Nine-Mile-House: uma vila ‘quase fantasma’

Tempo de Leitura: 5 minutos

Atualizado em 02/05/2024 por Sylvia Leite

Debora_e_Diarmuid_em_Nine-Mile-House_foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAQuando estive na Irlanda, fui convidada por um casal de amigos – Débora e Diarmuid Commins – para passar uns dias com eles em Kilkenny, onde moravam. A primeira noite deveria ser na casa dos pais de Diarmuid em Nine-Mile-House ou Ninemilehouse – a vila onde ele viveu até os 12 anos no Sudoeste do país. Embora esteja muito próxima de Kilkenny, a vila pertence ao vizinho condado de Tipperary, província de Munster.

Não fosse por esse convite, provavelmente eu nunca saberia da existência de Nine-Mile-House e ficaria sem experimentar uma das surpresas mais agradáveis que já tive em minhas viagens pelo mundo.

Cemitério_em_Ninemilehouse_foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIANine-Mile-House é daqueles lugares que a gente custa a acreditar que existem. Ao longo de apenas uma rua, que mais parece uma pequena estrada, estão cerca de dez grandes casas, uma cooperativa de fazendeiros, uma padaria, um cemitério e recentemente surgiu um posto de combustíveis. Só isso. Nada mais.

Em uma das construções, permanece a placa de uma agência de correios que funcionou até meados dos anos 2.000, quando ocorreu a aposentadoria da mãe de Diarmuid – a última remanescente na vila da família Brophy/Commins, que era responsável pelos serviços de comunicação (correios e telefonia). Outro imóvel ostenta ainda o letreiro da hospedaria The Grand Inn que parou de funcionar há algumas décadas.

A história de Nine-Mile-House

The_Grand_Inn_-Foto_de_Kevin_Higgs_em_Wikimedia_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA vila nasceu entre os séculos 19 e 20, quando viajantes semelhantes aos nossos tropeiros percorriam o pais a cavalo levando mercadorias. Nine-Mile-House encontrava-se à margem do único caminho da época entre Dublin, a capital, e Cork, a segunda maior cidade da Irlanda, e por isso era usada como local de pouso desses mercadores.

A hospedaria The Grand Inn, hoje usada apenas como residência de uma das famílias da região, era o lugar de descanso dos viajantes e mantinha cocheiras para acomodar seus cavalos. Já a agência de correios tinha a função de receber as correspondências como as mercadorias trazidas por esses viajantes, e entregá-las aos destinatários locais.

Antigo_posto_dos_correios_em_Ninemilehouse_foto_de_Sylvia_leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAAo longo do tempo, os correios funcionaram em dois pontos: no casarão antigo, onde Diarmuid passou a primeira infância – que mantém até hoje a placa histórica -, e posteriormente na Log Cabin – ou Casa de Madeira – nome pelo qual se conhece a construção recente da vila e também a única desse material. A Log Cabin foi erguida por seus pais e tinha um cômodo extra onde funcionavam os correios.

Historicamente chamada de Killcullen, a vila passou a ser conhecida como Nine-Mile-House por estar situada 9 milhas irlandesas (cerca de 18 km) antes de Carrick-on-suir 1, a parada seguinte na rota entre Dublin e Cork. Na época, antes da construção de uma nova estrada, esse caminho era conhecido como Via Postal de Dublin, hoje denominado Estrada Secundária Nacional N76.Placa_dos_correios_em_Ninemilehouse_foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIA

Diferente das vilas brasileiras que serviam de entreposto aos tropeiros – e se desenvolveram ao ponto de dar origem a cidades – Nine-Mile-House nunca teve alteração de tamanho nem de população. As casas de hoje são praticamente as mesmas de antigamente. Muitas das famílias que as construíram –  Cody, Hanrahan e a própria Commins – permanecem por lá e os imóveis vão passando de geração a geração.

Quando Diarmuid era criança, o médico visitava a vila a cada mês, ou no máximo a cada 15 dias, a depender da época.  Ele, e praticamente todos de sua geração que cresceram em Nine-Mile-House, fizeram os primeiros anos de escola na cidade vizinha: Grange-Mockler1. Iam e voltavam diariamente.Log_Cabin_Foto_de_Diarmuid_Commins_BOG_LUGARES_DE_MEMORIA

Para cursar os níveis mais avançados, eles tiveram que ir morar em centros maiores. Muitos não voltaram, mas deixaram irmãos. E vieram os sobrinhos que um dia também terão que sair, fazendo com que a vila seja sempre um lugar quieto, sem gente na rua e sem jovens.

Mas embora não se encontre ninguém na rua e os casarões nos passem a impressão de que estão desabitados, a vila quase fantasma não é triste nem decadente. Talvez melancólica, embora também agradável e impressionante. Mas para entendê-la é preciso ter contato com alguma das poucas famílias que sempre estiveram por lá.

Notas

  • 1 Pelo menos uma fonte considera que Grande-Mockler e Nine-Mile-House são dois nomes de um mesmo lugar, mas ex-moradores garantem que são lugares diferentes e alguns afirmam ter estudado na cidade vizinha de Grange-Mockler. Talvez a confusão decorra do fato de ambas estarem localizados na freguesia de Grange-Mockler
  • 2 Há quem afirme que o nome Nine-Mile-House deve-se ao fato de a vila estar localizada 9 milhas irlandesas adiante de Glenbower e não 9 milhas antes de Carricl-on-suir. Tanto Glenbower como Carrick-on-suir ficam ao longo da N76
  • 3 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares especiais da Irlanda: Dublin / Kilkenny / Newgrange / Guiness

Nine-Mile-House – Grangemockler – Tipperary – Munster – Irlanda – Europa

Texto

Fotos

  • Sylvia Leite
  • kevin higgins em Wikimedia -CC BY-SA 2.0
  • Diarmuid Commins

Consultoria

  • Débora e Diarmuid Commins

Agradecimentos

  • A Débora e Diarmuid Commins por terem me recebido em Nine-Mile-House e em Kilkenny e por terem complementado as poucas informações que consegui levantar sobre a vila
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Mayra Mendonca Morais
Mayra Mendonca Morais
6 meses atrás

Parabéns pelo texto e por ter conhecido um lugar tão diferente do habitual. Vc escreve muito bem e estou aguardando o seu livro.

Cristiane
Cristiane
6 meses atrás

Acho que a partir de agora esse vilarejo não será mais tão fantasma ☺️

Ma Elisa Fernandez
6 meses atrás

Estupendo relato Sylvia!! Gracias

Sonia Pedrosa
6 meses atrás

Acho que esses pequenos vilarejos concentram a verdadeira identidade dos países. Por isso, ficamos encantados quando visitamos.

Sonia Pedrosa
6 meses atrás

Essas cidades pequenas, essas vilas são verdadeiros tesouros, elas guardam a essência, a identidade do povo. Eu amo esses lugares pequenos!!!! E esse deve ser uma graça!!!!

Marcella
Marcella
5 meses atrás

Que convite incrível! É maravilhoso como amizades nos conduzem a lugares especiais. Essa experiência em Nine-Mile-House parece ter sido uma surpresa encantadora em sua jornada pela Irlanda.

Cynara Vianna
2 meses atrás

Essas experiências que só as viagens nos proporcionam não têm preço. Como você bem disse, se não fosse pelo convite jamais iria até Nine-Mile-House e que grata surpresa que foi né?