Chapada do Norte: guardiã da Cultura Afro

Tempo de Leitura: 9 minutos

Atualizado em 14/12/2023 por Sylvia Leite

Banda Filarmônica Santa Cruz - Foto de Maurício Costa - BLOG LUGARES DE MEMORIAEmbora esteja longe de ser o município brasileiro com maior número de comunidades quilombolas – um total de 14 enquanto Barreirinha, no Amazonas, reúne 1671 -, Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, pode ser considerado um dos pontos do país com mais forte presença da cultura negra. Esse traço é evidenciado, principalmente, pela Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, declarada Patrimônio Imaterial pelo Iepha.

Quem comanda a celebração é a tradicional Irmandade do Rosário dos Homens Pretos que está presente em praticamente toda a região. A própria festa também não é única, mas como cada localidade tem uma data própria para homenagear a santa, as comemorações de Chapada do Norte acabam atraindo moradores de outros municípios, inclusive daqueles que têm sua própria festa. Isso sem falar de pessoas que vêm de outros estados e até do exterior.

Os festejos de Chapada do Norte ocorrem sempre em outubro a fim de coincidir com o dia de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em 7 de outubro. A programação começa sempre uma sexta-feira com uma cerimônia denominada Meio-dia das novenas, que inclui banda de música – com a Banda Filarmônica de Santa Cruz – e queima de fogos seguida de um cortejo.

Novena na capela de Nossa Senhora do Rosário - Foto de Maurício Costa - BLOG LUGARES DE MEMORIAEntre a abertura e o encerramento, há uma intensa programação que combina novena, lavação ou lavagem simbólica da igreja, leilões de guloseimas e prendas, além de danças, batuques e uma procissão. Um dos pontos altos da festa acontece na quinta-feira, quando é servido o Angu – em alusão a um dos poucos alimentos a que os escravizados tinham acesso e usavam para comemorar o dia da santa. Antes da refeição gratuita, é realizada a benção da comida e uma sequência de orações.

Outro momento importante é a Buscada da Santa. Segundo a tradição oral de Chapada do Norte, a imagem de Nossa Senhora do Rosário teria sido encontrada pelos brancos em uma certa gruta e levada para uma igreja, mas a imagem desapareceu. Os negros intuíram que a santa teria voltado para a gruta e foram buscá-la batucando e cantando. E embora a imagem permaneça até hoje na Capela de Nossa Senhora do Rosário, a ‘buscada’ é repetida anualmente para relembrar o evento original.

Também faz parte dos festejos o tradicional Mastro a Cavalo – uma encenação de luta entre cristãos e mouros que termina com a vitória dos primeiros seguida de uma reconciliação. Mas o ápice da programação acontece no encerramento da festa, domingo de manhã, com as chamadas Subida e Descida do Reinado.

Um compromisso de reis e rainhas

Rei e Rainha do Rosário com o padre ao centro = Foto de Mauricio Costa - BLOG LUGARES DE MEMORIAÉ que a organização do evento fica a cargo de um rei e de uma rainha escolhidos anualmente pelos membros da Irmandade do Rosário dos Homens Pretos. Antigamente, os dois tinham que ser negros, mas atualmente apenas um deles precisa ser afro-descendente.

Aceitar esses postos, caso eleitos, é um compromisso que os integrantes da Irmandade assumem ao se associar ao grupo. Em geral, são escolhidos para rei e rainha os membros mais antigos ou os que se declaram interessados em organizar a festa.

Os eleitos sentem orgulho da função, mas quem assiste percebe que o desafio não é pequeno, seja pelo grande volume de trabalho, seja pelas regras que precisam seguir. Uma das primeiras obrigações do rei e da rainha, logo no início dos preparativos, é pedir doações aos moradores da cidade – a famosa Esmola do Rosário.

Isso, por um lado, se deve a uma necessidade material, devido ao alto custo dos festejos, e, por outro, a um propósito moral, para que o rei e a rainha exercitem a humildade. Mas eles não vão sozinhos. Como mostra a foto, o rei e a rainha vão pedir as esmolas acompanhado de uma pequena multidão.

O pedido de esmolas tem que ser feito mesmo que o rei ou a rainha tenha condições de bancar a festa. Outra regra relativa ao custeio do evento diz respeito ao orçamento. Os fogos, por exemplo, devem ser adquiridos dentro do padrão dos eventos anteriores para que a festa de um ano não sejaRetirada de esmolas - Foto de Maurício Costa - BLOG LUGARES DE MEMORIA lembrada como melhor que as outras.

É nas casas do rei ou da rainha que se realiza grande parte da programação, como o Angu da quinta-feira e os leilões de peças doadas, incluindo carnes, queijos, eventuais prendas como colchões e lençóis e as tradicionais Quitandas – espécie de cestas de guloseimas compostas basicamente por pães e doces caseiros.

E é em torno do rei e da rainha que ocorre o já citado ápice da festa. É nesse momento que, pela primeira vez desde o início da programação, rei e rainha se vestem a caráter e assumem seu reinado. Em seguida, é realizada a Descida do Reinado, marcada pela missa de posse e pela transmissão do reinado dos velhos festeiros, que realizaram o evento daquele ano, para os novos festeiros, eleitos meses antes, que realizarão a festa no ano seguinte.

Os Tamborzeiros e o Congado: a alma da festa

Tamborzeiros de Chapada do Norte - Foto de Murício Costa - BLOG LUGARES DE MEMORIAA alma de toda a programação são os batuques, os cantos e as danças promovidos por dois grupos de matriz africana: os Tamborzeiros do Rosário e o Congado. Em alguns momentos, eles atuam juntos, mas cada um deles tem as suas especificidades.

Os tamborzeiros constituem um grupo de percussão que tocam, dança e joga versos de louvor a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, além de abordar, em uma espécie de Repente, temas ligados ao dia a dia da cidade.

Segundo conta a tradição, foi ao som do batuque desses músicos que os negros de Chapada do Norte foram buscar a santa na gruta e é ao som deles que o ritual se repete a cada ano.

Os tamborzeiros são também peça fundamental no cortejo de abertura, nos leilões, na distribuição do Angu e no encerramento, quando se realizam a  Subida e a Descida do Trono. O grupo era tradicionalmente formado por homens, mas hoje conta com duas mulheres –  e a tendência é que esse número aumente.

Já o Congado – ou Congada – é formado principalmente por mulheres. Elas cantam, enquanto os homens tocam e todos dançam. Diferentemente da festa, o Congado não tem rei, apenas rainha. Cabe a ela puxar os cantos criando Repentes com as situações do momento. A figura masculina é representada por um presidente.Congado de Chapada do Norte - Foto de Maurício Soares - BLOG LUGARES DE MEMORIA

Segundo Dona Geni, a atual rainha da dança que já está há mais de dez anos no posto, o Congado nasceu como um misto de Canto de Trabalho e Lamento: “os escravo quando eles trabalhava, né, com ouro, eles trabaiava, batia, cantava e dançava e quando eles apanhava, em vez de chorar eles cantava.” Ela conta que na roça, o que hoje é conhecido como Congado tinha o nome de Maromba.

Isso aconteceu na Comunidade Quilombola de Misericórdia – uma das 14 localizadas no município de Chapada do Norte – tanto que quando o grupo deixou de ser conhecido como Maromba, recebeu o nome de Congada Beneficente da Comunidade Quilombola de Misericórdia. Com a morte de Dona Eva, que antecedeu Dona Geni, muitas pessoas foram saindo e entraram outras de comunidades vizinhas, como Dona Geni que é da Comunidade de Água Suja.

Dona Geni se vangloria de ter recebido o Congado com quatro pessoas e hoje ter mais de vinte. Cada vez que ela convoca a dança, aparece mais gente. O orgulho de conduzir a manifestação está expresso em sua casa, onde os instrumentos e adereços do Congado fazem parte da decoração. Esse sentimento parece aumentar quando ela mostra a roupa que veste para dançar.

O caminho dos escravos de Chapada do Norte

Caminho dos Escravos - Foto de Edinaldo Soares - BLOG LUGARES DE MEMORIAA presença dos negros em Chapada do Norte está intimamente ligada à extração do ouro. O pequeno vilarejo surgiu por volta de 1728 como consequência do trabalho nas lavras – nome dado às minas onde a busca do ouro é feita lavrando ou revolvendo a terra.

Um dos registros físicos dessa relação entre extração do ouro e a escravidão é o chamado Caminho das Lavras ou Caminho dos Escravos – uma bonita trilha de pedras por onde passavam os escravizados que trabalhavam nas lavras e por onde era feito o transporte de animais e de carga.

O Caminho dos Escravos se deteriorou com o tempo e hoje não é mais possível percorrê-lo por inteiro, entre outras coisas porque não existe mais a ponte que ligava as duas margens do Capivari. Mas os interessados na memória do lugar podem visitar os trechos remancescentes.

Locomóvel em comunidade quilombola de Chapada do Norte - Foto de Edinaldo Soares - BLOG LUGARES DE MEMORIAHá, ainda, o Locomóvel – uma máquina a vapor surgida na Europa na metade do século 19, e instalada onde hoje se encontra Comunidade Quilombola de Misericórcia – a mesma onde nasceu o Congado – uma das 14 localizadas no município de Chapada do Norte.

O objetivo da instalação do Locomóvel teria sido bombear água do Rio Capivari para as lavras. Mas há quem diga que o locomóvel servia para mover a máquina que fazia os tears girarem. Não se sabe, exatamente, quando o equipamento chegou, mas não há dúvida de que foi instalado na atual comunidade quilombola de Misericórdia.

O projeto de bombeamento de água não funcionou.  Provavelmente por ser muito pesada – o que demandaria trabalho e dinheiro para ser removida -, a máquina foi abandonada no local, onde se encontra até hoje para a alegria dos turistas que posam junto a ela em fotos e selfies.

 Chapada do Norte

Artesanato de Chapada do Norte - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAA cultura de matriz africana é certamente o traço mais importante de Chapada do Norte, mas a cidade também recebeu grande influência européia, especialmente na Arquitetura.

A cidade,  de aproximadamente 15 mil habitantes, tem quatro igrejas históricas: a de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, a Matriz de Santa Cruz e as capelas de Nossa Senhora da Saúde e de Bom Jesus da Lapa. Mas chama a atenção, também, o casario histórico que apresenta uma característica curiosa – as construções originais exibem em sua fachada a data em que foram construídas.

Chapada do Norte também foi influenciada, ainda, por indígenas, de quem provavelmente herdou a tradição da tecelagem e a cestaria, que são artesanatos expressivos na região. O município produz, além disso, pequenas peças de mobiliário de madeira com assentos e encostos formados por uma espécie de trançado com tiras de couro de boi.

Chapada do Norte surgiu como freguesia, com o nome de Santa Cruz da Chapada. Inicialmente, pertenceu à Capitania da Bahia, tanto que até hoje o sotaque mineiro dos chapadenses tem uma tonalidade baiana. A transferência para a Capitania de Minas Gerais se deu por causa do contrabando de ouro, a fim de aumentar o controle sobre as minas da região.  23

Notas

Chapada do Norte – Vale do Jequitinhonha – Minas Gerais – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

Consultoria

  • Maurício Costa, Secretário de Cultura de Chapada do Norte, Procurador Geral da Irmandade e ex-rei da Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos
  • Edinaldo Soares, Coordenador de Cultura de Chapada do Norte e Irmão do Rosário

Participação especial

Referências

Compartilhe »
Increva-se
Notificar quando
guest
10 Comentários
Avaliações misturadas ao texto
Ver todos os comentários
Val Cantanhede
Val Cantanhede
1 ano atrás

Excelente matéria, Sylvinha!
Fiquei encantada com a Chapada do Norte e com a cultura viva dos remanescentes quilombolas e indígenas.
Abraços

Maurício Aparecido Costa
1 ano atrás

Parabéns pela matéria! Excelente! Chapada do Norte possui uma rica cultura expressa através do artesanato em palha e couro; nas comunidades quilombolas que preservam tradições e costumes dos antepasados; grupos folclóricos (Tamborzeiros, Congada…) e festas tradicionais de matriz africana; Folias de Reis, patrimônio edificado com características de construções feitas no passado; destaques para a culinária, igrejas entre outros vários atrativos. Sendo o ponto alto a Festa de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial de Chapada do Norte

Geralda Magela da Purificação
Geralda Magela da Purificação
Resposta a  Sylvia Leite
1 ano atrás

Parabéns a essa linda e preciosa pesquisa!!!
Esse registro deixa a história do Brasil mais rica e verdadeira!
Viva o Vale do Jequitinhonha!
Vivas as comunidades quilombolas!
Viva Chapada do Norte!!!

Marcella
Marcella
1 ano atrás

Que interessante a história de Chapada do Norte! Adoro vivenciar esses festejos do interior do Brasil, eles são a história viva do nosso país.

Sonia Pedrosa
10 meses atrás

Que legal, Sylvinha! A Chapada do Norte é um lugar para se conhecer e aprender.