Mesquita de Córdoba: um templo de muçulmanos e católicos

Tempo de Leitura: 5 minutos

Atualizado em 15/03/2022 por Sylvia Leite

Imagine-se entrando em uma imensa mesquita, onde as colunas exibem arcos decorados com listras vermelhas e beges que se repetem aparentemente até o infinito. Você começa a andar por aquele bosque interminável, tentando adivinhar quantas colunas ainda virão e, de repente, a paisagem se transforma. No lugar das arcadas bi-colores surgem formas mais austeras e imagens de santos. O choque visual lhe fará pensar que mergulhou num daqueles sonhos em que nada faz sentido. Mas a experiência é concreta: você está na Mesquita de Córdoba.

A construção de uma catedral dentro da mesquita – o que a torna conhecida também como Mesquita-Catedral – é consequência de um acontecimento conhecido como Reconquista Cristã, que consiste na retomada, pelos Catedral católica dentro da Mesquita de Córdoba - Foto do site oficial do monumento - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAcatólicos, do poder na Península Ibérica, que estava ocupada desde o século 8 pelos muçulmanos.

Mas a história desse monumento não começa com os fatos narrados até aqui. Antes da mesquita ser erguida existia ali uma basílica visigoda devotada a São Vicente, que depois da invasão árabe chegou a ser compartilhada por maometanos e cristãos, e antes dessa igreja havia um templo romano.

A Mesquita de Córdoba na Idade Média

Depois que o califa Abd Ar-Rahman derrubou a Basílica de São Vicente e deu início à construção da mesquita, no século 8, o local passou a ser usado apenas por muçulmanos com finalidade religiosa, social, cultural e política.Vista externa da Mesquita de Córdoba - Foto de Waldo Miguez em Pixabay - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

Como Córdoba era a capital do Império de Al-andalus, que se estendia até o Douro, em Portugal, a mesquita foi sendo ampliada e ganhando cada vez mais projeção até tornar-se o lugar de culto mais importante do Islam no Magreb – palavra árabe que significa poente, usada pelos muçulmanos para referir-se ao seu império no Ocidente.

Mas mesmo sendo de uso exclusivo dos praticantes da religião islâmica, a Mesquita de Córdoba nunca chegou a refletir apenas a cultura de seus construtores. Talvez pelo seu passado de múltiplas culturas, manteve um pouco de cada povo que esteve por ali.

Restos da Basílica visigoda no subsolo da mesquita - Foto do site oficial do monumento- BLOG LUGARES DE MEMÓRIAA mistura de estilos e materiais

Ao erguerem a mesquita, os muçulmanos aproveitaram materiais tanto da igreja visigoda, que deu lugar à nova construção, como de outros edifícios antigos de diferentes origens, fazendo com que nada, além dos arcos listrados, parecesse uniforme. Mesmo as colunas talhadas especialmente para a mesquita, durante uma ampliação realizada quase dois séculos depois, foram produzidas em mármore de diferentes cores: azul e rosa.

Como se não bastasse a mescla de elementos herdados dos antecessores, os árabes acrescentaram ali traços deDetalhe de portas com arcos e padrões geométricos - Foto de Waldo Miguez em Pixabay - BLOG LUGARES DE MEMÓRIA sua própria cultura como uma elaborada arte geométrica presente especialmente em combogós e nos mosaicos que ornamentam as fachadas, na decoração das portas e janelas.

São inúmeros os detalhes arquitetônicos e também as alterações feitas nas diversas reformas e ampliações. Apresenta-los aqui poderia nos conduzir a pelos menos dois problemas: cometer imprecisões e ainda tornar o texto cansativo. Mas é interessante destacar, pelo menos, uma característica incomum até hoje e que parece ter sido uma novidade para a época: as duplas arcadas, com um primeiro nível sustentado pelas colunas e um segundo nível sustentado por pilastras retangulares – o que elevou o pé direito do edifício a mais de oito metros.

Arcos e colunas da Mesquita de Córdoba - Foto do site oficial do monumento - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAUma fusão considerada única no mundo

A construção de uma catedral dentro de um lugar de culto muçulmano trouxe ainda mais elementos para um edifício já marcado pela mescla, e também muita polêmica pois até entre os cristãos havia quem discordasse da descaracterização da mesquita. Conta-se, inclusive, que ao visitar a obra que ele mesmo havia autorizado, o imperador Carlos V teria feito um mea culpa com a seguinte afirmação: “Se eu soubesse que era isto, não teria permitido porque fazem o que há em muitas partes e desfizeram o que era único no mundo”1.

Há quem argumente, porém, que a implantação da catedral no coração da construção islâmica nos trouxe dois ganhos: o primeiro teria sido a preservação da mesquita, pois com a expulsão dos muçulmanos o prédio ficou semDetalhes decorativos da catedral de Córdoba - Foto do site oficial do monumento- BLOG LUGARES DE MEMÓRIA utilidade e a tendência é que não fosse preservado. A segunda seria a sua transformação em um símbolo da fusão das duas culturas – fusão essa que caracteriza uma terceira cultura: a de Al-Andalus.

Além da mescla em si, o enriquecimento se deveria, segundo seus defensores, ao acréscimo de elementos arquitetônicos de pelo menos mais três estilos: gótico, renascentista e barroco, e de obras de arte como as cadeiras do coro, esculpidas por Pedro Duque Cornejo; ou a Santa Ceia, pintada pelo renascentista Pablo de Céspedes, entre dezenas de outras.

A Mesquita-catedral hoje

Se na Idade média, a Mesquita de Córdoba foi o principal local sagrado dos muçulmanos no Ocidente, hoje a Mesquita-Catedral é um dos pontos turísticos mais visitados da Espanha por pessoas de todos os credos e até aMural da Santa Ceia - Foto do site oficial do monumento - BLOG LUGARES DE MEMÓRIAteus.

Levantamento feito pela Universidad Loyola Andalucía indica que a mesquita-catedral é um dos patrimônios mais procurados em toda a Espanha e atrai quase a metade das visitas feitas a monumentos na província de Córdoba. Para se ter ideia do que isso significa, em 2017 a mesquita-catedral recebeu 1,9 milhões de visitantes.

É preciso lembrar ainda que, em Córdoba, quase tudo é Patrimônio Mundial da Humanidade declarado pela Unesco: a própria mesquita, o centro histórico, o Festival dos Pátios e o sitio arqueológico Medina Azahara. 2

Notas

  • 1 Tradução livre do Espanhol: "Si yo hubiera sabido lo que era esto, no hubiera permitido que llegase a lo antiguo: porque hacéis lo que hay en muchas partes, y habeis desecho lo que era único en el mundo"
  • 2 Leia, aqui no blog, matéria sobre outros lugares ou monumentos da Andaluzia: Alhambra / Ronda / Arcos de La Frontera / Guadix / Algodonales / Cádiz

Mesquita de Córdoba – Córdoba – Andaluzia – Espanha

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Val Cantanhede
4 anos atrás

Que maravilha, Sylvinha! Se um dia retornar à Espanha, com certeza irei conhecer essa catedral mesquita.
Abraços
Val Cantanhede

R Leandro
4 anos atrás

Sem palavras para falar desse trabalho, Sylvinha é um ser especial.

Carlos Kahë
3 anos atrás

Estive aí, em agosto de 2018, debaixo de um sol poderoso de 42 graus. Vocês conhecem o verão europeu? Nunca mais.

Carlos Kahë
3 anos atrás

Amei também, nas cercanias do Templo, as ruazinhas estreitas,sombreadas devido às construções tão próximas … asfloreiras nas janelas … maravilha.

Sonia Maria Pedrosa Silva Cury
2 anos atrás

Não tem nada parecido com essa mesquita-catedral. Realmente, é um espetáculo e uma experiência única, visitá-la. Parabéns, pelo texto, Sylvinha!

Diego
2 anos atrás

Que incríveis esses detalhes da mesquita de Cordoba. Eu adoro conhecer lugares religiosos quando estou viajando e com certeza colaria essa mesquita no roteiro.

normeide carvalho
normeide carvalho
2 anos atrás

Que incrível que é a Mesquita de Córdoba. Eu ainda não tive oportunidade de conhecer essa maravilhosa cidade. Agora tenho mais motivos para querer visitar.

Cynara Vianna
1 ano atrás

A Mesquita de Córdoba foi um dos lugares que mais me impressionaram até hoje. Fiquei horas lá dentro tentando imaginar tudo o que se passou para termos um espaço como aquele. É uma junção de arte, história, credos, ideologias… um lugar que todo mundo deveria ter a oportunidade de conhecer um dia.

Marcella
Marcella
4 meses atrás

Quando estive em Córdoba um dos lugares que mais me impressionou foi essa mesquita. Na época não fazia ideia da história dela, agora estou feliz de ter encontrado seu blog 😉 obrigada por compartilhar