Horto de Caípe Velho: o jardim botânico de um homem só

Tempo de Leitura: 5 minutos

Atualizado em 29/04/2024 por Sylvia Leite

Horto de Caípe Velho - Foto Clara Angélica Porto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Quando foi comprada, em 1980, a terra que hoje abriga o Horto de Caípe Velho, na zona rural de São Cristóvão, estado de Sergipe, era exatamente igual às outras propriedades da vizinhança: um sítio de árvores frutíferas – como cajueiros e mangueiras – destinado ao sustento familiar dos proprietários, que continha alguns trechos de Mata Atlântica remanescente. Em apenas quatro décadas, o ex-fotógrafo Marcel Nauer transformou a área em um jardim botânico e a si mesmo em um paisagista autodidata.

O horto de Marcel não tem respaldo de nenhuma instituição e não integra a reduzida lista dos jardins botânicos do Brasil. Mais que isso: é apenas um sitio de propriedade particular que não está oficialmente aberto ao público. Para visitá-lo, é preciso contactar seu dono por intermédio de um conhecido comum e agendar a visita, sempre aos domingos, quando ele passa o dia trabalhando no local.

A visita é gratuita, mesmo se tratando de uma propriedade particular, porque esse esforço de décadas foi feito sem fins lucrativos. Somente de vez em quando é que Marcel vende alguma planta e acaba concluindo que não valeu a pena porque pagam muito pouco.

Como a terra não traz lucro, também não pode gerar muita despesa e isso faz com que tudo ali seja econômico e alternativo. A começar pela irrigação, feita com uma mangueira cheia de furos que Foto Clara Angélica Porto - Matéria Horto de Cauípe Velho - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 5provocam esguichos de até um metro de altura.

O surpreendente é constatar que, apesar de toda essa “informalidade”, ele conseguiu construir uma espécie de museu natural a céu aberto, onde se pode observar, ou mesmo estudar, exemplares de todos os continentes, especialmente das regiões tropicais e, com isso, contribuir com a preservação de algumas espécies.

Um paraíso que se releva aos poucos

Na chegada, pouco se vê além de uma casa de pau a pique e alguns canteiros de pedra. E tudo parece muito árido. Aos poucos, as maravilhas vão se revelando: palmeiras, cactus, orquídeas.

Há plantas de todos o tamanhos e idades, não apenas porque sempre chegam mudas e sementes novas, mas também porque algumas podem levar até dez anos para germinar. Outras germinam rapidamente, mas demoram para crescer. Há casos de baobás que só se tornam adultos depois de um século.

Diversidade - Foto Clara Angélica Porto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA variedade enriquece a paisagem. Enquanto o Jardim de Pedra reúne plantas tão pequenas que parecem feitas para as crianças brincarem de boneca, há árvores que já atingiram 40 metros de altura. Ao lado de palmeiras que se projetam no sentido vertical, plantas aquáticas espalham-se horizontalmente sobre a água.

Embora o horto já tenha espécies exóticas do mundo inteiro, Marcel continua querendo mais e segue em busca de novas sementes ou mudas com a mesma empolgação que tinha em 1982, quando mudou-se para Sergipe e começou a plantar. Só que agora, sua terra já não é mais um ‘jardim botânico de um homem só”. Além da ajuda de Domingos, um nativo da região do Caípe que acompanha seu trabalho há muitos anos, Marcel conta com a colaboração do próprio ecossistema e afirma que muitas árvores do horto germinaram a partir de sementes trazidas por morcegos. Isso sem contar no contato e intercâmbio que ele mantêm com profissionais de outros parques.

Diversidade - Foto Clara Angélica Porto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAAlém de não estar mais sozinho na construção do horto, Marcel também está longe de ser o único espectador das maravilhas que cultivou. O sítio é visitado por amigos, por pessoas que conseguem chegar até ele com a ajuda de conhecidos comuns, e também por pesquisadores e universitários.

A busca do conhecimento foi, desde o início desse trabalho, uma das grandes preocupações de Marcel, que abre mão de quase tudo para conseguir comprar livros de Botânica. Talvez por isso, tenha conseguido ir tão longe, mesmo sendo estrangeiro.

Horto de Caípe Velho: um jardim de sonhos

Hoje Marcel Nauer é naturalizado brasileiro, mas quando tudo começou, ele era apenas um suiço – apaixonado por uma brasileira -, que tinha dois sonhos: viver em um país tropical e trabalhar com plantas. A paixão era por Neusa de Souza Bonfim, uma sergipana que ele conheceu na Bahia, em 1972. Durante quatro anos, Marcel visitou Sergipe para vê-la, até que conseguiu casar-se com ela e levá-la para a Europa, onde tiveram sua única filha, Christine. Mas a sergipana não se acostumou com a nova vida e acabaram voltando. A essa altura, 1983, já eram donos do sítio, que ele comprou sem ver, por intermédio dos parentes de Neusa.
Horto de Caípe Velho - Foto Lucinha Simões - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 2
Mas a história do Horto de Caípe Velho começa muito antes. Em sua infância, na Suiça, Marcel gostava de acompanhar o avô que era paisagista e trabalhava em um castelo alemão. Junto com ele, visitou vários jardins botânicos. Na adolescência, veio o encantamento pelos trópicos e o desejo de viver em um país tropical.

Flor no Horto de Caípe Velho - Foto Lucinha Simões - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA 2Antes de conhecer Neusa e se mudar para o Brasil, formou-se em uma escola de artes e trabalhou em gráfica fazendo retoques artísticos, mas, ainda em Zurich, mudou seu foco para a área da fotografia,.e foi esse seu primeiro trabalho no Brasil – fotógrafo do Centro de Criatividade de Aracaju. Depois que o Horto de Caípe Velho já estava estruturado, Marcel sentiu falta da atividade artística e começou a fazer tapeçaria.

Aparentemente, a formação de Marcel e sua nova atividade de tapeceiro não têm qualquer relação com o trabalho de Botânica, mas quem visita o Horto de Caípe Velho – ou Jardim Botânico, como preferem alguns – , percebe que não se trata apenas de um algomerado de plantas, ordenados pela lógica da botânica, mas de uma ‘pintura’ natural comparável ao trabalho dos mais famosos paisagistas.1

Notas

Flores e frutos - Fotos Lucinha Simões - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

 

Marcel e algumas espécies do horto - Fotos Clara Angélica Porto - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

 

Horto de Caípe Velho – São Cristóvão – Sergipe – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • (1,2,4,5 e 9) Clara Angélica Porto
  • (3,6,7 e 8) Lucinha Simões

Participação especial:

  • Ruth Oliveira
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53 Comentários
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Val Cantanhede
4 anos atrás

O Marcel é um Ser Humano de grande sensibilidade e de um amor imenso pelas plantas.
Conheci e me encantei com esse horto e com o trabalho de mágico do Marcel.
Abraços
Val Cantanhede

Unknown
4 anos atrás

Tive o privilégio de visitar o lugar é fiquei encantada. Só posso agradecer por tamanha dedicação!

Mércia
4 anos atrás

Matéria maravilhosa! Texto, conteúdo e fotos muito bonitos. Parabéns!

Unknown
4 anos atrás

Pretendo visitar,
Tenho paixão por oropronobis, e procuro a espécie dourada, alguém sabe onde adquirir em Sergipe?

Regina Célia de Oliveira
4 anos atrás

Que apaixonante história.

sonia pedrosa cury
4 anos atrás

Que legal, Sylvinha! Deve ser lindo!

TK Alves
4 anos atrás

Eu tb sou apaixonada por plantas. Há quatro anos fiz uma pos graduação em Terapia Auyveda e aumentou minha paixao. Trabaho principalmente com a ORAI PRÓ NOBIS e Moringa, fazendo pesquisas usando como alimentos e fitoterapico .
Parabens a Marcel. Acho que o conheço. Tenho ligação com Sergipe . Meu sobrinho Tarcisio tb mora em Sao Cristóvão e tem um sitio onde cria cavalos.
Me encantei com seu trabalho e gostaria de conhcer seu jardim botanico . Tenho um mini espaco onde planto e cultivo, pratico permacutura. Sou uma amante tb da natureza.

Maria Consuelo
4 anos atrás

Excelente matéria! Obrigada por nos apresentar lugares tão interessantes e bonitos! Para mim, foi uma grata surpresa saber da existência desse jardim botânico aqui em Sergipe!

Sidney Menezes
4 anos atrás

Fantástico. Como não conhecemos coisas nossas.

Unknown
4 anos atrás

Perfeito!!!

Unknown
4 anos atrás

Gostaria muito de entrar em contato com o Marcel. Como devo fazer?

Danrley
3 anos atrás

Boa noite. Tenho uma página, juntamente com outros dois amigos, sobre a história da cidade de Estância. Nela, postamos fotos e vídeos antigos da cidade. Será que Marcel possui fotos de Estância tiradas por ele em décadas passadas? Meu nome é Danrley de Lima Santos. email: [email protected]/ nome da página: Memórias de Estância (facebook e instagram). Grato desde já.

Cris
3 anos atrás

Lendo somente em dezembro/2020. Qual a localização do horto? Procurei no Google e não achei… A visitação é aberta ao público? Precisa agendar? Qual o horário de funcionamento? Tem algum contato de lá?
Parabéns pela matéria, não sabia que tínhamos um tesouro desses tão perto!

Cintia Grininger
3 anos atrás

Que história incrível a do Marcel! Fico maravilhada como pessoas assim conseguem construir algo tão lindo como o Horto de Caipe Velho sem grandes pretensões ou ambições, simplesmente para fazer algo bonito aos olhos.

Unknown
3 anos atrás

Por favor, não consigo mais contato com o Marcel. Fazíamos intercâmbio de plantas e não consigo falar no telefone da filha dele. Por favor se tiver um novo contado me envie. Grato.

Deyse
Deyse
3 anos atrás

Que especial conhecer o Horto de Caípe Velho, este lindo jardim botânico de um homem só. Confesso que desconhecia totalmente e achei a história impressionante. Que linda história!

Nathalia geromel
Nathalia geromel
3 anos atrás

Que bacana a história do Marcel em construir o Horto de Caipe. Pelas imagens dá para ver o carinho e o cuidado que ele tem com o local, lindíssimo esse jardim botânico

normeide neto de carvalho
normeide neto de carvalho
3 anos atrás

Amei esse lugar incrível. Que pena que o Horto de Caipe Velho não está aberto ao público. Adoraria poder conhecer um dia.

MOISESMBC
3 anos atrás

Esse horto de Capipe Velho é muito legal e quase um Jardim Botanico mesmo. Adorei o que o fotografo fez no local. Interessante como uma pessoa transforma o local. ABraços

Sabrina Albuquerque
Sabrina Albuquerque
3 anos atrás

Que iniciativa louvável do Marcel. Depois de ler teu post, fiquei com vontade de conhecer o Horto de Caípe Velho. Pena que não é aberto ao público.

Lilian Azevedo
Lilian Azevedo
3 anos atrás

Que lugar lindo esse horto de Caípe Velho ! Na verdade, um jardim botãnico fantástico. Marcel Nauer é uma pessoa de extrema sensibilidade com a arte da natureza

Luana Lopo
3 anos atrás

Imaginar que um jardim botânico de um homem só é tão lindo! EU já quero conhecer o Sr. Marcel e seu maravilhoso Horto de Caípe Velho.

CINTIA C.
CINTIA C.
3 anos atrás

Adorei conhecer a história do Horto de Caípe Velho: o jardim botânico de um homem só. Obrigada por compartilhar com a gente!

Cintia Vaz
Cintia Vaz
3 anos atrás

Que achado hein? Um jardim botânico de um único homem, que tem paixão por plantas, artes e a esposa que não está catalogado e só dá para agendar por indicação e aos domingos. O dia que eu for a Sergipe, certamente quero conhecer! Mas ai vou ter que falar com você para conseguir me indicar heheheh. Beijos adorei a matéria!

Cynara Vianna
1 ano atrás

Olha só, em 1980 eu morava em Aracaju. Pouco antes morei em Nossa Senhora das Dores, um interior bem pertinho de São Cristóvão e lembro de irmos à cidade algumas vezes. Uma pena que não conhecemos o Horto de Caípe Velho. Um lugar muito interessante pelo que li aqui.