Mikonos: um lugar repleto de História e Mitologia

Tempo de Leitura: 7 minutos

Atualizado em 30/04/2024 por Sylvia Leite

Mykonos,_bar _com_moinhos_ao_ fundo _I, Sailko_em _wikimedia_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAMikonos é conhecida pela maioria dos turistas como uma das mais famosas ilhas do mar Egeu – as chamadas Ilhas Gregas. O que por si só já é bastante. Mas se pesquisarmos um pouco, veremos que esse lugar paradisíaco vai muito além de seu belíssimo mar, dos icônicos moinhos de vento e da especial arquitetura marcada pela combinação de branco e azul em ruas estreitas e sinuosas, pois também carrega uma História milenar, marcada por  Espiritualidade e Mitologia.

Seus habitantes originais já estavam lá mais de onze séculos antes de Cristo quando, segundo achados arqueológicos, foi ocupada pelos Jônios.  Já na Mitologia, há duas versões que tentam explicar a origem de seu nome. Segundo o mito clássico, a ilha foi palco da Batalha dos Gigantes, que acabaram exterminados por Hércules. Suas formações rochosas seriam, na verdade, os corpos dessas figuras míticas petrificados e seu nome significaria algo como ‘lugar pedregoso”. Já uma tradição posterior descreve a ilha como local de nascimento do herói Mykonos, neto do Deus Apolo, e a ilha teria recebido esse nome em sua homenagem.

Além disso, Mikonos integra o Arquipélado das Cíclades, formado por 54 ilhas que descrevem um círculo em volta de Delos –  a ilha sagrada onde teriam nascido Apolo, Deus do Sol, e Artemis, sua irmã e Deusa da Caça, posteriormente associada à Lua e, segundo algumas versões, também à magia.

A Mikonos milenar

Viela_com casas_em_Mikonos_Bernard Gagnon_em Wikimedia _BLOG_LUGARES_DE_MEMORIADescobertas recentes indicam que Mikonos já era habitada no período Neolítico, entre os anos 7.000 e 2.500 antes de Cristo (aC), mas é a partir do ano 1.000 da mesma era – cerca de um milênio e meio depois – que sua história passa a ser registrada. Nessa época, os habitantes de ilha eram os Carians – povo citado por Homero, na Ilíada – e os Fenícios – a quem se atribui a ‘invenção’ do alfabeto nos termos que conhecemos hoje – e ambos foram expulsos pelos Jônios de Atenas. Depois disso, a ilha passou pelo domínio de vários povos, entre Romanos, Venezianos e Otomanos.

Mikonos já foi uma ilha pobre, que sofreu com epidemias, mas teve também seu período de florescimento. Foi ponto de trânsito e abastecimento, no período em que a pequena ilha de Delos abrigava o principal templo de Apolo, era sede da Liga de Delos, que congregava os aliados de Atenas contra Esparta, e tornou-se o centro político e religioso do Mar Egeu.

Delos: a ilha sagrada

Vista_aerea_de_Delos_Foto_site_oficial_Mikonos_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAMais que uma ilha, Mikonos é um município da Grécia que inclui não apenas a famosa ilha de mesmo nome, mas também a ilha de Rhenia, ilhotas circundantes e a própria Delos, situada a cerca de 2 km – meia hora de barco. Assim, quem visita a ilha de Mikonos não pode deixar de guardar um tempinho para conhecer as ruínas e o Museu Arqueológico de Delos.

Segundo a Mitologia, o nascimento de Apolo e Artemis nessa pequena ilha deve-se a uma ação de Poseidon para livrar sua mãe Leto, da perseguição de Hera, a esposa de Zeus. Ferida pela traição, Hera fez Gaia – a Terra – prometer que Leto não encontraria lugar em seus domínios para dar à luz. Então Poseidon, a pedido de Zeus, fez emergir Delos como uma ilha flutuante – característica que a mantinha fora do poder de Gaia –  para abrigar Leto ainda grávida. Somente tampos depois é que a pequena ilha teria sido amarrada ao fundo do mar para tornar-se fixa.

Mais igrejas que em Salvador

Igreja_de_Panagia_Paraportiani__Bernard Gagnon_em Wikimedia _BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA antiga religião politeísta – e a Mitologia relacionada a seus deuses – não é o único legado espiritual da ilha, que apesar de medir apenas 16km de largura por 11km de comprimento, concentra mais de 600 igrejas. É quase o dobro do que existe em Salvador – a cidade brasileira que se orgulha de ter 365 templos cristãos – um para cada dia do ano. Mas enquanto na capital baiana as igrejas são Católicas, em Mikonos elas são Ortodoxas, com raríssimas exceções.

A razão de tantos santuários pode ter várias causas, que vão desde a tradição de construir igrejas como um ato de devoção ou como voto pela segurança dos pescadores, até o costume de enterrar os mortos em capelas familiares e de colocar seus ossos nas paredes. Embora as igrejas tenham surgido em Mikonos no período Bizantino, ainda há casos de famílias que constroem suas próprias capelas.

Seguindo as linhas da arquitetura local, as igrejas são caiadas com cúpulas pintadas de também de branco, de azul, ou, apenas em alguns casos, de vermelho forte. A maioria tem pequenas dimensões e, além de serem usadas como lugar de oração, servem também a cerimônias festivas.

Mosteiro_Ano_Mera_Bernard Gagnon_em Wikimedia _BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAEntre as inúmeras igrejas de Mikonos, algumas se destacam: caso da Panagia Paraportiani, que na verdade é um complexo de cinco igrejas – quatro na parte de baixo e uma em cima – que acabou se tornando um dos templos mais fotografados do mundo. Além de concentrar cinco igrejas, Panagia Paraportiani reúne elementos de quatro estilos arquitetônicos – bizantino, vernacular, tradicional e ocidental – pois foi construída em diferentes períodos. As de baixo são devotadas aos santos Eustáquio, Sozon, Anastácia e aos Anargyroi – palavra que significa ‘não mercenários’ e é aplicada a santos que cuidavam gratuitamente dos doentes. Já a igreja de cima é devotada à Virgem Maria.

Mikonos abriga, ainda, alguns mosteiros históricos e o mais conhecido deles é o de Panagia Tourliani, que deu origem ao povoado de Ano Mera, onde está localizado. O mosteiro foi construído em um local onde antes havia uma igreja consagrada à Virgem Maia. Nele, encontra-se o Museu Eclesiástico de Míkonos, composto por relíquias religiosas.

Uma heroína da liberdade

Manto_Mavrogenous_retrato_Zde_emWikimedia_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAComo se não bastasse a riqueza histórica, espiritual e mitológica, Mikonos teve um importante papel na Guerra da Independência da Grécia contra o Império Otomano, que durou nove anos – de 1821 a 1829 –  e quem liderou a população da ilha durante toda essa rebelião foi Manto Mavrogenous – uma mulher de família rica, que vendeu suas jóias para financiar batalhas.

Embora fosse descendente de nativos da ilha, Manto estudou em Trieste – hoje parte da Itália – onde foi influenciada pelos ideais iluministas. Quando soube dos preparativos para a Revolução, já havia se mudado para Paros com a família. Decidiu, então, partir para Mikonos e convidar os líderes locais a aderirem ao movimento.

Além de haver mobilizado os mikonos para expulsarem os turcos otomadosda ilha, Manto liderou ações em defesa de outras ilhas Ciclades. Foi ainda mais longe: pediu a seus amigos europeus que enviassem dinheiro para financiar a revolução e fez uma carta à mulheres de Paris para tentar impedir a ajuda francesa aos otomanos:

… não peço a sua intervenção para obrigar seus compatriotas a nos ajudar. Mas apenas para mudar a ideia de enviar ajuda aos nossos inimigos…

Muitos registros da Revolução grega ignoram a participação de Manto Mavrogenous, mas na Grécia ela dá nome a várias ruas e sua imagem foi impressa no verso da moeda de 2 dracmas de 1988–2001 e também em outras apenas comemorativas. Já as ilhas de Mikonos e Paros batizaram suas praças principais com o nome da heroína e, em Mikonos, sua imagem está imortalizada em um busto no meio da praça.

Mikonos hoje

Moinhos_em_Mikonos_Dinorah_Regis_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA vocação turística de Mikonos só foi surgir na década de 1950, quando jovens ricos passaram a frequentá-la. Sua consolidação como ilha preferida do jet-set internacional viria pelas mãos de Jackeline Kennedy, na época casada com o presidente dos Estados Unidos, que, segundo as más línguas, não resistiu à beleza do lugar nem ao iate do milionário Aristóteles Onassis, que depois se tornaria seu marido. Mais tarde, Mikonos ganhou espaço também como centro de nudismo e, mais adiante, como destino amigável ao turismo gay.

Já Delos, que se resume ao um sítio arqueológico e um museu, nunca alcançou a mesma fama internacional conquistada pela ilha de Mikonos, mas recebe visitantes europeus desde o século 17 e começou a ser escavada por arqueólogos franceses no século 19. Em 1990, foi declarada Patrim|ônio Mundial da Humanidade, pela Unesco. 1 2 3

Notas

Para saber mais

  • Você pode também se informar sobre Santorini, outra importante ilha turística da Grécia, no blog Viajando com Lívia

Mikonos – Mikonos – Ilhas Cíclades – Mar Egeu – Grécia

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Valdeci Cantanhede
Valdeci Cantanhede
2 anos atrás

Quanta beleza nessa matéria, Sylvinha! As ilhas paradisíacas da Grécia fazem jus à fama.
Bjs

Nathalia Geromel
Nathalia Geromel
2 anos atrás

Ual !! Quantas imagens lindas de Mikonos. Eu fico encantada com as casinhas brancas e com toda a história que o lugar tem né, vontade de conhecer

Sonia Maria Pedrosa Silva Cury
2 anos atrás

Um dos destinos mais festejados e desejados de quem vai à Grécia. Não pode ficar de fora de nenhum roteiro. Parabéns pela matéria, Sylvinha!

Patrícia Carvalho Veludo
2 anos atrás

Mykonos é dos sítios mais bonitos que já conheci. Passear pelas suas ruelas transmite-nos uma paz única. Espero voltar.

ALEXANDRA MORCOS
ALEXANDRA MORCOS
2 anos atrás

Se existe perfeição, ela se materializou precisamente nesta ilha, que é dotada de uma rara beleza!

Cynara Vianna
8 meses atrás

Quando estava planejando minha viagem pra Grécia, Mykonos foi a primeira ilha que coloquei no roteiro, não poderia deixar de conhecê-la na primeira vez no país. E não me arrependi, agora lendo mais sobre sua origem, vejo que a energia que senti nos dias que estive na ilha tem um ‘fundamento’ :). Adorei conhecer essa parte da história.