Itacambira: entre as múmias e a Literatura roseana

Tempo de Leitura: 8 minutos

Atualizado em 09/05/2026 por Sylvia Leite

Igreja_Matriz_Itacambira-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAItacambira já foi notícia em vários jornais e emissoras de TV, quando a mídia descobriu que embaixo da Igreja Matriz de Santo Antônio havia corpos mumificados. Os adeptos do ecoturismo sabem que na zona rural do município há sete cachoeiras e que lá se encontram também pinturas rupestres, além de acidentes geográficos que retemtem a lendas. O que pouco se conta é que o município tem presença marcante no romance Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Foi lá que o personagem narrador Riobaldo encontrou o registro de batismo de Diadorim, o jagunço que despertou nele um amor platônico e que, ao morrer, no final da narrativa, revelou-se uma mulher.

Segundo Riobaldo, “Lá [em Itacambira] ela foi levada à pia. Lá registrada, assim. Em um 11 de setembro da éra de 1800 e tantos…”1 Em seguida, o mesmo Riobaldo profere o verdadeiro nome de Diadorim, acompanhado de palavras que soam como se fossem um epitáfio: “De Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins — que nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor…’2

Embora de forma discreta e imperceptível para muitos visitantes, os dois fragmentos citados acima estão lá, gravados no meio da praça, em frente à igreja matriz, em uma placa do Museu Casa Guimarães Rosa. A entidade mapeou e definiu 95 marcos territoriais que identificam cidades e outras localidades citadas pelo escritor mineiro ao longo de sua obra – quarenta deles estão em Cordisburgo e os restantes espalhados pelo sertão de Minas Gerais3.

A serra que atraiu os bandeirantes

Serra_Resplandescente_Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAAs referências literárias não são as únicas capazes de estimular a imaginação do visitante. Ao percorrermos a zona rural, por exemplo, chegamos ao Poço Encantado, chamado assim por ser o centro de uma narrativa que até hoje habita o imaginário dos moradores da região. Segundo o guia Edvaldo Magalhães Filho, nascido e criado em Itacambira, o poço tem esse nome porque havia ali um caboclo que morava dentro do poço: “diz que esse caboco ficava em cima da pedra, quetando, e quando vinha gente ele pulava dentro do poço e desaparecia”.

O Poço Encantado desagua onde antes havia a enorme Lagoa Vapabuçu. Contam os mais antigos que, cerca de 300 atrás, um dilúvio arrastou as pedras que seguravam a lagoa e sua água se espalhou. Foi nessa lagoa, de acordo com Edvaldo, que Fernão Dias Paes Leme e outros bandeirantes tentaram encontrar pedras preciosas, atraídos, segundo a lenda, pelo brilho da Serra Resplandescente, uma das seções da Cordilheira do Espinhaço. Mas para tristeza daqueles paulistas, a cintilância que os seduziu não é motivada por esmeraldas, mas por uma rocha de magnésio denominada quartzito, que faz as encostas da serra, quando molhadas, parecerem espelhos. Quem viaja hoje pela região nem sempre consegue contemplar esse espetáculo, que precisa da chuva para se revelar. E, segundo o mesmo guia, chover não é algo desejável para quem se aventura por esses lados porque pode tornar o passeio perigoso.

A professora aposentada e artista plástica Maria da Consolação Leão Ferreira, conhecida como Dona Nana, tem mais uma versão para a chegada dos bandeirantes.Ela Pinturas_Lapa_do_Bugre_Itacambita-Foto_Sylvia_Leiteconta que além do brilho da serra, eles teriam sido atraídos pela lenda da Mãe D’água, uma sereia de cabelos verdes que morava no fundo da Lagoa Vapabuçu e era guardiã das pedras verdes que havia no fundo da lagoa: “só que eles não encontraram as tais esmeraldas, e sim turmalinas sem valor”.

Mesmo não tendo encontrado o que buscava, Fernão Dias Paes Leme é apontado por alguns historiadores – entre os quais Diogo de Vasconcelos – como o fundador do Arraial de Itacambira. A informação é de Ruth Villamarim Soares e Tarcísio de Guadalupe Sá Ferreira Gomes, em artigo publicado no Guia de Monumentos Tombados de Minas Gerais (IEPHA-MG), mas o texto afirma também a existência de um documento no qual o escrivão Lourenço Carlos Mascarenhas de Araújo registra a descoberta das “Mias de Serro do Frio, hoje Itacambira”, pelo guarda mor Antônio Soares Ferreira.

O passeio pela zona rural de Itacambira inclui, ainda, a Lapa do Bugre, onde estão concentradas dezenas de pinturas rupestres, datadas entre 7 mil e 11 mil anos. Os desenhos parecem representar principalmente animais da região, especialmente o veado campeiro, o tatu e os peixes, mas há também traçados geométricos que sugerem calendários ou anotações de contabilidade. Segundo registros históricos, a tinta usada nesse tipo de pintura pré-histórica era preparada com pigmentos naturais como pó de minérios ou carvão, misturados a aglutinantes como gordura animal, óleo vegetal, clara de ovo e até mesmo fluidos humanos como saliva ou sangue.

As famosas múmias de Itacambira

Ossos_mumias_Itacambira-Foto_Sylva_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAAs lendas e paisagens rurais são apenas o começo da jornada. A Igreja Matriz de Santo Antônio nos reserva surpresas ainda maiores. A começar pelas famosas “múmias”, que continuam lá disponíveis para quem tem coragem de espiar. Mas embora sejam tratadas como múmias – pelo fato de terem se conservado por centenas de anos – o que resta hoje no porão da igreja são, na verdade, apenas ossos amontoados.

Os corpos que ainda se mantinham preservados, inclusive com pedaços de roupa – um casal e uma criança -, foram levados pelos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz e, segundo o ex-secretário da Cultura de Itacambira, Antônio Neto da Silva, que nos guiou durante a visita, ficarão por lá até que a Igreja adquira condições físicas adequadas à sua guarda e preservação.

As múmias foram descobertas na década de 1950, quando uma fenda aberta no piso da Igreja deixou à mostra o que havia no porão atrás do altar. Diferente das conhecidas múmias egípcias, que eram preservadas artificialmente por razões religiosas, as de Itacambira não tiveram qualquer preparo e foram conservadas de forma natural provavelmente em decorrência do clima extremamente seco da região.

Na cidade, ninguém sabe informar qual a origem de tantos corpos, mas, segundo Antônio Silva, existem algumas suposições. A primeira é de que os corpos tivessem sido enterrados na própria igreja, mas a tese não se sustenta, considerando-se que essa honra era concedida apenas a líderes religiosos e famílias poderosas. Outra hipótese é a de que tivessem sido enterrados cranios_mumias_Itacambira-Foto_Sylva_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIA originalmente em um cemitério localizado em frente à igreja e depois removidos para lá. A dúvida aumentou durante as obras de restauração do prédio, em 2011, quando foi preciso escavar para fazer a troca de esteios e, embaixo deles, a 1 metro e 80 cm de profundidade, foram encontrados outros ossos.

Há quem diga que os corpos eram de operários que trabalharam na construção da igreja e foram mortos por alguma das febres que, na época, assolaram a região. Mas isso não explica os corpos de crianças. Resta, então, segundo Antônio Silva, a hipótese mais aceita por historiadores e outros estudiosos. A de que  as pessoas enterradas ali foram vítimas de um conflito sangrento entre garimpeiros e moradores da região, que Silva identifica como Guerra dos Papudos.

Embora as múmias não tenham sido explicitamente citadas pelo personagem Riobaldo, há, no “Grande Sertão: Veredas”, uma fala sua que talvez possamos entender como uma forma de registro da descoberta dos corpos, ocorrida na época em que o livro estava sendo escrito: “Só um letreiro achei. Este papel, que eu trouxe – batistério. Da matriz de Itacambira, onde tem tantos mortos enterrados”.

A revolucionária Igreja Matriz

Altar_Matriz_Santo_Antonio_Itacambira-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIASaber de tudo isso, dá um sabor especial à visita, mas nada causa maior surpresa do que as formas e as cores usadas na decoração da Igreja Matriz, a mesma que guarda as ossadas. A construção impacta e surpreende não apenas pela beleza, mas, principalmente, pela raridade das formas que embora não se diga oficialmente, parecem ter uma forte influência oriental, especialmente nas estruturas de madeira.

Ruth Villamarim e Tarcísio Gomes ressaltam o fato de a igreja ter apenas uma grande nave, o que faz os fiéis dirigirem o olhar “diretamente para o altar mor”. Este, por sua vez, possui três dimensões, que, como observam os pesquisadores, avança sobre a igreja “com o intuito deliberado de envolver o fiel espacialmente”.

Essa relação orgânica entre a forma arquitetônica e o propósito de conduzir as pessoas a um estado de  de oração nos lembra as plantas das catedrais medievais que eram planejadas com esse fim, tomando por base os princípios da Geometria Sagrada. Pode ser encontrada também em Alhambra, na Espanha, onde, mesmo em construções profanas, há uma clara intenção de envolver os sentidos, com o fim de proporcionar bem estar físico e levar a estados meditativos. No caso da Matriz de Santo Antônio de Itacambira, talvez seus construtores quisessem estimular a transcendência por meio da magia dos ambientes teatrais, pois como afirmam  Ruth e Tarcísio “a imagem remete a um palco, um cenário profano”.

Pia_batismal_Itacambira-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA igreja começou a ser construída por volta de 1684 e foi inaugurada em 1707, mas, como ocorreu com várias outras igrejas brasileiras, nunca foi concluída. Nesse caso, no entanto, ficaram faltando apenas detalhes. A estrutura do prédio é toda de madeira, com peças unidas por encaixe, e algumas paredes ainda mantêm a composição original de pau a pique.

Parte das peças de madeira foi substítuída durante a reforma de 1011, especialmente alguns esteios que tinham sido atacadas por cupim, mas segundo Antônio Silva, muitas delas são originais: “na reforma, nós fizemos a instalação de telhado e deve ter trocado no máximo 100 metros de ripas”.

Quando o prédio foi erguido, Itacambira pertencia à Bahia. O pequeno arraial nunca foi o centro econômico da região, mas, por ter a igreja mais antiga, tornou-se seu centro religioso e agregava, nesse aspecto, municípios mais desenvolvidos como Montes Claros e Grão Mogol. Em 1808, a igreja passou à condição de Paróquia.

Quem visita a Matriz de Santo Antônio não pode deixar de conhecer sua pia batismal de madeira pois, saindo do plano do real e mergulhando no da ficção, podemos assim pensar: se foi aqui nesta igreja que Riobaldo encontrou o registro de batismo de Dadorim, esta é a pia em que Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins foi batizada.4 5

Notas

Itacambira – Minas Gerais – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • Sylvia Leite

Referências

  • Guia dos Bens Tombados em Minas Gerais Volume 2, Iepha MG, pág.97
  • Livro Ensaios Históricos de Itacambira, de Dário Teixeira Cotrim, Editra Millenium Cotrim Ltda., 2014

Colaboração

  • Jane Alves
  • Neli Defensor
  • Marcos Viana
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