Atualizado em 30/04/2024 por Sylvia Leite
Quem já visitou ou leu um pouco sobre monumentos da Península Ibérica, sabe que, em consequência da ocupação islâmica, que durou cerca de sete séculos, não é raro encontrarmos na Espanha e em Portugal igrejas que já fora mesquitas, ou palácios que pertenceram, em diferentes épocas, a muçulmanos e cristãos. Basta olharmos os exemplos da Mesquita-catedral de Córdoba e do conjunto monumental de Alhambra.
Mas, por incrível que pareça, esse não é o caso do Palácio da Pena, em Sintra, que embora possua inúmeros elementos islâmicos de arquitetura e decoração, nunca pertenceu a muçulmanos. O seu diferencial histórico é o fato de ter nascido como uma ermida que deu origem a um mosteiro, isto é, como uma construção religiosa erguida em local místico, e de haver se transformado em um edifício civil, mais precisamente em uma residência de verão.
Conta a tradição que a ermida surgiu depois de uma aparição da Virgem e foi dedicada a Nossa Senhora da Pena. Na época já havia, em Sintra, a Igreja de Santa Maria e eram os religiosos dessa paróquia que se responsabilizavam pelo pequeno monumento, cuidando e rezando missa todos os sábados.
A ermida começou a ser conhecida em 1493, quando recebeu a visita dos reis D. João II e D. Leonor, para pagamento de promessa a Nossa Senhora da Pena, mas a ordem para a construção do convento só veio em 1503, no reinado de D. Manuel I, que doou o santuário à Ordem de São Jerônimo.
Palácio da Pena: a obra de um rei artista
O mosteiro se manteve por mais de dois séculos até que, em 1755, foi praticamente todo destruído pelo famoso terremoto de Lisboa, sobrando apenas a capela e algumas obras de arte. Mesmo em ruinas, o continuou funcionando até a extinção das ordens religiosas em Portugal. Sua reconstrução só foi iniciada quase um século depois do incêndio, por ordem do rei D. Fernando II, que decidiu transformá-lo em residência real.Mesmo tendo entregue a obra ao arquiteto amador alemão Wilhem Ludwig von Eschwege, Fernando II e sua mulher Maria II, fizeram questão de opinar nos detalhes e na decoração, misturando propositalmente diversos estilos – neogótico, neomanuelino, neo-islâmico, neo-renascentista, além de elementos indianos – e demonstrando grande preocupação com detalhes estéticos e simbólicos do palácio.
Não se sabe ao certo se esse preciosismo se deveu apenas à sensibilidade de Fernando II, conhecido como o ‘Rei Artista’, ou se ele e a rainha inspiraram-se na padroeira do local. É que Nossa Senhor da Pena é considerada a protetora daqueles que trabalham com arte e literatura. O título foi atribuído à Virgem Maria durante a renascença porque era a ela que artistas e escritores pediam inspiração para seus trabalhos.
O resultado, seja qual for a causa, é que o Palácio da Pena encantou o mundo com sua aparência colorida e exótica, que nos faz lembrar os mais extravagantes contos de fadas. Apesar da mistura de estilos, é reconhecido como um edifício de arquitetura Romântica – um dos mais importantes do mundo e o primeiro da Europa. Hoje, além de receber milhares de visitantes a cada ano, está listado como ‘Patrimônio Mundial da Humanidade’, pertence à ‘Rede de Residências Reais Européias’ e é considerado ‘Uma das 7 Maravilhas de Portugal’.
Cores, estilos e citações
Não é pra menos. Além de sua reconhecida beleza, o prédio esbanja originalidade. Diferente da maioria dos palácios, que alicerçam suas belezas em estilos puros ou com poucas misturas, o da Pena é um verdadeiro festival de tons, referências e citações.
Pelo menos quatro cores predominam em seu exterior: o vermelho, que demarca a parte reconstruída a partir das ruinas do antigo convento; o amarelo da pintura do chamado Palácio Novo e o azul dos azulejos que revestem parte de sua fachada; além do branco que está em praticamente todos os detalhes.
O arco localizado na rampa principal de acesso ao palácio é claramente inspirado na Porta da Justiça de Alhambra – a cidade construída pelos muçulmanos em Granada, na Espanha. Além de repetir a forma, possui, como a porta espanhola, uma pequena chave esculpida em relevo.
Uma segunda passagem, que leva à área residencial do prédio, e é conhecida como Porta Monumental, faz referência a vários monumentos portugueses, em especial à Casa dos Bicos – construção de 1523, localizada em Lisboa, cuja fachada de pedra é decorada com relevos em forma de diamantes lapidados.
Por fim, o Pórtico de Tritão reúne azulejos tipicamente portugueses, além de ter como principal ornamento uma imagem de Tritão – um deus marinho na Mitologia Grega, filho de Poseidon e Anfitrite.
Elementos dos mais diversos estilos estão em toda parte: o Terraço dos Arcos, área de entrada do Palácio Novo, é um dos traços islâmicos mais evidentes de toda a construção, mas o estilo mudéjar, ou neoislâmico, está presente, também, na parte reconstruída, por meio de vários detalhes decorativos como, por exemplo, os estuques com padrões geométricos que revestem paredes e tetos do aposento da rainha D. Amélia e da Sala de Fumo. Já a capela, única parte do antigo convento que escapou ao incêndio, é toda em estilo Manuelino.
Assim como no prédio em si, há uma mescla, também, na área externa do palácio, planejada para conter árvores e plantas de todos os cantos do mundo. São mais de 500 espécies espalhadas em diversos jardins, desenhados sob influência do Romantismo. O mais famoso talvez seja o das Camélias, espécie originária do Japão e da China e introduzida no palácio, em 1840, pelo próprio D. Fernando II. Mas é o Jardim das Lindarias que serve de cenário a uma das inúmeras lendas que envolvem o Palácio da Pena.
A lenda do Jardim da Lindaria
A história é mal contada, mas tem seus encantos. Segundo a lenda, todos os dias após o banho as mouras iam ao Jardim da Lindaria para respirar ar fresco e sentir o perfume das flores e rapazes cristãos escondiam-se para observá-las. As coisas se complicaram quando uma moura se apaixonou por um desses jovens e, por conta disso, acabou sendo morta pelo marido. Desde esse dia, a alma da moura volta ao jardim todas as noites em busca do rapaz por quem se apaixonou.1
Notas
- 1 Leia,aqui no blog, matérias sobre outras cidades, bairros e monumentos de Portugal: Guimarães / Óbidos / Santuário de Fátima / Capela dos Ossos / Belém / Estação de São Bento
Para saber mais
- Descubra o que fazer em Sintra em postagem do blog Vamos Por Aí
- Caso seu tempo esteja curto, confira o roteiro de um dia em Sintra preparado pelo blog Carimbo e Passaporte
Palácio da Pena – Sintra – Portugal – Europa
Fotos
Referências
- Site oficial do Palácio da Pena
- Site Cruz Terra Santa
Livros
- Sintra Lendária - Histórias e Lendas do Monte da Lua, de Miguel Boim



Palácio lindo demais, cheio de história e para minha alegria. Adoro uma lenda!
Adorei, Sylvinha!
Também adoro uma lenda, Soninha. É a história contada pelo povo com todo o seu simbolismo.
Da vontade de retornar a esse lugar mágico
Dá mesmo. Sempre que escrevo uma matéria, tenho vontade de voltar ao lugar rsrs
Que lindo passeio essa matéria nos proporciona!
Quantos comentários rsrsr Pelo visto você gostou mesmo hehe Fico feliz.
Obra maravilhosa!!!
Grata por nos proporcionar esse passeio
Eu que agradeço pela leitura e pelo comentário.
Sintra é para mim, que sou portuguesa, a vila mais bonita de Portugal e o Palácio da Pena o monumento mais intrigante que a mesma tem para oferecer, quer pela sua história, beleza e misticismo.
O Palácio da Pena é lindo mesmo. Não há quem discorde disso.