Museu da Imigração: os ecos de uma hospedaria

Tempo de Leitura: 6 minutos

Atualizado em 02/05/2024 por Sylvia Leite

Fachada_do_Museu_da_Imigracao_Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAO nome é bastante genérico, mas o Museu da Imigração foi concebido com o propósito específico de contar a história das pessoas que chegaram a São Paulo para trabalhar nas plantações de café e tiveram como primeira moradia a antiga Hospedaria de Imigrantes, ou Hospedaria do Brás, instalada no prédio que hoje abriga o museu.

Seu acervo é composto tanto por peças e documentos administrativos recolhidos da hospedaria e de outras instituições oficiais, como por objetos e registros pessoais doados pelos próprios imigrantes ou por seus descendentes.

São bagagens, ferramentas de trabalho, utensílios domésticos, objetos pessoais, indumentária, além de fotografias de família trazidas pelos imigrantes e registros feitos dentro da hospedaria. O museu abriga, ainda, móveis que pertenceram à instituição e todo tipo de equipamento, inclusive aqueles usados por médicos e dentistas na assistência aos Imagens_equipamentos_e_utensilios_no_Museu_da_Imigração_Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIArecém-chegados.

Para completar, o Museu da Imigração criou o projeto Colecionando Histórias Orais que reúne depoimentos de migrantes e descendentes, com relatos sobre a viagem, a chegada e as dificuldades enfrentadas depois do desembarque.

Essas gravações nos ajudam construir uma visão mais humana e menos documental da passagem dessas pessoas pela hospedaria, assim como toda a experiência de imigração, incluindo despedidas, viagem, chegada e adaptação ao novo cotidiano.

Os brasileiros e as mais de 70 nacionalidades

Replicas_de_camas_da_antiga_hospedaria_Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAEmbora a ênfase de toda essa história tenha sempre recaído sobre os estrangeiros, especialmente europeus, que vinham substituir a mão de obra escravizada na lavoura, pesquisas realizadas até o momento indicam que mais da metade dos que passaram pela hospedaria – especialmente os que chegaram a partir da década de 1930 – tinham nacionalidade brasileira e haviam migrado de outros estados.

Essa descoberta, além de revelar um novo perfil da população acolhida na hospedaria, aumenta de 2,5 milhões para pelo menos 3,5 milhões o número total de abrigados pela instituição em seus 91 anos de funcionamento. Isso porque a chegada de brasileiros nem sempre era contabilizada.

Imagem_interna_do_Museu_da_Imigração_ Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIASabe-se hoje, também – por meio de pesquisas realizadas ou apoiadas pelo próprio Museu da Imigração – que o leque de nacionalidades daqueles milhares de hóspedes não se resume a italianos, portugueses, espanhóis, alemães e japoneses como se supôs anteriormente. Pelo que foi apurado até o momento, os imigrantes recebidos na Hospedaria do Brás vieram de pelo menos 70 países de quase todos os continentes, com exceção apenas da Oceania.

Entre europeus de outras nacionalidades, por exemplo, há registros de mais de 11 mil poloneses e de 4 mil franceses, além de grupos menores vindos de diversos países, inclusive daqueles menos conhecidos como  Letônia, Lituânia ou Estônia. A população da hospedaria incluiu, ainda, nacionalidades africanas, como egípcios e marroquinos, asiáticas, como indianos, iraquianos, palestinos, sírios, libaneses e israelenses para citar apenas alguns.

História do Museu da Imigração

Foto_historica_de_imigrantes_Museu_da_Imigração_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAPara entendermos a história do Museu da Imigração, será preciso voltarmos a 19, quando, depois da Abolição da Escravatura, os produtores de café precisavam de mão de obra para a lavoura cafeeira e os europeus sofriam as consequências da Revolução Industrial, com milhares de desempregados e muita gente passando fome. Foi nesse contexto que se criou uma política de imigrações em todo o Brasil, principalmente em São Paulo, e para receber os estrangeiros surgiram várias instituições, entre elas a Hospedaria do Brás.

A função inicial da hospedaria era acolher os estrangeiros e encaminha-los para o trabalho nas fazendas e também na indústria que começava a se desenvolver. O prédio, construído entre 1886 e 1888, abrigava a Agência Oficial de Colocação e Trabalho, posto policial, agência de correios, lavanderia entre outros serviços. Sua estrutura contava, ainda, com um complexo de Saúde que incluía hospital, farmácia, além de ambulatórios médicos Foto_de_imigrantes na Hospedaria_do_Bras_Museu_da_Imigração_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAe odontológicos a fim de atender os imigrantes que adoeciam durante longa viagem, geralmente feita em navios.

A hospedaria era estrategicamente localizada à margem de duas ferrovias que partiam de Santos e do Rio de Janeiro em direção ao interior de São Paulo. E para facilitar o deslocamento dos imigrantes até as fazendas onde iriam trabalhar, foi criada uma estação dedicada exclusivamente a receber e embarcar imigrantes.

A instituição encerrou as atividades em 1978, depois de receber seus últimos usuários – um grupo de imigrantes coreanos. Quatro anos depois, o prédio teve seu primeiro tombamento pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo. Logo em seguida foi criado o Memorial do Imigrante, que, em 2011, viria a se transformar no Museu da Imigração.Painel_com_documentos_de_imigrantes_Foto_de_Sylvia_leite_BOG_LUGARES_DE_MEMORIA

Desde a sua fundação, o Museu da Imigração sempre foi dirigido por mulheres. A instituição teve cinco diretoras em três décadas de funcionamento. A primeira diretora, a socióloga Jussara Nunes Ferreira, permaneceu por cerca de um ano, mas nesse curto período definiu uma proposta museológica conectada a novas tecnologias que é seguida até hoje. A segunda, Midory Kimura Figuti era descendente de imigrantes japoneses e participou ativamente das pesquisas sobre os imigrantes.

A terceira diretora foi a filósofa e museóloga Ana Maria Leitão e seu período foi marcado pela busca de articulação com um campo maior das migrações. A gestão seguinte foi da historiadora e museóloga Marília Bonas Conte que teve como principal desafio a reforma e adequação do prédio a uma instituição museológica. Atualmente o museu é dirigido por Alessandra Almeida, profissional das áreas jurídica e administrativa, que trabalha na requalificação da exposição de longa duração de modo a aprofundar a reflexão sobre as migrações.

Um olhar para as imigrações atuais

Museu_da_Imigração_visão_interna_Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAAo longo dos anos, o Museu da Imigração foi alargando seus horizontes e rompeu os limites da Hospedaria do Brás, passando a dialogar com temas como a diáspora africana que embora involuntária, foi uma importante forma de imigração e contribuiu enormemente para a formação do povo brasileiro.

O museu também buscou incorporar temáticas mais recentes como as imigrações a partir de países subdesenvolvidos ou em dificuldades econômicas, como o Haiti, e de regiões em conflito, como a Palestina.

Todo esse universo tem sido abordado pelo Museu da Imigração em suas exposições temporárias, cursos e pesquisas. Mas, pelo menos as questões mais recentes não ocupam um espaço significativo na mostra de longa duração e parecem não ter sido ainda inteiramente absorvidos pelo museu, embora sejam apontados pela equipe e pelo próprio site da instituição, como o principal desafio da atual gestão.

Mas se esses imigrantes contemporâneos ainda estão pouco representados no museu, do lado de fora eles ocupam um painel de 736Detalhe_do_mural_de_Kobra_no_MI_Foto_de_Sylvia_Leite_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIA metros quadrados intitulado “Janelas abertas para o mundo”, em que o muralista Eduardo Kobra apresenta oito pessoas – de diversas nacionalidades e etnias – em situação de refúgio.

Kobra retratou pessoas reais, indicadas pela IKMR – I Know my rights (Eu conheço meus direitos), organização que atura na proteção de crianças refugiadas no Brasil. O painel foi pintado no muro localizado em frente à fachada do museu e fica bem visível para quem entra ou sai do prédio.1

Notas

  • 1 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros museus de São Paulo: Museu do Ipiranga / Museu das Favelas / Museu das Culturas Indígenas / Museu dos Óculos

Museu da Imigração – Braz – São Paulo – São Paulo – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • ( 1,2,3,4,7,8,9 ) Sylvia Leite
  • (5,6) Fotos expostas no museu

Participação especial

  • María Augusta Garcez

Referências

 

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7 Comentários
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Valdeci da Silva Meneses Cantanhede
Valdeci da Silva Meneses Cantanhede
7 meses atrás

Excelente matéria, Sylvinha!
Não tinha conhecimento desse Museu em SP.
Que o Brasil continue com janelas abertas a todos os povos!
Abraços

Cristiane
Cristiane
7 meses atrás

Legal essa reportagem, desconhecia esse museu e é muito interessante saber desse acervo, desses registros, dessas histórias!

Mayra Mendonca Morais
Mayra Mendonca Morais
7 meses atrás

Parabéns pelo artigo. Na próxima vez que for a São Paulo , irei conhecer o Museu da imigração.

Sonia Pedrosa
3 meses atrás

Poxa, eu não conheço esse museu… e eu adoro esse tema, acho os museus de imigração muito interessantes e curiosos. Gosto muito de saber dessas história. Boa dica, Sylvinha.