Festa de Yemanjá: um tributo à Rainha do Mar

Tempo de Leitura: 6 minutos

Atualizado em 02/05/2024 por Sylvia Leite

Barcos e multidão na Festa de Yemanjá - Foto de Fernando Vivas GOVBA - BLOG LUGARES DE MEMORIANão é à toa que a Festa de Yemanjá pode ser considerada a mais conhecida entre aquelas que compõem o calendário das religiões de matriz africana no Brasil. Para se ter uma ideia de sua importância na religiosidade brasileira, a divindade chega a ser comparada, no sincretismo, à Virgem Maria – a mulher símbolo da religião com maior numero de adeptos no país – e é louvada em prosa e verso, por gente de todas as raças, cores e crenças, como a Rainha do Mar.

Pelo menos 16 compositores fizeram músicas em sua homenagem. Yemanjá foi cantada por artistas como Dorival Caymmi, Elza Soares, Clara Nunes, Baden Powell, Maria Betânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Pepeu Gomes, Marisa Monte, Otto, e pelas bandas Meta Metá e Olodun. E como se não bastassem os brasileiros, a Rainha do Mar também é tema e título de uma música gravada pela cantora americana Melody Gardor em seu disco “The Absense”, de 2012. 

Um culto de além mar

Embora a Festa de Yemanjá – pelo menos na forma que conhecemos hoje – seja uma tradição brasileira, seu culto vem da Nigéria. Era um orixá feminino do povo Egbá – uma das nações Iorubá – e chegou ao Brasil trazida pelos africanos escravizados.

Iemanjá esbranquiçada e Yemanjá afro - Fotos de Nationaal Museum van Wereldculturen - BLOG LUGARES DE MEMORIAA mudança geográfica e a condição em que seus seguidores passaram a viver por aqui, acabaram impondo mudanças tanto no culto como nas características atribuídas à própria orixá. Enquanto na mitologia iorubá ela era a Rainha dos Rios, no Brasil tornou-se Rainha do Mar – um posto originalmente ocupado por sua mãe (para alguns, seu pai) Olocum.

Estudiosos apontam, ainda, outras diferenças em relação ao culto original resultantes do sincretismo tanto com outras religiões de matriz africana como também  com o Cristianismo. Dessa última, Yemanjá teria absorvido características de pureza e docilidade que são próprias da Virgem Maria, em oposição ao aspecto guerreira que lhe é atribuído na cultura Egbá.

Houve alteração também, na representação visual da divindade, que passou aqui por um embranquecimento, assumindo as feições europeias do colonizador. Essa última influência, no entanto, perde cada vez mais espaço com a ascensão dos movimentos de valorização da cultura afro-brasileira.

Os nomes de Yemanjá

Mulher segura imagem de Yemanjá - Fotos Públicas - BLOG LUGARES DE MEMORIANo Brasil, Yemanjá foi rebatizada como Janaína, nome que nos últimos tempos parece ter entrado em desuso. É chamada, também, por alguns grupos, de Inaê, Mucunã, Dandalunda e Marabô. O próprio nome Yemanjá tem também formas alternativas, como Yemoja e Yemaya. Isso sem falar nas variações de grafia como Yemanjá e Iyemanjá.

Em qualquer dessas versões, Yemanjá seria, segundo pesquisadores, a fusão de três palavras de origem Yorubá – Yêyé omo ejá –  e significaria a mãe cujos filhos são peixes. A imagem de mãe que protege seu filhos está muito associada a seu culto no Brasil.

A Festa de Yemanjá em Salvador

Imagem de Yemanjá em barco e fieis na Festa da divindade em Salvador - Foto de Fernando Vinas GOVBA - BLOG LUGARES DE MEMORIAA Festa de Yemanjá mais popular em todo o país é relizada no Rio Vermelho, bairro litorâneo de Salvador, no dia 2 de fevereiro. A data se deve ao sincretismo de alguns terreiros, que estabelecem uma correspondência entre a orixá e a santa católica celebrada nesse dia: Nossa Senhora dos Navegantes ou Nossa Senhora das Candeias.

Para outros grupos, a relação sincrética se dá entre a santa católica e a orixá Oxum, a Rainha das Águas Doces. Isso, no entanto, não altera em nada o dia da Festa de Yemanjá, pois a data é oficialmente dividida entre as duas celebrações: a cerimônia conhecida como presente de Oxum abre as comemorações no Dique do Itororó, onde estátuas gigantes representam todos os orixás. Depois disso, começam as homenagens a Yemanjá,  na praia do Rio Vermelho, incluindo a cerimônia do presente..

Homem carrega barquinho de madeira para presentear Yemanjá - Foto de FernandoVivas GOVBA - BLOG LUGARES DE MEMORIAA tradição de saudar os dois orixás no mesmo dia é pouco conhecida por aqueles que assistem à festa atraídos por sua beleza e alegria, sem ter qualquer vínculo com as religiões que as promovem. Para os participantes, no entanto, ou pelo menos para uma parte deles, as duas homenagens parecem inseparáveis pois como explica o cantor Carlinhos Brown, a água salgada é para se banhar e a doce é para se beber.

A Festa de Yemanjá em Salvador completou 100 anos em 1923 e é considerada Patrimônio Cultural de Salvador desde 2020. A celebração teria surgido quando um integrante da Colônia Z1 – comunidade de pescadores da Praia de Santana, no bairro do Rio Vermelho – fez uma promessa a Yemanjá pedindo que a divindade desse um jeito na escassez de peixes.

Há várias versões dessa história. Segundo alguns relatos, o primeiro festejo foi feito em agradecimento pela Homem carrega barquinho de madeira para presentear Yemanjá - Foto de Fernando Vivas GOVBA - BLOG LUGARES DE MEMORIAvolta da abundância de peixes. Para outros, teria sido um presente dado à divindade na esperança de que ela retribuísse com a volta a abundância. Há quem diga, também, que a promessa não foi feita por um pescador, mas por vários deles.

Seja qual for a verdade, o fato é que a festa se originou em uma promessa e acredita-se que vem daí o ritual dos presentes, quando os integrantes das religiões de matriz africana jogam ao mar centenas de oferendas como espelhos, perfumes, talcos e até balaios contendo vários itens femininos.

Assim como em outras festa baianas, a de Yemanjá é composta por rituais, música, dança e muita alegria. Com o crescimento da festa e a adesão de turistas, a programação oficial das comemorações passou a incluir, também, fogos de artifício.

A Festa de Yemanjá em outros cantos do Brasil

Imagem de Yemanjá em Cidreira RS - foto Prefeitura de Cidreira - BLOG LUGARES DE MEMORIAAlém de Salvador, inúmeras cidades brasileiras onde o sincretismo também relaciona a orixá à Nossa Senhora dos Navegantes, também comemoram Yemanjá no dia 2 de fevereiro. No Rio Grande do Sul, a festa mais popular é a de Cidreira, localizada no Litoral Norte do Estado, onde a divindade ganhou, em 2016, uma imagem de 8,5 metros de altura.

Já na Paraíba, em Pernambuco e em outros estados do Nordeste, Yemanjá é comemorada em 8 de dezembro, num sincretismo com Nossa Senhora da Conceição. Na Baixada Santista, parte dos municípios comemora em dois de fevereiro e outra parte em 8 de dezembro – a depender das filiações religiosas. Já no Rio de Janeiro, a festa da orixá das águas acontece na virada do ano, no famoso Réveillon de Copacabana.12

Notas

Festa de Yemanjá – Salvador – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,4,5,6) Fernando Vivas GOVBA Fotos Públicas
  • (2) As duas imagens de Yemanjá - Nationaal Museum van Wereldculturen
  • (3) Fotos Públicas
  • Nationaal Museum van Wereldculturen em Wikimedia - CC BY-SA 3.0
  • Prefeitura de Cidreira
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Sonia Pedrosa
4 meses atrás

Essa festa é linda, com certeza. E acho que, independente da religião, Iemanjá já faz parte da nossa cultura, né? Belo registro, Sylvinha!

Ude Guimarães
Ude Guimarães
4 meses atrás

Nossa Sylvia!! Está demais a matéria!! Arrasou!!