Theatro da Paz: europeu, mas também amazônico

Tempo de Leitura: 6 minutos

Atualizado em 24/01/2022 por Sylvia Leite

Fachada do Theatro da Paz - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAÀ primeira vista, o Theatro da Paz, em Belém do Pará, parece apenas um belo prédio de inspiração europeia como tantos outros que foram erguidos no Brasil naquela época – a segunda metade do século 19. Mas quem ficar atento aos detalhes perceberá que a construção em estilo Neoclássico está repleta de referências à região amazônica, seja na decoração ou nos acabamentos, seja na temática ou na escolha de homenageados.

Entre os traços mais evidentes dessa expressão regional estão as peças decorativas. Embora, em sua maioria, tenham sido produzidos em outros países, e obedecendo a estilos estrangeiros, trazem referências nitidamente amazônicas. É o caso dos mosaicos em pedra Lustre do salão de espetáculos do Theatro da Paz - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAportuguesa no hall de entrada, que representam, de forma estilizada, elementos da flora local como a Vitória-régia, e até os mitos, como o Muiraquitã. A Vitória-régia aparece, também, no lustre central da sala de espetáculos.

Detalhes como os arcos de ferro inglês que fazem a terminação das portas laterais e frontais, assim como as pinturas nas paredes do salão de espetáculos, retratam as folhas do guaraná, uma das espécies mais características da Amazônia. Já o lustre de cristal francês faz uma referência estilizada aos cachos de seu fruto. O guaraná também está representado nas placas que decoram os degraus das escadas que levam ao camarote superior – especialmente preparado para um visitante que jamais chegou: Dom Pedro II.

Cadeiras de palhinha no Theatro da Paz - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAA marca regional está presente também em alguns materiais. Caso do piso em parquê (do francês parquet) – cujos tacos são de madeiras nativas como Pau Amarelo e Acapu –, ou da cola utilizada no mosaico de pedra portuguesa do hall de entrada (já citado), que é feita com ‘grude do Gurijuba’ – um peixe encontrado especialmente no Norte do Brasil. E, para completar, as cadeiras do salão de espetáculos são de Pau Amarelo e palhinha, com o fim de se adaptar melhor ao clima quente do Pará.

Homenagem a indianistas no Theatro da Paz

Para quem conhece um pouco as obras de José de Alencar e Gonçalves Dias, não resta dúvida. Seus bustos, talhados em mármore de Carrara, foram colocados no hall de entrada do teatro como uma afirmação da cultura nacional e da importância do índio para formação do Brasil.Hall de entrada do Theatro da Paz - Foto de Luciano Santa Brígida em Wikimedia - BLOG LUGARES DE MEMORIA

Tanto José de Alencar como Gonçalves Dias pertenceram à corrente literária indianista.  Alencar foi autor de três romances sobre os nossos índios: ‘Iracema’, ‘Ubirajara’ e ‘Guarani’. Este último – publicado no Diário do Rio de Janeiro, em forma de folhetim –, inspirou o músico Carlos Gomes a compor a ópera O Guarani.

Já Gonçalves Dias foi considerado o maior poeta indianista não apenas por ter escrito poemas sobre índios, mas, principalmente, por ter exaltado sua coragem e valentia. Na obra ‘I-Juca-Pirama’, ele conta a história de um índio que luta contra uma tribo inteira para resgatar sua honra.  O poema é considerado um épico indianista.

Escultura de Cariátide com colar indígena - Foto site Theatro da Paz - BLOG LUGARES DE MEMORIAUm encontro de culturas

Além das homenagens e das referências à flora e aos mitos da região, o Theatro da Paz traz em sua decoração uma mescla de culturas que aparece em vários pontos, alguns mais visíveis e outros quase imperceptíveis como nas esculturas das Cariátides – figuras femininas que eram usadas na Grécia em substituição a colunas, que representavam força e sustentação – e no Theatro da Paz estão localizadas no corredor das frisas. Quem prestar a atenção em seus colares, verá que têm a forma dos enfeites amazônicos produzidos pelos índios.

A mescla se repete na pintura do teto do salão de espetáculos, no qual elementos da mitologia greco-romana interagem com indígenas e com espécies da flora e da fauna regionais. O painel ilustra uma visita do deus grego Apolo à Amazônia, na companhia das Musas da Arte e da deusa caçadora romana Diana que, na cena, enfrenta uma onça.Pano de Boca e plateia do Theatro da Paz - Foto de Socorrosimonetti em Wikimedia - BLOG LUGARES DE MEMORIA

Mas o ponto alto dessa mescla ocorre no ‘pano de boca’ – espécie de tela que fica na frente do palco antes de começar o espetáculo. No Theatro da Paz, o pano de boca homenageia a República, proclamada meses antes da inauguração da pintura que acredita-se ter sido a primeira produzida com essa temática.

Em vez de retratar o episódio político, o pintor pernambucano Chrispim do Amaral 1 realizou uma representação alegórica unindo ícones da República Francesa que ganharam conotação universal, como a figura de Marianne – que, abrasileirada, tornou-se a efígie da Republica brasileira – , a figuras de índios, portugueses e mestiços – em alusão à  mistura de raças da Amazônia. Tudo isso em meio à exuberância da mata tropical.

Escada do Theatro da Paz - Foto de Celso Roberto de Abreu Silva em Wikimedia - BLOG LUGARES DE MEMORIATheatro da Paz: um legado do Ciclo da Borracha

O ‘da Paz,’ como é chamado carinhosamente pelos paraenses, foi criado em 1878, no auge do Ciclo da Borracha. Sua construção atendeu aos anseios da elite da época, enriquecida com o florescimento econômico da região. Foi a primeira casa de ópera da Amazônia e segue sendo a maior da região, com 900 lugares2. Desde sua inauguração até hoje passou por várias reformas, que alteraram inclusive detalhes da fachada, mas não descaracterizaram o projeto original.

O teatro foi batizado pelo bispo Dom Macedo Costa em comemoração ao fim da Guerra do Paraguai. Inicialmente, recebeu o nome de Nossa Senhora da Paz, mas o próprio bispo mudou de ideia ao considerar que ali certamente seriam apresentados espetáculos não religiosos.Balaustradas do Theatro da Paz - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA

Pelas circunstâncias em que surgiu, o Theatro da Paz foi concebido com muito requinte, como demonstram, por exemplo, as balaustradas do salão de espetáculo fundidas em ferro inglês e folheadas a ouro. Ainda hoje, seu prédio é considerado um dos mais luxuosos do país e está incluído na lista dos Teatros-Monumentos, tendo sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan, em 1963.

As condições de seu nascimento fizeram com que fosse, inicialmente, restrito a autoridades e aos proprietários de terras que dominavam o Ciclo da Borracha, mas com o tempo o teatro foi abrindo suas portas e hoje oferece visitas guiadas gratuitas que podem ser feitas sem agendamento, além de espetáculos a preços populares3 4

Notas

Theatro da Paz – Belém – Pará – Amazônia – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1, 2,3,7 e 8) Sylvia Leite
  • (4) Luciano Santa Brígida em Wikimedia - CC BY 2.0
  • (5) Site do Theatro da Paz
  • (6) Socorrosimonetti em Wikimedia - CC BY-SA 4.0
Compartilhe »
Increva-se
Notificar quando
guest
18 Comentários
Avaliações misturadas ao texto
Ver todos os comentários
William
William
2 anos atrás

Único e maravilhoso, espero que tenha um plano de conservação adequado.

Silvana
Silvana
2 anos atrás

Que lindo!
Quero muito conhecer Belém do Pará, Santarém/Alter do Chão!
Panejo ir em 2022.

Marlene S Miranda
Marlene S Miranda
2 anos atrás

Lindo demais!!! Você sempre resgatando os melhores lugares das memórias de cada um

Deyse
Deyse
2 anos atrás

Que lindo!! Ainda não tive a oportunidade e privilégio de conhecer o Theatro da Paz. Estive em Manais e conheci o teatro de lá. Como é belo o Theatro da Paz, estou ansiosa para conhecê-lo!

Nathalia Geromel
Nathalia Geromel
2 anos atrás

Quanto história dentro do theatro da paz, parece ser um local único! Fico feliz de ver que ainda há locais antigos preservados aqui no Brasil

Sonia Maria Pedrosa Silva Cury
2 anos atrás

Incrível como antigamente se dedicava tempo à construção de um prédio. Não tinha tempo para terminar. O resultado é esse… verdadeiras preciosidades da arquitetura. Lindo teatro.

hebe
hebe
2 anos atrás

Que lindo!! Ainda não fui a Belém, mas com certeza quando for quero muito o Theatro da Paz. Estou apaixonada pelo local, quanta história né? parabéns pelo post.

sidneyjs
sidneyjs
2 anos atrás

Belo. Muito belo.

Eloisa
Eloisa
5 meses atrás

Oii estava navegando em seu blog e encontrei diversos artigos interessante como este.