçamentos mesclam, ainda, o plano
literário com a Geografia, pois o lugar descrito por Riobaldo como um espaço de beleza e calmaria coincide com o que se vê ainda hoje na confluência do Rio das Velhas com o São Francisco. E como se quisesse confirmar a história de amor escrita por Rosa, o encontro de rios faz surgir uma ilha em forma de coração.
Embora se diga que Guimarães Rosa nunca visitou Barra do Guaicuí ou mesmo Várzea da Palma, ele provavelmente sabia de tudo isso ao localizar em um espaço indefinido daquela região o lugar paradisíaco onde Riobaldo respirou paz e suspirou de amor por Diadorim. Já as narrativas que envolvem os Jesuítas vêm da tradição oral do lugar, mas relatos escritos por viajantes atestam que alguns padres da Companhia de Jesus realmente estiveram na região. Os Bandeirantes também teriam passado por lá e sua memória está registrada em uma estátua de Fernão Dias no centro do povoado.
Histórias e lendas sobre a igreja
O fato de a igreja nunca ter sido concluída foi registrado pelo médico e botânico austríaco Johann E. Pohl e pelo escritor e biólogo inglês Richard Burton. O relato de Burton, usado pelo Iphan na justificativa de tombamento da ruína, atesta o abandono da igreja já no sécuolo 19: ‘a entrada do lado sul nunca chegou a ser coberta por um telhado; na sacristia, a leste, só há caibros e o campanário não passa de três barras de madeira, em forma de forca, sustentando o sino. Pilastras e púlpitos de pedra estão condenados a não passar de embriões e um arco de alvenaria destinada a marcar o lugar do altar-mor, ao norte, está coberto de ervas-daninhas’.
Há varias narrativas sobre o motivo pelo qual a igreja de Barra do Guaicuí ficou inacabada. Uma delas afirma que o projeto foi abandonado porque, com a chegada dos bandeirantes, os Cariris – que tocavam a obra – tiveram que fugir. Outros acreditam que os trabalhadores morreram de malária. Há quem diga, também, que a construção foi suspensa quando se constatou que poderia haver uma inundação no local pelo fato da igreja estar a poucos metros do Rio das Velhas. E por fim há a lenda da enchente segundo a qual a igreja foi coberta pelas águas antes de ser concluída e ficou submersa por muitas décadas.
Um caso de submersão parece ter ocorrido de fato, mas no povoado vizinho, na Igreja de Nossa Senhora de Bom Sucesso e talvez isso tenha provocado confusão. Houve também epidemia de malária e de outras doenças tropicais na região, o que teria provocado o abandono de Barra do Guaicuí por quase um século a partir da década de
1.700. Uma dessas febres, inclusive – não se sabe exatamente qual – matou Fernão Dias quando ele voltava do Vale do Jequitinhonha levando para São Paulo as turmalinas verdes que julgava serem esmeraldas. Mas não há registros de que tenha sido essa a causa da paralização da obra da Igreja.
Há, ainda, a lenda da Gameleira que, segundo uma das versões, teria sido plantada por um passarinho com o fim de proteger a igreja. Mas a explicação para a existência de uma árvore embrenhada na parede vem também de outra lenda; a da inundação. De acordo com essa versão, a construção passou anos submersa e quando as águas baixaram, a igreja reapareceu trazendo junto a árvore gigante.
A história nua e crua
O cenário de todas essas histórias está reduzido, hoje, a uma vila de apenas 50 casas, mas no passado chegou a ser sede de município e segundo o Guia de Bens Tombados do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha – MG), é considerado berço da História Regional. De acordo com a publicação, Barra do Guaicuí – que anteriormente chamou somente Barra, e Barra do Rio das Velhas – foi foi também palco de importantes transações comerciais. Sua exploração teria começado como sede do Morgado de Guedes de Brito – o segundo maior latifundiário do país no início do século 17, cujas terras iam da nascente do Rio das Velhas até Salvador.
No período da mineração, o local era considerado estratégico por ser o porto de entrada de mercadorias destinadas a Vila Rica (atual Ouro Preto) e Sabará. Sua prosperidade deveu-se, também, à produção de sal, que embora de baixa qualidade, era largamente consumido pelos criadores de gado e pela população, tanto pelo baixo preço como pela facilidade de acesso. Barra do Guaicuí ficou conhecida como a ‘Região do Peixe Seco’ por exportar o resultado da pesca no Rio das Velhas e no São Francisco para a região mineradora. O responsável por essa atividade econômica era Manoel Nunes Viana, o português vencedor da Guerra dos Emboabas, ocorrida no início do século 18.
A paradisíaca Guararavacã
Mas tudo isso aconteceu, claro, nos espaços habitados e nos portos. O território paradisíaco citado por Riobaldo está localizado, caso exista, na área rural: “Por lá, nas beiras, cantava era o joão-pobre, pardo, banhador…Os quem-quem, aos casais, corriam, catavam, permeio às reses, no liso do campo claro”1.
Para muitos, a Guararavacã do Guaicuí – caso tenha existência geográfica – e não apenas literária – encontra-se bem próxima à ilha em forma de coração, ou quem sabe nela. Já para o escritor e ex-diretor de Cultura de Várzea da Palma, Moisés Vieira Neto, o paraíso de Riobaldo está de fato em Várzea da Palma, mas não em Barra do Guaicuí e sim na Fazenda Guarará – que pertenceu originalmente a Gregório Gomes Magalhães.
De acordo com Moisés, o nome da fazenda “pode ser traduzido das linguas indigenas como guará grande”: guará, em referência a esse tipo de lobo que habitava a região e a última sílaba ‘ra’ como indicação de que os animais eram grandes. Seguindo esse raciocínio, o pesquisador acredita que Guararavacã significaria ‘guará tão grande como uma vaca’. 2 Mas há pelo menos mais uma versão para a explicação desse topônimo: segundo Francis Utéza, Guararavacã seria uma corruptela de “coarar vacã” – ou “viver no dolce farniente”, que numa livre tradução do italiano pode ser entendida como o doce prazer de fazer nada, o que está em consonância com a descrição do lugar feita pelo personagem Riobaldo3.
Seja qual for a versão verdadeira, Guimarães Rosa parece ter sido inspirado pela natureza da região não se sabe se de forma genérica ou se por um ponto específico que pode estar tanto na fazenda Guarará como próximo ao encontro dos rios. O fato é que o tal Guararavacã, seja real ou fictício, tornou-se, na voz de Riobaldo, o cenário da virada do romance: “Mas foi nesse lugar, no tempo dito, que meus destinos foram fechados […] Aquele lugar, o ar. Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim — de amor mesmo amor, mal encoberto”4.
Talvez tenha sido para não deixar rastros de sua existência que Guimarães tratou de dar sumiço no Guararavacã, substituindo-o, no próprio texto, por um lugar cujo nome remete ao comércio feito pelos caixeiros viajantes, sugerindo a mudança da paisagem em decorrência de processos econômicos: “de derradeiro, ali se chama é Caixeirópolis; e dizem que lá agora dá febres. Naquele tempo, não dava. […] Agora, o mundo quer ficar sem sertão. Caixeirópolis, ouvi dizer”5. Para alguns, com essa menção à transformação do local, Guimarães quis anunciar a destruição do sertão pelas monoculturas e pela pecuária que já se desenhavam na época.
Mas aquela igreja sustentada por uma gameleira à margem do Rio das Velhas, embora contenha em sua história a memória das febres que assolaram Barra do Guaicuí e toda aquela região, não nos lembra a Caixeirópolis descrita no livro nem a suposta premonição de Guimarães. Ao contrário: nos faz sonhar com a Guararavacã do amor, da paz e da abundância: “Todo dia se comia bom peixe novo, pescado fácil: curimatã ou dourado;… Também razoável se caçava. .. Dormi, sestas inteiras, por minha vida. Gavião dava gritos, até o dia muito se esquentar… Me lembrei do não saber”.67
Notas
- 1 Grande Sertão:Veredas, romance de Guimarâes Rosa, pág. 279, 22ª Edição, Companhia das Letras, 2.019
- 2 Não há confirmação dessa tese nos dicionários consultados. Alguns deles admitem a existência, no Tupi Guarani, do que chamam de reduplicação fonética, como no caso da palavra atiati, que significa gaivota grande, mas não há nada sobre a palavra guarará
- 3 Metafísica do Grande Sertão, de Francis Utéza, pág 394, Edusp, 1994
- 4 Grande Sertão:Veredas, pág. 279, 22ª Edição, Companhia das Letras, 2.019
- 5 Grande Sertão:Veredas, pág. 278, 22ª Edição, Companhia das Letras, 2.019
- 6 Grande Sertão:Veredas, pág. 277, 22ª Edição, Companhia das Letras, 2.019
- 7 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares relacionados à obra de Guimarães Rosa: Cordisburgo / Sagarana / Morro da Garça / Morrinhos / Andrequicé / Paracatu / Gruta de Maquiné / Corinto / Araçaí / Morro do Fogo / Caminho do Sertão / Parque Grande Sertão Veredas / Curvelo
Barra do Guaicuí – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- (1,3,4,5,6) Sylvia Leite
- (2) Renato Lopes em Flickr
Referências
- Grande Sertão:Veredas, romance de Guimarâes Rosa, 22ª Edição, Companhia das Letras, 2.019
- Artigo Igreja do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, de Elizabeth Sales de Carvalho e Guilherme Gomes da Silva, no Guia dos Bens Tombados do Iepha - Volume 1 - página 215
- Teto sobre Barra de Guaicuí no Site da Prefeitura de Várzea da Palma


Incrível a conexão que vc faz entre o passado fictício, o passado real e o prezente …viajei na estoria de Guimarães Rosa , deu para sentir a pureza dos seus personagens e como a natureza é retratada , num sertão árido e seco…parabéns, Sylvia ! Gostei muito
Que bom que gostou!
Volte sempre!!
Lindeza de matéria, Sylvinha!
Como sempre, seus relatos são cativantes!
Abraços
Adoro seus comentários, Val, obrigada.
Sylvia que encantamento essa mistura de árvore que abraça uma igreja inacabada, com afluente do Rio São Francisco , história de bandeirantes e jesuítas com literatura de Guimarães Rosa. O que é lenda e o que é história?
Augusta
Pois é, Augusta, esse lugar nos dá tanta informação que fica difícil saber o que é realidade, o que é lenda, o que é Literatura.
Sylvia . Novamente parabéns.Quando lá estive, me contaram que Fernão Dias estivera enterrado lá, posteriormente com restos levados para SP. Seria correto este informe?
Que seus restos mortais foram levados para São Paulo, parece não haver dúvida mas se antes disso foi enterrado em Barra do Guaicuí,creio que não ha confirmação.
Sylvia que curioso!!! Não sabia desses detalhes do grande sertão. Parabéns!!
Legal, né? Eu também fui descobrindo aos poucos com a leitura e com as viagens.
Muito legal por ir a um lugar que a gente conheceu nos livros, mesmo que seja uma fantasia… gosto de acreditar nessas coisas. Adorei, Sylvinha!
Que bom que gostou, Soninha. Eu também acho muito bom visitar lugares que só conhecemos pelos livros.