Cipó: um oásis de água termal em pleno sertão

Tempo de Leitura: 9 minutos

Atualizado em 05/02/2026 por Sylvia Leite

Grande_Hotel_Caldas_de_Cipo_e_praça--Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAO município de Cipó1, no sertão da Bahia, tem apenas 17 mil habitantes e uma área urbana tão pequena que, como brinca o poeta local Ranieri Caetano, “pode ser percorrida de bicicleta”. Mas em contraste com esses modestos números – bastante comuns na região Nordeste – a cidade exibe construções grandiosas e guarda uma história relevante tanto na área do Turismo como no campo da Saúde. Tudo isso, graças às suas fontes termais que além de fazerem dela um oasis, foram responsáveis por inúmeras curas e atraíram celebridades como o presidente Getúlio Vargas, o empresário Assis Chateaubriant e o escritor Guimarães Rosa.

As visitas ilustres foram motivadas pela inauguração do Grande Hotel Caldas de Cipó – um empreendimento de quatro andares, composto por 80 apartamentos, que levou 10 anos para ser erguido, período em que, segundo conta o poeta e atual diretor de Cultura do município, Carlos Silva, a cidade fervilhou com a presença de operários Fonte_praça_Cipó-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIArecrutados em vários municípios nordestinos. A inauguração, em 1952, foi estrategicamente realizada no dia 24 de junho – uma das datas festivas mais importantes do Nordeste: a véspera de São João – e dela participaram, segundo Silva, cerca de 10 mil pessoas.

Entre os convidados estavam “mais de meio milhar de vaqueiros” como registrou Guimarães Rosa em uma nota de viagem que acabou se transformando em um capítulo do livro póstumo “Ave, Palavra”. E essa presença não era casual. Durante o evento, o presidente Getúlio Vargas foi condecorado com a Ordem do Vaqueiro.

Segundo Rosa, o evento promoveu “uma homenagem recíproca entre o Chefe da Nação e os simples vaqueiros do Sertão Ulterior” e “desferiu um comando de poesia” ao colocar “sob tantos olhos os homens de um ofício grave a arcaico, precisando de amparo”.2

Guimarães Rosa em Cipó

A passagem de Guimarães Rosa por Cipó foi amplamente registrada, na época, por jornais da grande imprensa, e marcada por uma foto em que o escritor mineiro Guimarães_Rosa_em_Cipó_e_Capa_livro_Ave_João-Foto_historica_e_divulgação-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIA posa montado em um cavalo, e com trajes de boiadeiro, na frente do Grande Hotel Caldas de Cipó.

Os paramentos visavam um dos pontos da solenidade: a recepção feita a Getúlio Vargas, no campo de pouso, por vaqueiros de diversas localidades vestidos a caráter e comandados por personalidades convidadas. A Guimarães Rosa coube liderar os grupos da própria Cipó e de Nova Soure – município vizinho confundido por alguns veículos com a Soure paraense, localizada na Ilha de Marajó.

Essa visita a Cipó, segundo a prima do escritor Enny Guimarães de Paula, está entre os elementos inspiradores de sua obra. No livro “Ave, João”, publicado em 2010, ela afirma que “os textos de ‘Corpo de baile’ e de ‘Grande Sertão: veredas’ são, em parte, a transfiguração maravilhosa feita pelo autor da experiência vivida como boiadeiro na viagem ao interior do sertão mineiro tangendo a boiada 3 [..] e de outra experiência vaqueira na recepção ao presidente da República, Getúlio Vargas, em Caldas do Cipó, no Sertão da Bahia, onde foi a convite do jornalista e empresário Assis Chateaubriant”.

A história da estância termal

Grande_Hotel_Caldas_de_Cipo-Foto_autor_desconhecido-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAAs visitas ilustres deram ao município uma visibilidade nacional, mas quando o Grande Hotel (foto) foi inaugurado, as termas de Cipó já tinham uma longa história de cura e de Turismo, o que incluía um hotel, um cassino e um centro de tratamento.

Não se sabe ao certo como as fontes foram descobertas. Diz a lenda que um caçador, ao passar pela margem do rio Itapicuru, atirou em algumas aves que caíram dentro da água e, ao tentar resgatá-las, ele sentiu um jato quente. A versão oficial diz apenas que, em 1730, o padre jesuíta Antônio Monteiro Freire comunicou ao vice-rei do Brasil na Bahia, Vasco Fernandes César de Menezes a existência de fontes cujas águas  “curavam radicalmente enfermos desenganados pela medicina”.4

Capa_Livro_sobre_Cipó-Foto_capa-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAEmbora no período em que ocorreu ese registro, as fontes do rio Itapicuru já estivessem sendo exploradas informalmente, foi somente um século depois, entre 1829 e 1831, que surgiram as primeiras casas de banho em um terreno vizinho, onde hoje se encontra Itapicuru. Na atual Cipó foi instalado um alojamento para abrigo dos doentes.

Até aquele momento, a utilização das termas do rio Itapicuru ainda não tinha respaldo da Medicina, como informa Edson Fernandes de Oliveira Santos Neto, em seu livro “Estância Hidromineral de Cipó – um balneário no sertão da Bahia“. Segundo o pesquisador, foi somente em 1843 que uma comissão da Faculdade de Medicina da Bahia analisou as propriedades físicas e químicas daquelas águas e deu “indicações do seu uso para diversas doenças”.

Cerca de meio século depois, a Empreza Águas do Cipó criou uma indústria de engarrafamento da agua mineral que não chegou a funcionar por falta de estrutura rodoviária para escoar o produto. A mesma empresa construiu um balneário que também não deu certo.

A Estância Hidromineral de Cipó

Ruínas_balneário_Cipó-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAO impulso para a Criação da Estância Hidromineral de Cipó – a primeira da Bahia 5– veio com o médico Genésio Salles, que frequentava a região desde a primeira década do século 20 e tinha um chalé onde a família se hospedava para usufruir das águas curativas.

Na época, o principal entrave à exploração das águas era a dificuldade de acesso. Para se ter uma ideia da situação, o trem que ligava Salvador à região do Semiárido chegava somente até Alagoinhas, que fica a cerca de 130 km de Cipó. Daí em diante, a viagem era feita em carros de boi ou em lombos de animais.

Com o fim de chamar atenção para o problema e divulgar as águas de Cipó, Salles fez uma lendária viagem de automóvel mato adentro. Segundo relatos históricos, por onde o médico passava, os sertanejos adoravam o carro e depositavam dinheiro e ex-votos em agradecimento por graças alcançadas.

Radium_Hotel_Cipo-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA partir de 1928, já com a concessão para exploração das águas, Salles começou a construir seu complexo terapêutico que incluiu um balneário com acompanhamento médico (foto) – hoje em ruínas – , um local para hospedar os banhistas, um teatro, além de ‘marinetes‘ para fazer o transporte entre Alagoinhas e Cipó. A primeira hospedaria era uma adaptação do chalé da família, mas pouco depois foi erguido o Radium Hotel (foto) onde funcionava um salão de jogos6, um cinema e uma biblioteca.

O sucesso do empreendimento impulsionou a criação oficial da Estância Hidromineral de Cipó e fez surgir um plano de expansão que faria de Cipó uma cidade modelo a ser reproduzida em outros pontos da região. O carro chefe do projeto foi a praça Juracy Magalhães, onde ficava o Radium Hotel – hoje abandonado – e onde, décadas depois, viria a ser construído o famoso hotel balneário. Ruas e avenidas foram abertas e pavimentadas . Cipó foi a primeira cidade da região a ter calçamento de paralelepípedo, esgotamento sanitário, iluminação pública além de outras modernidades, inclusive uma agência bancária.

Grande_Hotel_Caldas_de_Cipó-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA inauguração do Grande Hotel (foto), em 1952, teria, segundo os moradores, marcado o início do declínio do projeto terapêutico de Genésio Salles, pois sua concorrência enfraqueceu o movimento no Radium Hotel, prejudicando o faturamento do grupo, o que acabou atingindo também o balneário. Quando Genésio morreu, em 1960, o Grande Hotel já estava em declínio.

Mas a chegada da concorrência parece ter sido apenas uma das causas da falência do complexo turístico terapêutico construído pelo médico. Naquela época, começaram a surgir outras Estâncias Hidrominerais, inclusive a de Caldas do Jorro, localizada na mesma região. Outro fator teria sido a descoberta de medicamentos para males antes curados somente pelas águas. Fala-se, ainda, na proibição dos jogos de azar, mas a medida havia sido tomada na década de 1940 e, além disso, parece não haver certeza sobre a natureza dos jogos praticados no Radium Hotel.

Um “Titanic à margem do Itapicuru”

Secretaria_em_predio_do_Grande_Hotel_de_Cipo-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAPelo menos alguns desses motivos teriam contribuído també para o declínio e fechamento do próprio Grande Hotel, o que aconteceria no finalzinho dos anos 1960 depois de um curto período de glória, em que foi frequentado por políticos, fazendeiros e ricos comerciantes.

Em 1982, houve uma tentativa de revitalização. O Grande Hotel voltou a funcionar com metade dos quartos e emprestou suas instalações para um Centro Administrativo, com órgãos públicos como a Secretaria da Fazenda, o Banco da Bahia (Baneb), mas a experiência durou somente até 2003.

Hoje, o Grande Hotel é comparado pelo poeta Ranieri Caetano a um “Titanic ancorado à margem do rio Itapicuru”. O prédio está inteiro, mas sem conservação. Os apartamentos foram abandonados. Parte das áreas comuns está ocupada por órgãos públicos, como a Secretaria da Educação (foto), a Biblioteca Pública e a Câmara Municipal.

A Cipó atual: lazer sem terapia

Piscina_publica_em_Cipó-Foto_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIACom o fim do ciclo terapêutico, Cipó passou por um longo período de esquecimento. Nas últimas décadas, a cidade voltou a atrair visitantes, principalmente da redondeza.

Os novos turistas buscam sossego e descanso, com direito a banhos de água termal nas várias piscinas e cascatas que a cidade vem ganhando desde a década de 1980, algumas delas inteiramente gratuitas .

No bairro Pindobal , por exemplo, o parque recém construído inclui também uma lagoa de águas termais, onde se pode pescar e andar de caiaque. O lugar é aberto e tem livre acesso (foto) mas, surpreendentemente, permanece limpo e sem qualquer degradação. No centro da cidade, há uma cascata em praça pública e dois parques fechados, um deles também gratuito. Isso sem falar em balneários distribuídos pelos bairros e pela área rural.

Lagoa_Thermal_Cipó-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAApesar de toda essa estrutura, que garante ao visitante uma temporada de calma e deleite, os que viveram os tempos áureos da estância hidromineral e os que conhecem a história da cidade ainda sonham com a volta de atividades terapêuticas para um melhor aproveitamento das águas termais, como ocorre em Caldas da Imperatriz e como existiu na própria Cipó até algumas décadas atrás.

O poeta Ranieri Caetano e outros moradores da cidade, como é o caso do diretor de Cultura do Município  Carlos Silva, acreditam que ainda há vida no Grande Hotel Caldas de Cipó e portanto esperanças de revitalização.7

Notas

  • 1 A origem do nome Cipó remete à vegetação que cobria o vale do Rio Itapicuru, onde, segundo a lenda, um caçador descobriu as águas termais da região
  • 2 Ave,Palavra, Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, página 194
  • 3 Essa primeira experiência mencionada por Enny refere-se à viagem de dez dias, a cavalo, que Guimarães Rosa fez entre as fazendas Sirga (em Três Marias) e São Francisco (em Araçaí), ambas comandadas por seu primo Chico Moreira, acompanhando uma boiada
  • 4 Citado por aa
  • 5 Oficialmente, Cipó foi a primeira estância da Bahia, mas os cipoenses reivindicam o título de primeira do Brasil pois o primeiro registro de suas águas termais foi feito em 1730, enquanto a descoberta das termas de Caldas da Imperatriz - considerada a primeira do Brasil - teria ocorrido em 1813
  • 6 há quem diga que era um cassino, mas alguns moradores afirmam que eram jogos para diversão sem apostas
  • 7 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares relacionados à obra de Guimarães Rosa: Cordisburgo / Sagarana / Morro da Garça / Morrinhos / Andrequicé / Paracatu / Gruta de Maquiné / Corinto / Araçaí / Morro do Fogo / Caminho do Sertão / Parque Grande Sertão Veredas / Curvelo

Cipó – Vale do Itapicuru – Bahia – Nordeste – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,2,7,8,9,10,11,12) Sylvia Leite
  • (3/4) Capa de livro - Divulgação
  • (5) Foto histórica de autor desconhecido
  • (6) Capa de livro

Referências

Consultoria

  • Carlos Silva
  • Ranieri Caetano
  • Marta Oliva Leite

Participação especial

  • Guilherme Andrade Nunes
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Geraldo Rodrigues Álvares
Geraldo Rodrigues Álvares
7 meses atrás

Bom dia, Sylvia ! Foi um prazer ler o seu texto e também encontrar nele referência a D. Enny , de tão saudosa memória e que tive a honra de conhecer, aqui em Curvelo. Geraldo.

Ranieri Caetano
Ranieri Caetano
7 meses atrás

A matéria trata, em textos e fotos, muito do passado e da atualidade das Aguas Termais de Cipó e que merece uma ao Semiárido baiano !

Mauray
Mauray
7 meses atrás

Como sempre Sylvia Leite aprofunda com maestria os seus artigos e, com Cipó, não foi diferente. Gratidão pelas memórias que me trouxe: uma única viagem que fiz até lá na década de 80, e Lucila e Lucéia, minhas tias paternas se curaram da acne na juventude e sempre lembravam com carinho dessa cidade. Segundo o registro delas, era muito animada e passaram várias férias por lá. Ah, já vou comprar o Ave, palavra de Guimarães Rosa. Parabéns!

Mayra
Mayra
7 meses atrás

Ob

Augusta Leite Campos
Augusta Leite Campos
7 meses atrás

Sylvia que Brasil é este que você nos leva a conhecer. Nunca ouvi falar antes deste lugar tão interessante.

Augusta