Atualizado em 16/05/2025 por Sylvia Leite
Quem se encantou com as obras de Guimarães Rosa, pode tentar vivenciar a atmosfera de suas histórias ao visitar qualquer cidade localizada às margens do rio São Francisco ou do seu afluente Urucuia. O universo de Rosa está impresso, também, ao longo de cada uma das inúmeras veredas que cortam o bioma do Cerrado, na região Noroeste de Minas Gerais. Mas existem alguns pontos em que essa memória está mais viva, seja porque os fatos históricos e traços culturais contribuíram para a formação do escritor, seja porque serviram de cenário para suas obras. Ou, ainda, porque moradores e/ou autoridades locais decidiram resgatá-la das mais diversas formas.
Cordisburgo: onde nasceu Guimarães Rosa
O primeiro lugar é Cordisburgo, não apenas por sua condição de cidade natal, mas principalmente, por ter sido o lugar onde viveu até concluir o curso primário e onde certamente absorveu, ainda menino e sem se dar conta, a atmosfera de poesia e sensibilidade que impregnaria toda a sua literatura. Não é à toa que a cidade virou cenário de obras como “Sagarana”, “Primeiras Estórias” e “O recado do morro”. Além disso, Cordisburgo reúne grande parte do acervo pessoal do escritor*, e o homenageia por toda parte.

A lembrança de Guimarães Rosa e dos livros que escreveu está em cada esquina da cidade: do portal de entrada, que traz uma imagem sua ao lado de vaqueiros da região, ao museu que funciona na casa da família, onde o pai, seu Florduardo Pinto Rosa, mais conhecido como Flor, tinha um armazém de ‘secos e molhados’.
Rosa é lembrado também nas lanchonetes e restaurantes, que levam nomes de seus contos e na famosa ‘loja museu’ de Brasinha, onde o proprietário passa os dias a contar como conseguiu cada peça ali exposta e, principalmente, o que viveu em companhia de personagens reais que viraram personagens literários de sua obra. Cordisburgo é palco, ainda, da já famosa Semana Roseana, realizada anualmente no mês de julho, com saraus, rodas de leitura, recitais, apresentações teatrais, além de cortejos e uma caminhada literária.
Silga ou Sirga
Acredita-se que, depois da infância em Cordisburgo, o primeiro contato de Guimarães Rosa com os elementos do sertão – que mais tarde povoariam sua obra – tenha se dado entre 1930 e 1932 quando, recém-formado em Medicina, ele trabalhou no município de Itaguara, que na época pertencia a Itaúna. Mas o grande mergulho na realidade nua e crua da região só ocorreria em 1952.
Naquele ano, ele se juntou a um grupo de vaqueiros, comandados por um certo Manuelzão, para percorrer 240 km a cavalo, conduzindo uma boiada entre duas fazendas de seu primo Chico Moreira1. O ponto de partida foi a comunidade de Silga – ou Sirga, como dizem os sertanejos – que mantém, até hoje, a pequena igreja onde Guimarães Rosa assistiu missa e rezou nas vésperas da viagem.
A capela de Manuelzão, como ficou conhecida, foi construída pelo próprio vaqueiro – o mesmo que, quatro anos depois, tornou-se personagem do texto “Uma Estória de Amor” que, junto com “Campo Geral”, compõe hoje o primeiro dos três volumes da obra Corpo de Baile, sob o título Manuelzão e Miguilim. Em “Uma estória de amor (Festa de Manuelzão)”, Rosa traz a realidade para a ficção ao contar, inspirado em fato real, que a capela está localizada ali, ao lado do cemitério, para atender a um pedido da mãe do vaqueiro, que sonhava com uma igreja perto do lugar que escolheu para abrigar seu jazigo.
Manuelzão e Guimarães Rosa passaram apenas alguns dias juntos e nunca mais se viram, mas mantiveram o contato por cartas e o vaqueiro tornou-se uma lenda viva. Até sua morte, em 1997, atraiu ao local muitos jornalistas, cientistas e leitores interessados em possíveis revelações. Ele concedeu inúmeras entrevistas, foi convidado especial de vários eventos e produções artísticas e chegou a participar como ator do primeiro capítulo de uma série televisiva. Para homenageá-lo, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), deu seu nome ao projeto de recuperação do Rio das Velhas.Andrequicé
A 80 km se Sirga, fica Andrequicé – distrito de Três Marias, que foi um dos pontos de parada da boiada e acabou tornando-se, também, a derradeira terra de Manuelzão, que de nascimento mesmo era lá das bandas da Bahia. Ele mudou para Andrequicé ao se casar com a última esposa, dona Didi, pouco depois que voltou da famosa viagem com Rosa, e permaneceu ali até o fim da vida.
Foi, então, Andrequicé que acabou assumindo a honrosa missão de guardar a memória de Manuelzão – esse personagem, real e literário, quase tão famoso quanto seu criador. Além de referências espalhadas por toda parte, a sede do município abriga o Memorial Manuelzão – um projeto cultural que reúne museu e diversas atividades de resgate da cultura local e de difusão da obra de Guimarães Rosa.
Pelas ruas do lugarejo encontramos, ainda, outras referências roseanas. Caso da Pensão de Dona Olga – um casarão branco de portas azuis, retratado em Dão Lalalão, a primeira novela do livro Noites do Sertão. Nesse conto, o personagem Soropita – que se era uma espécie de comunicador encarregado por ele mesmo de transmitir notícias e novelas aos moradores de Ão – saía de seu povoado para ir até ali fazer compras e ouvir rádio em um armazém que funcionava nas duas últimas portas da casa.
Fazenda Santa Catarina
Perto dali, também no atual município de Três Marias, fica a Fazenda Santa Catarina – lugar comparável em significado a Andrequicé, Sirga e Cordisburgo pelo fato de igualmente fazer parte tanto da vida como da obra de Rosa. Nessa fazenda, embaixo de um alpendre, o escritor pernoitou na companhia de Manuelzão, Zito e outros vaqueiros que seguiram com ele junto à boiada.Morro da Garça
Embora importantíssimas, as histórias de Manuelzão e Miguilin não são as únicas do livro Corpo de Baile. Sua segunda parte, intitulada “No Urubuquaquá, no Pinhém”, é composta por três contos e o primeiro deles tem como ponto de partida o Morro da Garça. O próprio morro, ao pé do qual a cidade se espalha, é um dos personagens centrais da narrativa.Porto do “de-Janeiro”
Ainda em Três Marias, e bem pertinho de Sirga, fica o porto do “de-Janeiro” – afluente do São Francisco à margem do qual Riobaldo e Diadorim, os personagens principais do “Grande Sertão: Veredas”, encontraram-se pela primeira vez, ainda adolescentes, e deram início à sua história de amor proibido.
Morrinhos
Não há notícias de que Guimarães Rosa tenha estado em Morrinhos, nem de que o lugarejo tenha sido cenário de suas narrativas, mas quem vai até lá não pode deixar de lembrar de suas obras, especialmente do Grande Sertão:Veredas. Uma das razões é que o lugarejo, com cerca de 150 habitantes, conserva muito da paisagem e da forma de vida encontrados na época em que pode ter se passado a narrativa.Morrinhos também lembra o romance de Rosa porque está situada à margem do Urucuia – que além de ser citado inúmeras vezes ao longo do romance, é tratado pelo personagem Riobaldo como o “rio meu de amor”. E como se isso não bastasse, o povoado, que se resume praticamente a uma rua e uma praça, foi incluído no trajeto do Caminho do Sertão – um projeto definido por seus autores como “uma imersão socioecoliterária no universo de Guimarães Rosa” e, por causa disso, ganhou uma escultura que representa o passeio de barco de Riobaldo e Diadorim no “de-Janeiro”.
Paracatu
Menos lembrada do que provavelmente merece, seja no âmbito da história ou do turismo, a antiga Paracatu do Príncipe conserva muito do seu casario colonial, de suas histórias e lendas. E só por isso já seria interessante visitá-la. Mas para um lugar entrar nesta lista, é preciso que nos remeta à literatura de Guimarães Rosa e Paracatu faz isso duplamente: primeiro porque o rio homônimo, que corta suas terras, é citado mais de vinte vezes no “Grande Sertão:Veredas”. Segundo porque a obra menciona a própria cidade: “Depois de Paracatu, é o mundo…” diz Riobaldo, ao referir-se à trajetória do jagunço Zé Bebelo, depois que ele foi libertado.Itacambira
Paredão de Minas
E se mostramos o lugar de nascimento, precisamos apresentar também o lugar da morte. Falo de Diadorim, porque Riobaldo permanece vivo até o fim do livro. O Paredão de Minas, na verdade, foi o local da batalha final do Grande Sertão: Veredas e nessa batalha Diadorim foi vencido pelo jagunço Hermógenes.Mas não acaba aqui…
Assim como o romance de Guimarães Rosa, esta matéria não acaba no Paredão de Minas porque restam ainda algumas considerações para amarrar as pontas que ficaram soltas. Fazer uma lista com número definido de lugares costuma ser difícil porque nem sempre a realidade se restringe àquilo que foi escolhido. Nesse caso, por exemplo, ficaram de fora da lista lugares como o encontro do Rio Das Velhas com o São Francisco, onde Rosa localiza o espaço – provavelmente ficcional – do Guararavacã do Guaicuí. É nesse lugar que Riobaldo finalmente percebe, sem mais espaço para dúvidas, o seu amor pelo jagunço Diadorim. Estão foram também desta lista, municípios como Lassance, Corinto, Curvelo, Montes Claros, Pirapora entre outras, que tiveram significativa importância na a história principal ou nas histórias secundárias de “Grande Sertão: Veredas”.Notas
- 1 A fazenda de onde partiu a boiada era arrendada por Chico Moreira, mas todos a consideravam sua e até hoje ninguém sabe dizer quem era o proprietário
- 2 A maior parte do acervo da obra de Guimarães Rosa pertence hoje ao IEB - Instituto de Estudos Brasileiros, da USP - Universidade de São Paulo
- 3 Anotação feita por Rosa na caderneta que ele levou durante a viagem com Manuelzão e outros vaqueiros
- 4 Leia, aqui no blog, matérias completas sobre alguns dos lugares citados neste texto: Cordisburgo / Morrinhos / Serra das Araras / Paracatu / Sagarana
Lugares que remetem à literatura de Guimarães Rosa – Sertão de Minas – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Consultoria:
- Rosa Haruco
Participação especial:
- Rosa Haruco
- Cleide Castelan
- Renata Ribeiro
Colaboraração
- Evandro Von Sydow Domingues
- José Maria Carvalho
- Julio de Bento
- Leo da Casa de Cultura
- Marta Leandro
- Moisés Sales do Nascimento
- Pedro Cândido
- Zé Antônio da Samarra
Fotos
- (1 e 7) Marta Leandro
- (2, 6, 9,10 e 13) Sylvia Leite
- (3, 4, 8) Pedro Cândido
- (5) Paulo Henrique
- (11) Julio de Bento
- (12) Moisés Sales do Nascimento
Esta matéria sobre lugares que lembram a literatura de Guimarães Rosa, integrou uma blogagem coletiva intitulada 'Top 10' que busca apresentar ao leitor os dez itens, pontos ou lugares mais significativos de um determinado tema, região ou destino. Conheça as postagens dos demais participantes:
- Viajante Econômica - 10 passos para viajar com milhas e pontos
- Experiência Barbara – 10 cidades do interior de São Paulo para conhecer
- Família que Viaja Junto - Roma de graça: 10 atrações na Cidade Eterna sem pagar nada
- Viaje24h - 10 cidades que não podem faltar na sua Eurotrip!





Fiquei feliz com seu comentário. Obrigada. O blog tem outras matérias relacionadas a Rosa: Cordisburgo, Sagarana, Morrinhos, Serra das Araras. Está convidada a conhecer. Abraço.
Este é um roteiro bem "roseano". Nossos Parabéns!
Dá gosto de ler.
Dá vontade de reler Rosa.
Dá vontade de viajar com Rosa.
Excelente!
Que legal que você leu a matéria, Pedro. Muito obrigada pelas fotos.
Muito linda esta postagem, adorei ver minhas fotos publicadas aqui. Lembranças maravilhosas de todos estes lugares que visitei, nos livros e fisicamente. Parabéns!!
Que bom, Dani. São lugares muito legais. Vale a pena conhecer.
Como uma boa fã de literatura, amei demais sua lista de 10 lugares que nos remetem à literatura de Guimarães Rosa! Lindo demais! Parabéns!
Que legal! Pena que não se identificou. Da próxima vez , não esqueça de deixar seu nome.
Uma viagem na história e na literatura. Obrigado por nos proporcionar esse conhecimento, que a internet facilita. Estamos pensando em fazer esse roteiro no próximo ano.
Obrigada pelo comentário, Sylvia. Espero que faça mesmo a viagem e aproveite. Beijo
Olá xará, que excelente matéria, viajei com você nestes dez lugares que remetem à literatura de Guimarães Rosa. Um grande personagem da nossa literatura. Visitei Cordisburgo, e vida dele está impregnada na cidade, a começar do belíssimo portal, ruas, lojas e restaurantes. Amei conhecer a casa em que ele nasceu e passou sua infância, hoje um museu.
Já anotei os outros locais para também visitar e viver essa linda experiência literária. Parabéns pelo artigo! Sylvia Yano
Eu que agradeço, Cintia, pela leitura e pelo comentário. É gratificante saber que você se sentiu estimulada a ler Guimarães Rosa.
Obrigada, Mairim. Espero que faça essa viagem e desfrute. Eu fiquei maravilhada! Abraço!
Eu amo ler e reviver um cenário em que eu já estive, ou o contrário: conhecer um cenário que já li ou assisti. Adorei saber desses lugares que foram cenários para a literatura de Guimarães Rosa. parabéns pelo seu texto
Que maravilha ler esse texto maravilhoso que remete a literatura de Guimarães Rosa! Você me fez mergulhar em cada lugar descrito. Confesso que não conheço as obras de Guimarães Rosa, mas com certeza vou começar a ler. Obrigada pelo post!
Tomara que consiga, Cecília. Não vai se arrepender.Obrigada pelo comentário.
Já havia lido sobre a cidade natal de Guimarães Rosa, Cordisburgo. Fiquei bastante interessada em conhecer toda sua trajetória e está lista dos 10 lugares que nos remetem à literatura de Guimarães Rosa está super completa. Espero poder viajar e poder ir a esses lugares que você me aguçou a conhecer.
Obrigada pelo comentário, Ângela. Toda semana tem matéria nova no blog. Acompanhe!
Adorei esse roteiro passando pelo lugares que renetem à literatura desse grande escritor. Eu só li Grande Sertão Veredas. Mas já quero viajar lendo as outras obras de Guimarães Rosa. Lindo post!
Sim, Elisabeth, Élida Marques faz parte da Roda de Leitura de Guimarães Rosa da qual também participo. Não a conheço pessoalmente, mas tenho ótimas referências do seu trabalho.
É gratificante saber que a matéria lhe inspirou de alguma maneira. Obrigada pelo retorno. Abraço!
Estive em MG e conheci a casa onde viveu Guimarães Rosa .O quarto ,sala ,painéis com trechos de sua obra ,a cozinha com antigos objetos .Tudo muito bonito .Gostei dessa matéria ,que mostra lugares por onde andou esse grande homem, expoente de nossa literatura ,Guimarães Rosa .Em Itu-SP ,mora Élida Marques ,que possui um Blog:LER É UMA VIAGEM e no seu cotidiano trabalha a obra de Guimarães Rosa ,principalmente ,reunindo grupos ,dramatizando ,leitura de textos e por aí vai .Além disso também canta muito bem .Abraço
Li somente Grande Sertão Veredas da literatura de Guimarães Rosa, mas saber que existem cidades, roteiros em que podemos conhecer o que inspirou o autor nos incetiva a querer ler para depois ver se nossa imaginação é como o real!
Começou bem!
Delícia, mesmo, Val. Alimento ara a alma. Beijo
É um bom começo. Abraço!
Eu que agradeço, Xico, pela leitura, pelo comentário e pela ajuda que me deu em tantas matérias. Grande abraço!
Obrigada, Linda. Saiba que ela só foi possível por causa da minha participação na Roda de Leitura. Foi lá que me encantei ainda mais por essa literatura, foi lá que conheci Rosa e outras pessoas que me levaram a esses lugares, foi lá que conheci pessoas que colaboraram com esta matéria. Beijo.
Obrigada, Lílian. Realmente não é fácil, mas o fato de ele ter falado de lugares reais nos ajuda muito, não é? Por exemplo: quando vi uma vereda pela primeira vez, comecei a entender melhor algumas coisas que ele diz sobre a paisagem do sertão.
Valeu, Newsinho. Obrigada pelo comentário, bjo.
Excelente conteúdo, parabéns Sylvinha. N
Que lindo esse texto sobre 10 lugares que nos remetem a literatura de Guimarães Rosa.Me lembro dos personagens Riobaldo e Diadorim da série que passou na TV. Visitar essas cidadezinhas à luz desse post é um mergulho na literatura de Rosa.Ler esse texto é uma bela aula. Não acho fácil a leitura de Guimarães Rosa. Obrigada
Linda matéria, Sylvia!!! Obrigada por nos trazer o sertão roseano bem nesses dias que estaríamos por lá. Linda
Parabéns! GRATO pela partilha e paixão comum à região onde nasci e a Guimarães Rosa! xiko Mendes
Belezura de lugares.. só fui a cordisburgo
Belezura de lugares.. só fui a cordisburgo
Sylvinha, é mesmo uma delícia esse roteiro cultural na Minas do Rosa!
Bjs,
Val Cantanhede
Obrigada pelo comentário, Fabíola. Realmente é enriquecedor visitar esses lugares sabendo como cada um deles aparece e é tratado na obra de Rosa.
Que texto interessante, muito enriquecedor conhecer mais sobre a literatura de Guimarães Rosa viajando por esses lugares que de alguma forma estiveram presentes nos seus textos.
Obrigada, Deyse, pela leitura e pelo comentário. Abraços!
Amei o seu texto "Dez lugares que nos remetem à literatura de Guimarães Rosa". Guimarães Rosa é uma lenda e faz parte de nossa história! Já conhecemos Cordisburgo, Itacambira e Paracatu. Ótimo post com o resgate dos locais por onde ele passou!
Obrigada, Hebe! Toda semana tem matéria nova no blog. Acompanhe!
Valeu, Vi! beijo
Delícia de roteiro. Parabéns, Sylvia. Show!
Muito bacana seu texto, super completo, uma aula mesmo sobre a literatura de Guimarães Rosa. parabéns!