Castelo Armorial: um museu que celebra a arte de Ariano Suassuna

Tempo de Leitura: 4 minutos

Atualizado em 01/05/2024 por Sylvia Leite

Terraço do Castelo Armorial - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAQuem vai a São José do Belmonte, no sertão de Pernambuco, em busca de referências à obra de Ariano Suassuna, pode ter uma grata surpresa. Além da Pedra do Reino1 – cenário do episódio sangrento que inspirou o famoso romance do escritor – o pequeno município de aproximadamente 34 mil habitantes abriga também uma curiosa construção com mais de 15 metros de altura, quatro pisos e centenas de obras de arte: o Castelo Armorial.

Mais que um castelo, a imponente construção – planejada e erguida ao longo de quinze anos  – é um museu que materializa, em formas arquitetônicas e escultóricas, a obra de Suassuna.

Por toda parte, encontram-se representações de seus personagens e de figuras da mitologia sertaneja. Logo na entrada, localizado entre duas torres, está a imagem de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, protagonista do Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta.

Outros personagens vão surgindo ao longo das salas e varandas que ocupam os quatro pisos da construção de Escultura do personagem Quaderna - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARE DE MEMORIA1.500 metros quadrados. As duas torres da parte posterior do castelo, assim como vários elementos de sua decoração, fazem alusão à luta entre cristãos e mouros, que são caracterizados nas Cavalhadas – e em outras celebrações populares herdadas da Península Ibérica – pelas cores azul e encarnado.

O Castelo Armorial

O nome do castelo remete a um movimento liderado por Ariano na década de 1970, que propõe a realização de uma autêntica arte erudita brasileira, a partir de nossas raízes populares.

O Movimento Armorial, como foi batizado pelo próprio Ariano, teve como marco inicial o lançamento do Romance da Pedra do Reino, mas sua proposta estética está presente, de uma forma ou de outra,  em toda a obra do escritor, inclusive nas anteriores ao seu surgimento.

No Castelo Armorial não é diferente. As referências à sofisticada literatura de Ariano, por exemplo, são feitas, em grande parte, por meio de esculturas modeladas por artesãos do município pernambucano de Tracunhaém – o maior produtor de panelas de barro do Nordeste.

O Castelo Armorial também exibe Iluminogravuras de Ariano, concebidas com base nas iluminuras medievais europeias, que eram comumente decoradas com ouro ou prata, e nas rústicas xilogravuras que ilustram as capas dos folhetos de cordel. Isso sem falar na decoração de paredes, janelas, colunas e escadas, que mesclam elementos de estilo barroco com formas de inspiração moura e figuras da cultura e do imaginário nordestinos.

A ideia e a iniciativa da obra vieram do empresário e pesquisador Clécio Novaes. Em uma conversa informal, Ariano teria lhe revelado que já havia visto obras armoriais em todas as modalidades de arte, menos na Arquitetura. O empresário, por sua vez, sempre foi apaixonado por castelos. Estava dado o “mote” para o projeto.

Portão de acesso ao terraço do castelo Armorial - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAO  Castelo Armorial foi idealizado por Clecio com sugestões e orientações de Ariano, que acompanhou todo o seu planejamento e grande parte da construção. Infelizmente, não chegou a vê-lo pronto porque foi levado pela “Onça Caetana”2três anos antes de sua conclusão.

Literatura e tradição

A Literatura de Cordel – uma das fontes de inspiração de Ariano Suassuna – está representada  por xilogravuras de J. Borges – cordelista pernambucano da década de 1930, que foi celebrizado por folhetos irreverentes como “A chegada da prostituta no céu” e por ilustrar capas de escritores famosos como o uruguaio Eduardo Galeano.

O castelo conta ainda com uma biblioteca composta por livros que pertenceram a Ariano, salas de aula, auditório e sala de exposições. O acervo permanente reúne fotografias e registros variados de Ariano Suassuna, doImagem da Mulher Vestida de Sol - Fotode Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIA Movimento Armorial e da história de São José do Belmonte.

O último andar é ocupado por módulos de uma cidade cenográfica que retrata ambientes do sertão com bonecos de cera em tamanho natural: do bar à casa  de farinha, do curral ao cabaré.

Mas é do lado de fora desse último andar, quando imaginamos que não há mais nada a ser explorado, que mergulhamos de cabeça no reino encantado de Ariano, com direito a chegar bem perto de criaturas fantásticas como a “Mulher Vestida de Sol”. Para entender o que estou dizendo é preciso ir até lá.34

Notas

Castelo Armorial – São José do Belmonte – Serra do Catolé – Cariri – Pernambuco – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • Sylvia Leite

Participação especial

  • Jane Alves, professora aposentada da UFMG
  • Manoel Prado (Pradinho), sociólogo e auditor do trabalho
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16 Comentários
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Bia
Bia
11 meses atrás

Muito bacana, Silvinha! Essa foto da escada com o corrimão de mulheres carregando um tronco de árvore é demais! Como você diz no final, só indo lá para entender. Aguardo ansiosamente a continuação das impressões da viagem. Bjs

Xenia Pessoa
Xenia Pessoa
11 meses atrás

Adorei a tua descrição, Sylvia Leite, quero conhecer! Obrigada

sidneyjs
sidneyjs
11 meses atrás

Ariano . Ad Aeternum. Parabéns.

Elisa
Elisa
11 meses atrás

Adoro Ariano e tudo que o representa. Está na lista de desejos conhecer o castelo!!! Amei

Lilian Wanderley
Lilian Wanderley
11 meses atrás

Muito linda essa materia!
Que apreço desses pernambucanos com sua cultura e seus líderes! Lembrei-me do Festival de São Cristovao de 1974, ano em que veio Ariano, líder do Movimento Armorial, com o Grupo Quinteto Armorial, misto de música medieval portuguesa e regional nordestina, lindo!Esse grupo gravou até o final doa anos 80 e ganhou premios internacionais, músicos exímios! Parabéns a esse municipio sertanejo de Belmonte, um dia irei por lá! E parabéns a Lugares de Memória pelas suas pautas sempre top!

Sonia Pedrosa
11 meses atrás

Que espetáculo! Ariano era muito especial e está eternizado pela sua obra, diferente de tudo o que a gente já viu no mundo. Pra perceber tudo isso, tem que ir lá, mesmo.

Ana
Ana
11 meses atrás

Nunca tinha ouvido falar do Castelo Armorial, bem curioso e parece ser um passeio bem interessante Gostei do seu relato.

Cintia C.
Cintia C.
11 meses atrás

Adorei conhecer o Castelo Armorial: um museu que celebra a arte de Ariano Suassuna através do seu post. Adorei também as esculturas de barro e o que representam.