Paquetá: a ilha da Moreninha

Tempo de Leitura: 10 minutos

Atualizado em 18/01/2023 por Sylvia Leite

Orla de Paquetá - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAA ilha de Paquetá ficou famosa no século 19 por causa de uma suposição. Acreditava-se que era esta a ilha citada por Joaquim Manuel de Macedo  como cenário do romance A Moreninha – obra inaugural do Romantismo no Brasil. Alguns iam até mais longe: diziam que a narrativa de Macedo foi inspirada em uma história real ocorrida por lá. Embora o nome Paquetá não tenha sido citado em nenhuma página do romance e nada disso tenha jamais se confirmado oficialmente, o pacato bairro do Rio de Janeiro1 acabou se consolidando como paraíso bucólico da personagem literária.

A Moreninha, para quem não sabe, conta a história de amor entre um estudante de medicina e uma adolescente. Tudo começou quando Felipe, irmão da personagem principal, convidou três colegas de faculdade para passar o dia de Sant’Ana na casa de sua avó em uma ilha.

Capas do livro A Moreninha - Imagens de Divulgação --BLOG LUGARES DE MEMORIAAntes da travessia,  Augusto – que era o mais mulherengo dos quatro – e Felipe fizeram uma aposta. Caso Augusto ficasse apaixonado por uma das mulheres da ilha por mais de 15 dias, teria que escrever um romance contando sua história de amor. Do contrário, o romance seria escrito por Felipe e o tema seria a inconstância de Augusto.

Não demorou muito para que Augusto se encantasse por Carolina e começasse a namorá-la, passando a visita-la, na ilha, aos fins de semana. O auge da narrativa ocorre quando ele descobre que a nova namorada é a menina com quem havia trocado juras de amor em uma praia, cerca de sete anos antes e os dois apresentam o camafeu e o botão de esmeralda com os quais haviam se presenteado na ocasião.

Como em toda narrativa romântica, os dois terminam juntos e Augusto perde a aposta, e para honrá-la, precisa escrever sobre sua história história de amor.

A Moreninha no cinema e na televisão

Cartazes do filme A Moreninha rodado em 1970 - Imagens de divulgação - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA memória do romance de Macedo está impressa em dois filmes: o primeiro, mudo e em preto e branco, foi dirigido por Antônio Leal e tinha como protagonistas os atores Lydia Bottini e Oscar Soares. Na segunda versão, dirigida por  Glauco Mirko Laurelli, o casal romântico foi representado por Sônia Braga e David Cardoso. Era um musical – um dos raros da cinematografia brasileira – e fez sucesso imediato, chegando a ser escolhido como melhor filme pelo juri popular do Festival de Brasília. Assisti, aos 10 anos de idade, e foi ali que nasceu meu desejo de conhecer Paquetá.

A história também foi adaptada para novelas produzidas pela Globo em 1965 e 1975: a primeira estrelada por Marília Pêra e Cláudio Marzo e a segunda por Nívea Maria e Herval Rossano. Foi a segunda versão que consolidou Paquetá como a ilha de A Moreninha e consagrou a Casa Cor de Rosa como a moradia da personagem de Macedo.

A presença da Moreninha em Paquetá

Casa da Moreninha - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAA história de amor entre Carolina e Augusto parece impregnar toda a extensão de Paquetá, e tem referências por toda parte, mas dois pontos são fundamentais para reforçar a ilusão de que a Moreninha realmente existiu e sua história se passou naquela ilha.

O primeiro é a casa cor de rosa que vemos a partir do mar, quando o barco se aproxima do ancoradouro. O imóvel foi escolhido como a casa da Moreninha pela direção da segunda novela inspirada no romance.

O segundo ponto de memória é uma rocha à beira-mar batizada como A Pedra da Moreninha. Do alto dessa pedra temos uma visão privilegiada da Baía de Guanabara e de parte da orla de Paquetá.

A pedra, assim como a Praia da Moreninha onde está localizada, tinham antes o nome de Itanhangá. Recebeu a nova denominação de um empresário que havia arrendado a área para exploração de um balneário – que incluía um um hotel –  e assim o lugar passou a ser identificado com a pedra de onde, no romance, CarolinaPedra da Moreninha - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARE DE MEMORIA acompanhava, à distância, chegada de Augusto à ilha para visita-la nos fins de semana.

A atmosfera bucólica da ilha, onde não circulam automóveis – a não ser a pequena frota do serviço público – e onde o transporte é feito apenas por bicicletas e charretes (hoje elétricas ou impulsionadas por bicicletas, mas na época do romance, puxadas por cavalos), contribui imensamente para que acreditemos estar no cenário desse romance do século 19.

Junto a isso, os que pesquisarem um pouco encontrarão variadas especulações. Desde a informação de que em visita à ilha, o autor teria se hospedado em uma uma pensão na Rua Padre Juvenal, que vai desembocar na atual Praia da Moreninha – na época chamada de Itanhangá – até hipótese de que Carolina e Augusto podem ter sido criados por Macedo à imagem dele próprio e de sua mulher.

Outras lendas e tradições

Ponte da Saudade e Pedra dos Namorados - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAEmbora seja o centro do imaginário da ilha, o romance A Moreninha não é seu único ponto de contato com a fantasia. Outra narrativa que encanta os visitantes, e que teria inclusive sido lembrada no romance2, é a de que a ilha teria sido inicialmente habitada pela tribo dos Tamoios – a quem os ilhéus homenageiam ao darem seu nome a uma das praias mais turísticas da ilha e a um belo caramanchão. Até onde se sabe, no entanto, os Tamoios viveram na Baía de Guanabara, mas nunca na Ilha de Paquetá. Mais que isso, Tamoio seria uma nomeação incorreta dos indígenas Tupinambás.

Ao longo da orla, nos deparamos com mais duas lendas. A primeira diz respeito à chamada Pedra dos Namorados, que está coberta por pedrinhas jogadas por apaixonados. O desafio é se posicionar de costas para a rocha e jogar três pedras para trás, uma de cada vez. Se pelo menos uma delas cair em cima da rocha e ali permanecer, é sinal de que o seu amor é correspondido.

A outra lenda envolve uma ponte, na verdade um ancoradouro, conhecido como Ponte da Saudade. Segundo se conta, um certo escravizado, hojeBaobá na Ilha de Paquetá - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA conhecido como João Saudade, vinha diariamente a essa ponte fazer orações para reencontrar a família da qual havia sido separado ao ser trazido para o Brasil. Essa lenda foi incluída em pelo menos uma das adaptações do livro.

O tema da Saudade volta a ser lembrado em outro ponto especial da Ilha: um enorme Baobá com quase 400 anos de idade. Contam os moradores de Paquetá que a árvore teria nascido no lugar onde uma escravizada, assim como João, chorava diariamente com saudade da família que ficou na África. Depois de sua morte, o Baobá, que é uma árvore de fortemente relacionada ao simbolismo das religiões de matriz africana, teria nascido no local em sua homenagem.

O famoso Baobá foi batizado com o nome de Maria Gorda e tombado como Patrimônio Estadual do Rio de Janeiro. Curiosamente, o bairro com pouco mais de três mil habitantes tem pelo menos outras nove árvores tombadas: quatro mangueiras, duas tamarineiras, uma amendoeira e uma jaqueira.

Curiosidades históricas de Paquetá

Capela de São Roque Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAOs primeiros visitantes da ilha chegaram a partir de 1555, mas considera-se oficialmente a data de 1556 pois foi naquele ano que desembarcou no local uma expedição comandada pelo frei franciscano Andre Thevet, que além de explorador, era cosmógrafo e escritor. Uma década depois, os franceses foram expulsos pelos portugueses, mas demorou até 1696 para que fosse construída, ali, a Capela de São Roque, que marcou o início do desenvolvimento local. Na praça da capela, o Poço de São Roque lembra a época em que os habitantes de Paquetá precisavam cavar poços para ter acesso a água doce.3

Com a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808, a Ilha de Paquetá tornou-se local de veraneio de Dom João VI. Mas sua chácara, que abrigou, na época, a construção mais suntuosa e a única biblioteca da ilha, encontra-se interditada por risco de desmoronamento. Tudo o que se pode avistar é um muro em ruínas, com um portão de ferro e uma placa do outro lado da rua onde se lê “Solar D’El Rei Biblioteca”. Entre as peças históricas guardadas no local estão duas carruagens do século 19.

Paquetá também foi frequentada por José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como Patriarca da Independência. Acusado de traição peloFarol da Mesbla Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA governo transitório da Regência, o político e cientista passou seus últimos dias em um retiro forçado em sua casa de veraneio em Paquetá. Em sua homenagem, a praia onde a casa está localizada recebeu o nome e Praia José Bonifácio, mas é conhecida também como Praia da Guarda em alusão aos policiais instalados a poucos metros da casa para garantir que ele não sairia da ilha.

Na antiga casa de José Bonifácio, tombada desde 1938 pelo Iphan, funciona um museu dedicado às Comunicações e aos Costumes que leva o nome do antigo proprietário. Seu idealizador, o jornalista e colecionador Fischel Davit Chargel, adquiriu e restaurou o imóvel que ficou abandonado por muito tempo e agora abre suas portas ao público em horários específicos que podem mudar conforme a época do ano.

Paquetá também fez parte da história dos ex-funcionários da Mesbla – uma multinacional francesa que teve lojas no Brasil entre 1912 e 1999. Foi na ilha que a empresa instalou sua colônia de férias e em frente ao imóvel foi erguido o Farol da Mesbla – hoje transformado em um dos pontos turísticos de Paquetá.

Atrativos não faltam na ilha

Bicicletas estacionadas no jardim da Igreja Matriz de Paquetá - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAQuanto mais andamos por Paquetá, mais descobrimos novos atrativos. Alguns deles, são fartamente divulgados como é o caso das referências ao Romance A Moreninha, da Capela de São Roque, já citada, e da Casa de José Bonifácio Mas ainda há muito o que ser desvendado. Logo na chegada, por exemplo, avistamos a Igreja Matriz de  Senhor Bom Jesus do Monte posicionada de frente para o mar. Além da beleza da igreja, o  que chama mais a atenção é o estacionamento, que em vez de carros, tem bicicletas.

Em outros pontos da orla, encontram-se alguns vestígios da história da ilha. Caso, por exemplo, do pequeno canhão usado, na época do Império, para anunciar a chegada de algum membro da família real e do Parque Darke de Matos, que reúne árvores centenárias, dois mirantes, um terraço panorâmico, vielas de saibro além de túneis e cavernas remanescentes da exploração de caulim (minério utilizado na produção de papéis, cerâmica e tinta) pelos Jesuítas, no século 18.

Cultura e Poesia por toda parte

Uma das paradas obrigatórias em Paquetá é o centro cultural Casa de Artes, que funciona em um casarão histórico com algumas preciosidades arquitetônicas como a Torre de Gaudí, inspirada na obra do arquiteto catalão e o Pagode Chinês – um tipo de torre comum na Ásia, construída para fins religiosos ou paisagísticos.Monumento a São Pedro em Paquetá - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA

A Casa de Artes tem uma longa história que começa na metade do século passado, quando a empreendedora cultural Ormy Toledo adquire a chácara onde o imóvel está localizado e começa a realizar saraus com músicos como Pixinguinha, Lamartine Babo e Sílvio Caldas. A casa foi cenário de diversas filmagens, inclusive algumas adaptações do romance A Moreninha.  Posteriormente foi vendida e transformada em um Centro Cultural que, infelizmente, está fechado desde o início da pandemia.

Mas nessa ilha, a arte nem precisaria de uma instituição para marcar presença. Além de Paquetá ser habitada por muitos artistas, a orla está repleta de esculturas, caramanchões e esculturas como o monumento a São Pedro, retratado em um barco bem próximo à praia, talvez para marcar a presença, na área externa da ilha, da religiosidade europeia. Além disso, algumas árvores ostentam pequenas placas coloridas que exibem poemas ou mensagens pedindo aos visitantes que colaborem com a preservação ambiental. Em 2018, um administrador mandou retirá-las alegando a necessidade de organizar a ilha, mas os moradores se revoltaram e conseguiram colocá-las de volta.

A paixão pelos pássaros em Paquetá

Cemitério dos Pássaros - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAEmbora Paquetá não esteja no roteiro de observação de pássaros, atividade que cresce a cada ano no Brasil, a ilha abriga uma instituição que faria esses amantes da natureza se emocionarem: um cemitério de pássaros criado por Pedro Bruno –  artista plástico do século 19, responsável pelo paisagismo de vários pontos da ilha. O Cemitério de Pássaros fica ao lado de um cemitério humano aparentemente convencional, mas que abriga uma singular igreja com laterais abertas, dedicada, não poderia deixar de ser, a São Francisco de Assis.

Os apaixonados por pássaros saem do continente e de outras cidades para enterrar ali seus bichinhos de estimação e cuidam das covas como se fossem de parentes ou amigos. A parede lateral do cemitério está coberta de poemas sobre o tema e entre as covas, há estátuas das aves. Tudo isso com trilha sonora natural oferecida pelos passarinhos que voam entre árvores e túmulos.45

Notas

  • 1 Sim, Paquetá é um bairro do Rio de Janeiro, embora muitos pensem que é um município
  • 2 No capítulo As Lágrimas de amor, a avó de Felipe, Dona Ana, narra a Augusto uma história de amor entre o jovem e sua neta
  • 3 Atualmente, o abastecimento de água de Paquetá é feito a partir do município de Magé, que está ligado à ilha por emissãrio submarino
  • 4 Breve, o Cemitério dos Pássaros de Paquetá será tema de matéria aqui no blog
  • 5 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares especiais do Rio de Janeiro: Urca / Museu de Imagens do Inconsciente / Castelo Mourisco / Museu do Amanhã / Cristo Redentor / Casa da Gávea

Para saber mais

Ilha de Paquetá – Arquipélago de Paquetá – Rio de Janeiro – Rio de Janeiro – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,4,5,6,7,8,9,10,11,12) Sylvia Leite
  • Capas do livro A Moreninha
  • Cartazes do filme A Moreninha rodado em 1970

Participação especial

  • Augusta Leite Campos, cardiologista e geriatra
  • Clara Leite de Rezende, desembargadora aposentada
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Sonia Pedrosa
1 ano atrás

Que delícia ler seu texto, Sylvinha! Voltei ao passado… Na minha infância, fui tantas vezes a Paquetá..! Depois que a gente veio morar aqui, nunca mais voltei. Preciso me programar para a próxima vez que for ao Rio, ir a Paquetá e, dessa vez, guiada pelo seu post, com muito mais informações do que o que eu me lembro.

Amélia Leopoldina de
Amélia Leopoldina de
1 ano atrás

Silvinha, adorei !! Paquetá!!! Muito interessante, voltei a minha adolescência!!! Parabéns

Cristiane
Cristiane
1 ano atrás

Quando eu era criança conheci a ilha. Fiquei tão encantada com ela que decidi que minha lua de mel seria lá. Ler a reportagem me trouxe na memória esse lugar tão romântico, bonito e singelo!!

Gusta
Gusta
1 ano atrás

Que viagem maravilhosa por Paquetá. Tantas histórias e estórias nesse lugar de memórias. Mais perto do meu coração vivem as árvores centenárias e de especial apreço o Baobá que várias pessoas não conseguem abraçar. E os pássaros, têm um cemitério com poesias onde são celebrados por grandes escritores brasileiros. Neste lugar me detive com grande emoção por ser uma apaixonada Observadora de Aves. Parabéns e obrigada Sylvia por este explêndido Lugar de Memória.

ALEXANDRA MORCOS
ALEXANDRA MORCOS
10 meses atrás

Que lindo Paquetá! Eu não sabia que era um bairro do Rio de Janeiro. Realmente é um lugar muito bucólico e um cenário perfeito para um romance.

Hebe
Hebe
10 meses atrás

Ah que delicia esse post. Estive em Paquetá ano passado para fazer uma prova exatamente sobre a Moreninha. Voltei ao passado novamente.

Dinorah Regis
Dinorah Regis
10 meses atrás

Estivemos hoje em Paquetá e vimos todos estes pontos que você indicou. Adorei!