Troia: a cidade que inspirou poemas épicos

Tempo de Leitura: 8 minutos

Atualizado em 29/04/2024 por Sylvia Leite

Cavalo de Troia - Foto Dina e Marco - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAQuem não gosta de Literatura nem de Mitologia, deve pensar muitas vezes antes de decidir ir a Troia. Em contraste com o carisma do seu mitológico cavalo, as ruínas da antiga cidade grega não têm muito o que oferecer aos olhos se a visão não estiver impregnada pelo que se leu ou ouviu a respeito de sua história – seja ela a real ou a mitológica. Agora, para os que se encantam com as narrativas épicas e já leram pelo menos um resumo da Ilíada, conhecem um pouco de mitologia ou assistiram algum filme sobre o tema, a visita pode se transformar em uma jornada de reconhecimento.

No ponto inicial do trajeto há num enorme cavalo de madeira – que tenta reconstituir o cavalo mitológico -, onde se pode entrar e vislumbrar a sensação dos que supostamente se esconderam dentro dele para, em seguida, atacar a cidade. Daí em diante, não há mais experiência lúdica. Em vez disso, surgem enormes espaços áridos compostos apenas por pedaços de colunas e restos de muros, paredes ou rampas. Mas as ruínas não são todas assim? Em Troia a destruição aparenta Ruínas de Troia - Foto Dina e Marco - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAser maior. E isso, ao que parece, se deve a mais de um fator.

O primeiro deles talvez seja a forma como foi escavada, a partir de 1871, pelo alemão Heinrich Schliemann, sem maiores cuidados com a preservação do que ainda estava em pé. Segundo alguns, ele agiu assim porque sua intenção era apenas localizar o tesouro do rei Príamo, que seria composto por peças de ouro e cobre. Mas há também a hipótese de que isso tenha ocorrido por falta de conhecimento.

Schliemann não era um arqueólogo de formação e sim um empresário que enriqueceu e passou a praticar arqueologia com seus próprios recursos, alimentando um sonho de infância. Ele teria pedido desculpas pelo que fez a Troia pouco antes de morrer e é reconhecido como autor da importante descoberta de suas ruínas.Resto de muro - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Troia: uma cidade com nove vidas

Outra razão para o estado do local poderia ser atribuída às sucessivas destruições. As escavações de Schliemann levaram à identificação de nove cidades, construídas sucessivamente, cada uma sobre os escombros da anterior.

Quem visita Troia sem conhecimento prévio, certamente terá dificuldade de entender o que vê. Para os que se preparam, também não é fácil compreender o que representa cada fragmento e muito menos identificar a qual das nove cidades eles pertencem. A diferença é que um simples detalhe das ruínas, ou do que é narrado pelo guia, pode trazer a memória de uma cena ou de um personagem mitológico. E, quando isso acontece, cria-se uma ponte capaz de aguçar a percepção.

Resto de parede - Foto Dina e Marco - BLOG LUGARES DE MEMÓRIADe acordo com as pesquisas arqueológicas realizadas no local, teria sido na Troia VII que aconteceu a famosa guerra e o conhecido episódio do cavalo de madeira. Conta a mitologia grega que os aqueus (povos que habitavam a atual Grécia) e os troianos (povo que habitava a atual Anatólia, na Turquia) enfrentaram-se por causa de uma mulher chamada Helena e a guerra acabou levando à destruição de Troia. A história é um pouco longa, e cheia de detalhes, mas vale conhecer pelo menos o seu resumo.

Tudo teria começado na festa de casamento da deusa Tétis com o mortal Peleu, para a qual todo o Olimpo foi convidado com exceção da deusa Éris, da Discórdia. Ofendida, Éris compareceu à cerimônia e deixou uma maçã de ouro sobre a mesa onde estavam as deusas Hera, Atena e Afrodite.

Resto de muro decorado - Baixo relevo - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIANa fruta estava escrito: “à mais bela”. Logo, as três começaram a disputar a maçã e, depois de algumas negociações, concordaram que o príncipe Páris, filho do rei Príamo, de Tróia, deveria ser o juiz da disputa.

A disputa pelo amor de Helena

As três deusas tentaram corrompê-lo para alcançar a condição de mais bela e, com isso, ter direito à maçã (ou pomo) de ouro: Atena lhe prometeu sabedoria, Hera ofereceu o poder sobre a Ásia. Quem ganhou o prêmio foi Afrodite, deusa do amor, por ter oferecido a Páris a possibilidade de conquistar Helena, filha de Zeus com a rainha Leda, e descrita por ela como a mais bela mortal do mundo. Mas Helena era casada com Menelau, o rei de Esparta e, quando Páris conseguiu convencê-la a partir com ele, provocou a ira dos aqueus contra Troia.

Decoração de muro em baixo e alto relevos - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAUm episódio anterior a tudo isso justifica a grande mobilização desses antigos gregos, que viviam em distintas cidades-estados – entre elas Esparta – em apoio ao traído rei Menelau. Ocorre que a mão de Helena havia sido disputada por muitos pretendentes e, para evitar confrontos e divisões, todos teriam chegado ao acordo, sugerido por um deles – Ulisses (ou Odisseu), rei de Ítaca -, de não apenas aceitar a escolha que fosse feita por Helena, como assumir o compromisso de protegê-la e zelar pelo seu casamento.

A guerra durou dez anos e, novamente, os aqueus decidiram aceitar uma sugestão de Ulisses. Construíram um cavalo de madeira, colocaram soldados dentro dele e esconderam-se em suas embarcações, simulando uma retirada. O cavalo, com guerreiros em seu interior, foi colocado na porta da cidade em sinal de paz, como um presente para a deusa Atena, que tinha um templo dentro da cidade. Ao constatar a ausência dos aqueus depois de dez anos de guerra, os troianos beberam para comemorar e caíram no sono. Quando isso ocorreu, os troianos saíram do cavalo e abriram as portas da cidade que foi invadida, destruída eRuínas de Troia - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA incendiada.

A Eneida e a Ilíada: poemas épicos que narram a Guerra

A Guerra de Troia está no centro, ou na origem, de grandes poemas épicos, mas a Eneida e a Ilíada são os que têm uma relação mais direta com sua história. Na Eneida, do poeta romano Virgílio, o herói Eneas – que se salva da guerra e foge com a família para a península itálica – narra a Dido, rainha de Cartago, o último dia de Troia, marcado pelo episódio do cavalo. A Eneida teria repercutido, de uma maneira ou de outra, em várias obras literárias, entre as quais Os Lusíadas, de Luís de Camões, e A Divina Comédia, de Dante.

A Ilíada, por sua vez, é inteiramente dedicada a essa guerra. Narra os últimos 51 dias do conflito que teria durado 10 anos. São quase 16 mil versos compostos em um tipo de métrica conhecida como hexâmetro horóico ou hexâmetro datílico por assemelhar-se às proporções de um dedo,Antiga rampa - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA que tem uma falange longa e duas curtas. Era a métrica usada nos poemas épicos da Grécia Antiga. Como na época de sua criação – provavelmente no século 8 antes de Cristo – vigorava a tradição oral, acredita-se que a Ilíada foi divulgada originalmente por meio dos aedos, espécie cantadores que recitavam suas poesias ou obras de terceiros ao som da lira. Somente dois séculos depois é que teria ganho uma versão escrita, na qual os versos foram organizados em 24 cantos que correspondem às 24 letras do alfabeto grego.

O título Ilíada vem da palavra grega Ílion, que era o outro nome de Troia. O poema é considerado uma das obras mais importantes da literatura mundial e, ao lado da Odisséia – que conta a volta de Ulisses da mesma guerra – , representa o modelo de poesia épica. Tanto a Ilíada como a Odisséia são atrbuídas a Homero, uma figura sobre a qual pairam várias dúvidas, inclusive se realmente existiu históricamente ou se foi um personagem criado para dar uma autoria a esses e outros poemas.

Restos de colunas e outras ruínas de Troia - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAOs defensores da tese da inexistência histórica de Homero acreditam que os dois poemas épicos resultam de uma espécie de acúmulo de histórias contadas ao longo dos séculos, como é o caso do clássico As Mil e Uma Noites.

Guerra de Troia: Mito ou história?

Assim como ocorre com Homero, questiona-se também a existência histórica da Guerra de Tróia, uma cidade destruída pelo menos oito vezes e reconstruída sobre os próprios escombros. Caso a guerra tenha realmente existido – e hoje já se acredita mais nisso que tempos atrás – provavelmente não ocorreu por razões amorosas e sim por motivos comerciais, já que Troia está geograficamente localizada em um ponto que era considerada estratégico para o fluxo de mercadorias entre os povos da época.

Pesquisas arqueológicas confirmaram a existência de conflitos no local, depois que foram descobertos, entre as ruínas, restos deRuínas de Troia - Foto Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA armamentos e um esqueleto com a mandíbula quebrada e ferimento na cabeça, mas levanta-se também a possibilidade desses achados serem evidências de uma guerra civil e não de um confronto externo.

Caso realmente tenha existido – e há muitos defensores dessa tese – a guerra provavelmente ocorreu na Troia VII, que teria permanecido em pé por cerca de um século, num período localizado entre 1300 e 950 antes de Cristo. De acordo com as pesquisas arqueológicas, Troia VII foi destruída por uma guerra e foi lá que os arqueólogos encontraram as armas e os esqueletos. Além disso, há no local vestígios de incêndio.

A imagem de Troia se perpetua e ganha novos terrenos

Para quem gosta do assunto, há muitas hipóteses e inúmeros detalhes a serem conhecidos, todos muito interessantes, mas nenhum deles mais envolvente que a narrativa lendária e seu principal ícone – o grande cavalo de madeira.

Detalhe do cavalo de madeira - Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAEssa imagem já faz parte do repertório da cultura ocidental e deu origem à expressão popular “presente de grego”, dita quando alguém quer fazer falar de forma metafórica sobre algo que se apresenta como um regalo, mas traz embutida uma surpresa desagradável. Uma das inúmeras referências atuais a essa metáfora está na canção “Anjo de fogo“, de Alceu Valença.

Eu sou como o vento que varre a cidade
Você me conhece e não pode me ver
Presente de grego, cavalo de Tróia
Sou cobra jibóia, Saci Pererê…

O imaginário da guerra chegou ainda à informática, dando nome a um tipo de programa malicioso (malware) que tem a aparência de software legítimo, ou se esconde dentro de um software legítimo violado. O conhecido ‘Cavalo de Troia’ pode atrapalhar o desempenho de computadores, excluindo, bloqueando ou modificando dados, ou pior: roubando informações pessoais, inclusive senhas.1

Notas

Troia – Hisarlik – Trôade – Anatólia – Turquia – Ásia

Texto

Fotos

  • (1,2,4) Dinorah Regis
  • (3, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 ) Sylvia Leite

Livros

Filmes

Agradecimentos

  • Dinorah Regis
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12 Comentários
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Unknown
4 anos atrás

Lugar maravilhoso!! Gratidão Sylvia!

sonia pedrosa cury
4 anos atrás

Muito bom poder constatar a história que se viu nos livros e nos filmes, né?
Amei, Sylvinha!
Beijão
sonia pedrosa

Val Cantanhede
4 anos atrás

Como sempre, a leitura de seus textos é uma viagem, Sylvinha!
Lendo sua matéria me lembrei de um filme muito antigo, estrelado por Rosana (ou Rossana) Podestá, no papel de Helena de Tróia. Depois desse, outros filmes abordaram essa guerra, mas sem o romantismo que marcou o primeiro.
Ainda no ginásio, meu professor de história já levantava a hipótese de que essa guerra não se deu por Helena, mas por motivos mercantilistas. Mas meu grupinho de pré-adolescentes românticas preferiu a versão cinematográfica à histórica.
Bjs,
Val Cantanhede

Anônimo
Anônimo
4 anos atrás

Ulisses é conhecido como um grande estrategista de guerra, porém em minha opinião ele foi um grande feminista. Varios séculos antes da era cristã ele convenceu muitos homens poderosos a respeitarem a escolha de uma mulher e a defenderem, mesmo diante da circunstância de que seus próprios interesses seriam contrariados. Viva Ulisses. ������
Augusta Leite Campos

Unknown
4 anos atrás

Muito interessante. Bjs

William scanferla
William scanferla
3 meses atrás

Excelente, obrigado!