Cabaceiras: a Roliúde Nordestina

Tempo de Leitura: 5 minutos

Atualizado em 01/05/2024 por Sylvia Leite

Confesso que quando vi o letreiro “Roliúde Nordestina” na entrada de Cabaceiras, no Cariri da Paraíba, fiquei incomodada com a referência, mesmo sabendo que se tratava de uma ‘tirada de humor’, como se diz em alguns lugares do Nordeste. Provavelmente isso foi intensificado pelo próprio contexto – uma paisagem repleta de bodes,Letreiro da Roliúde Nordestina - Foto do site da Prefeitura de Cabaceiras - BLOG LUGARES DE MEMORIA xiques-xiques e mandacarus sob um sol de pelo menos 30 graus.

Deixando de lado o incômodo – expressado também por alguns diretores de cinema – e a brincadeira em torno dos nomes, é possível encontrar realmente algumas coincidências entre Cabaceiras e Hollywood: ambas estão em lugares onde chove pouco e têm grande luminosidade – fatores que favorecem as filmagens e gravações.

Mas a semelhança acaba aí. Enquanto o pólo estadunidense abriga estúdios e muito dinheiro, Cabaceiras conta apenas com suas ruas, um casario colorido que a prefeitura ajuda a preservar e paisagens naturais.

Isso, no entanto, não significa desvantagem: primeiro porque entre as paisagens encontra-se o estonteante Lajedo de Pai Mateus, do qual já falei aqui no blog e vou falar mais um pouco ao final do texto – e depois porque a população da cidade, de pouco mais de cinco mil habitantes, dá vida às produções participando ativamente das filmagens e gravações seja como figurantes, seja como fornecedores de toda espécie. E além de participar, se orgulham de morar em um lugar que já foi cenário de dezenas de filmes.

Os filmes de Cabaceiras

Casario colorido de Cabaceiras - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAA primeira produção – “Ferração dos Bodes”, de Antônio Barrancas1 –  foi rodada em 1921, portanto oitenta e seis anos antes da instalação do polêmico letreiro.

Mas a cidade ganhou fama mesmo foi depois do lançamento do filme O Auto da Compadecida, de Guel Arraes, baseado na peça teatral de mesmo nome, escrita por Ariano Suassuna em 1955. O elenco teve Fernanda Montenegro no papel da Compadecida, além de Lima Duarte, Marco Nanini, Matheus Nachtergaele e Selton Melo, entre outros.

A memória do “Auto da Compadecida” está espalhada pelas ruas da cidade em murais que reproduzem cenas do filme. Além disso, muitos pontos que serviram de cenário continuam em pé e fazem os visitantes lembrarem de algumas das principais cenas. Caso da fachada posterior da Igreja, diante da qual o cangaceiro “Cabra” mata o padre, o bispo e o padeiro com a esposa Dora. Ainda existem também, a cadeia, o bar e a fachada frontal da igreja, que mudou de cor, mas continua com a mesma forma.

Fachada posterior da igreja de Cabaceiras - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAEmbora seja a produção mais conhecida, “O Auto da Compadecida” não é o único filme que pode ser relembrado em Cabaceiras. Todos os outros estão registrados no Memorial Cinematográfico, que fica bem pertinho da igreja e guarda roteiros, cópias de algumas produções, objetos de cena e outros materiais, além de apresentar uma linha do tempo com informações sobre todos os filmes rodados total ou parcialmente no município.

Um deles é “Romance”, do próprio Guel Arraes – uma história de amor entre atores que interpretam os personagens princiais da peça Tristão e Isolda. O filme foi produzido por Paula Lavigne e estrelado por Wagner Moura e Letícia Sabatela. Também merece destaque o festejado “Cinemas, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, sobre uma dupla que viajava pelo brasil vendendo comprimidos e exibindo filmes.

Não podemos deixar de citar, ainda, “Madame Satã”, de Karim Aïnouz, sobre a vida do transformista José Francisco dos Santos, além de dois filmes de Júlio Bressane: “São Jerônimo”, que recria a trajetória do erudito católico no século 4, e “Garoto” – uma adaptação do conto “O assassino desinteressado de Bill Harrigan”, do livro “História Universal da Infâmia”, de Jorge Luis Borges.

O Lajedo de Pai Mateus

Pedra do Capacete - Foto de Sylvia Leite - BLOG LUGARES DE MEMORIAUm dos cenários mais utilizados pelas produções cinematográficas são as gigantescas formações do Lajedo de Pai Mateus. Lapidadas pelo tempo ao longo de milênios, as pedras são resultado da erosão e de fissuras provocadas por variações de temperatura. Algumas delas assemelham-se a grutas e podem ter servido de moradia em algum momento da história.

O nome Lajedo de Pai Mateus vem de uma lenda segundo a qual um certo curandeiro teria vivido no local abrigando-se em uma dessas grutas, hoje identificada por abrigar uma espécie de banco que teria sido feito pelo eremita. Mas essa é apenas uma das cerca de cem pedras espalhadas no local, cada uma com sua forma própria, numa multiplicidade capaz de satisfazer diferentes tipos de produção.

O reino dos bodes

Detalhe do cartaz da Festa do Bode Rei - Site da Prefeitura de Cabaceiras - BLOG LUGARES DE MEMORIASe no cinema as temáticas variam, na realidade local o assunto é um só: a caprinocultura. Não é à toa que o documentário “Ferração dos Bodes” foi o primeiro filme rodado em Cabaceiras. Bode é o prato principal do município e é também a base de sua economia, agora incrementada pelo cinema.

A importância da criação de caprinos é tão grande para os cabaceirenses que a cidade tem uma praça dedicada ao bode com estátua e tudo.

Mais que isso: o principal evento da cidade é a Festa do Bode Rei que acontece anualmente na primeira semana de junho. Na programação, além das homenagens ao bode, que se torna rei e recebe do prefeito a chave da cidade, há competições, a Expofeira de animais, a Feira de Artesanato em Couro de Bode, e a Feira Gastronômica que, naturalmente, tem um cardápio à base de bode.2

Notas

  • 1 Há quem considere que o primeiro filme rodado em Cabaceiras foi Sob o Céu Nordestino, de Walfredo Rodrigues, mas o filme é de 1929, portanto oito anos após o lançamento do documentário Ferração dos Bodes
  • 2 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lugares especiais da Paraíba: Lajedo de Pai Mateus / Pedra do Ingá / Ilumiara Jaúna

Cabaceiras – Planalto de Borborema – Cariris Velhos – Paraíba – Brasil- América do Sul

Texto

Fotos

  • (1, 5) Site da Prefeitura de Cabaceiras
  • ( 2,3,4) Sylvia Leite

Referências

  • Site da Prefeitura de Cabaceiras

Para realizar esta matéria, o blog Lugares de Memória contou com

  • Apoio de Gustavo Moura
  • O apoio institucional da Universidade Federal da Paraíba - UFPB/ PRAC/COEX

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12 Comentários
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Manuel Silva
Manuel Silva
1 ano atrás

Obrigado Sylvia pelo excelente artigo sobre uma localidade brasileira que eu, com 80 anos nascidos e vividos em Moçambique e como admirador desse belo país, não conhecia !!
Gratidão e beijinhos.
Manuel Silva.
Maputo.Moçambique.

Hilda Liberman
Hilda Liberman
1 ano atrás

Maravilha de texto! Sempre bom Sylvia Leite!

Valdeci da Silva Meneses Cantanhede
Valdeci da Silva Meneses Cantanhede
1 ano atrás

Sylvinha, como sempre, é muito gratificante conhecer esses lugares especiais e a riqueza cultural deles por meio de seus textos.
A nossa roliúde nordestina é encantadora.
Bjs

Sonia Pedrosa
1 ano atrás

Esse nosso Brasil é cheio de surpresas! E boas surpresas. Que bom que você compartilha isso com a gente, Sylvinha!

Marcella
Marcella
1 ano atrás

O Nordeste é um mundo mágico né? Amo demais. Ainda não tive a oportunidade de conhecer Cabaceiras, mas Lajedo de Pai Mateus está nos meus planos pra esse ano ainda. Obrigada pelo texto!

fredcartunista@gmail.com
8 meses atrás

Sylvia, parabéns pelo seu texto. Sinto-me honrado em saber que uma “ideia de maluco”, apresentando como um projeto ousado (creio que em 1997), se consolidou como resultado que transformou a autoestima de um povo e que impulsionou positivamente a pequenina e irriquieta Cabaceiras numa referência positiva de criatividade mundo afora. Empreendedorismo e trabalho, aliado a história, cultura arte são parâmetros reais de um todo. Conheço de perto toda essa evolução e me coloco à sua disposição para mostrar, passo a passo, cada milímetro dessa imensa construção cultural e artística.
Grande abraço! ( [email protected] / @humorcomrumor )