As pontes de Veneza: história e poesia sobre as águas

Tempo de Leitura: 9 minutos

Atualizado em 05/06/2024 por Sylvia Leite

Ponte_Rialto_Foto_de_Livioandronico2013_em_Wikimedia_ BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAPassear de gôndola pelos canais de Veneza, ou usufruir da beleza de seus prédios históricos, já é experiência suficiente para deixar marcas inesquecíveis na memoria de qualquer visitante. Mas, para a viagem ficar completa, é preciso andar pelas ruas e admirar de perto pelo menos algumas das mais de 400 pontes que ligam suas 118 ilhas: as famosas Pontes de Veneza. Distintas em tamanho, forma e material, elas conseguem ter algo em comum: todas, principalmente aquelas que se tornaram mundialmente conhecidas, nos fazem mergulhar em um momento histórico ou em uma tradição lendária.

Algumas dessas construções destacam-se pela idade. A Ponte de Rialto (Ponte di Rialto), por exemplo, é a mais antiga. Sua versão atual foi inaugurada em 1591, depois de uma obra que durou quatro anos, mas o local já abrigava pontes pontes de madeira desde o século 12. Inicialmente, havia uma estrutura flutuante, que foi depois substituída por outra fixa com uma secção móvel ao centro. A primeira era conhecida como Ponte della Moneta e a segunda já tinha a denominação que tem hoje. Além de mais antiga, é a mais movimentada devido a sua localização no centro comercial da cidade, ligando os bairros de San Polo e San Marco – centro político e religioso. Segundo dados atribuídos às autoridades locais, a cada 10 horas passam sob essa ponte 1600 barcas, 700 táxis aquáticos e 200 gôndolas. Há grande movimento também de pedestres, pois além de passagem, a ponte é um centro comercial com muitas lojinhas.

Além de mais antiga, a Ponte de Rialto – chamada assim por estar localizada na região de mesmo nome – é também uma das mais registradas por artistas e publicitários. No cinema, por exemplo, foi exibida em filmes como “Casino Royale”, da série James Bond; “O Turista”, estrelado por Angelina Jolie; e “Homem-Aranha: Longe de Casa”, dirigido por Jon Watts, e “O Mercador de Veneza”, Ponte_dos_Suspiros_foto_de_Didier_Descouens_em_Wikimedia_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAprotagonizado por Al Pacino. Nas artes plásticas, inspirou artistas como Canaletto que, por volta de 1725, pintou a tela “O grande canal perto da Ponte de Rialto”.

Menos antiga mas igualmente famosa é a Ponte dos Suspiros (Ponte dei Souspiri) , que em comum com a de Rialto, tem a cor e o fato de ter sido erguida pela mesma família. Seu arquiteto, Antonio Contin, era neto (ou sobrinho?) de Antonio da Ponte – que projetou a de Rialto. Além disso, foi também imortalizada por filmes, fotos, e reproduzida em duas cidades inglesas: Oxford e Cambridge. As pontes inglesas não são cópias fiéis da italiana, mas mantém semelhanças estruturais como o fato de ligar duas construções. A original de Veneza une o Palácio Ducal à Nova Prisão (Prigione Nuove) – provavelmente o primeiro edifício do mundo construído para abrigar presos. Por essa ponte, os réus condenados no Palácio Ducal – onde funcionavam todos os escritórios oficiais, inclusive o Fórum – eram conduzidos a suas celas.

Vem daí a primeira de três versões sobre o nome da ponte, sugerindo que os presos, ao atravessá-la em direção ao presídio, olhavam através dos cobogós da ponte e suspiravam admirando a cidade pela última vez antes de serem presos ou executados. Talvez para dar mais leveza à história da ponte, há quem diga que os suspiros seriam dos visitantes encantados com sua beleza. E existe ainda a narrativa romântica segundo a qual os casais que passarem embaixo da ponte dentro de uma gôndola, ao por do sol e ao som dos sinos da Igreja de San Marco, terão amor eterno. Essa lenda inspirou o premiado filme “A Little Romance”, com Laurence Olivier e Diane Lane – o primeiro de sua carreira – lançado em 1979.Ponte_do_Diabo_Foto_de_Di_ Godromi_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAl

Lendas e fatos históricos nas Pontes de Veneza

Mas no quesito lenda, a ponte mais expressiva talvez seja a do Diabo (del Diavolo), localizada na ilha de Torcello. Embora algumas fontes afirmem que Diavolo era o sobrenome de uma família local, a explicação mais aceita para o nome da ponte é uma história de amor que teria ocorrido durante a invasão austríaca. Segundo se conta, uma jovem veneziana havia se apaixonado por um oficial invasor e sua família, a fim de impedir a união, decidiu leva-la para fora da cidade, onde ela recebeu a notícia de que o rapaz havia sido assassinado. A partir desse dia, a jovem não quis mais comer e adoeceu.

Para tentar reanima-la, a família procurou uma bruxa que fez o seguinte trato com o diabo: em troca da cura da jovem, daria as almas de sete crianças cristãs, que morreram ainda pequenas. O encontro foi marcado na ponte, que na época tinha o mesmo nome da ilha: Torcello. O diabo acabou com o mal da menina trazendo o oficial austríaco ao seu encontro e levou consigo uma moeda de ouro prometendo voltar no dia 24 de dezembro para receber as almas prometidas. Mas um jovem que desejava salva-las matou a bruxa e, desde então, o diabo visita a ponte todos os anos, no dia 24 de dezembro, e o que recebe é um gato preto.

Ponte_de_Chiodo_Foto_de_Ethan_Doyle_White_em_WikimediaA lenda romântica é apenas uma das características da Ponte do Diabo. Sua forma também encanta pela originalidade. Feita em madeira e tijolos aparentes, é composta por largos degraus. Apenas essa ponte e a de Chiodo não possuem parapeito. Há registros de que isso era comum nas antigas pontes de Veneza – inclusive da Ponte de Pugni que veremos adiante – mas com o passar do tempo, quase todas receberam a proteção lateral, restando a característica apenas na del Diavolo e na Chiodo. Essa última, aliás, tem outra característica bastante curiosa: liga uma rua a apenas um prédio, hoje transformado em hotel, por isso é considerada uma ponte particular.

Chiodo é uma palavra italiana que pode ser traduzida como prego e há quem diga que a ponte se chama assim por ser esse o sobrenome da família que, no passado, era proprietária do prédio ao qual ela serve. Embora por essa ponte não se chegue a outras partes, vale a pena atravessá-la, nem que seja para ter a experiência de atravessar o canal sem proteção.

Mas no quesito originalidade, a Ponte dos Três arcos também se sobressai em relação às demais. Como o nome já diz, essa ponte reúne três curvas ao contrário do que ocorre com todas as outras pontes atuais de Veneza que possuem apenas uma arcada. No passado, houve outras com a mesma configuração da Ponte de Três Arcos e uma delas ficou imortalizada na pintura “Milagres da Cruz caída no canal de San Lurenzo”, de Gentile Bellini.

Ponte_dos_tres_arcos_foto_de_Didier_Descouens_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIADevido a sua forma simplificada, ao observa-la de longe, não somos capazes de enxergar grandes atrativos, mas a ponte tem bonitos detalhes e, por preservar sua antiga estrutura – apesar de ter sofrido alterações ao longo do tempo – ainda nos remete, assim como Chiodo e Diavolo, à Veneza antiga e à sua história arquitetônica.

Já a história política da Itália está registrada na Ponte da Liberdade (Ponte della Libertà), inaugurada em 1933, com o nome de Ponte Littorio, por Benito Mussolini e rebatizada ao fim da Segunda Guerra para marcar a libertação do fascismo. Trata-se de uma ponte rodo-ferroviária, com quase 4 km de extensão, que atravessa a Laguna de Veneza, ao fim da Estrada Nacional número 11 e é a única via de acesso à cidade em automóvel a partir do continente. Costuma ser vista por muitos turistas porque termina junto à Estação de Veneza Santa Lucia (Estação de Venezia Santa Lucia) na entrada da cidade.

Os eventos cotidianos também deixaram marcas nas Pontes de Veneza e, como é comum nesses casos, seus relatos oscilam entre a história e a lenda. Uma ocorrência curiosa, porém pouco louvável, deu nome à Ponte das Tetas (Ponte delle Tette). Segundo se conta, entre os séculos 9 e 18, quando Veneza era governada por um sistema republicano denominado Sereníssima, as prostitutas foram estimuladas pelo governo a mostrar os seios nessa ponte e nas janelas ou varandas próximas, a fim de concorrer com os homossexuais e eliminá-los. A noite, elas tinham permissão para iluminar os seios com lanternas.Ponte_dos_Socos_foto_de_Didier_Descouens_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIA

As autoridades teriam aproveitado um pedido de ajuda das prostitutas, que se sentiram ameaçadas com o aumento da homossexualidade, para tentar banir o que eles consideravam um problema social. Acreditava-se que, com esse estímulo, era possível desviar os homens das relações homossexuais, tidas como pecado anti-natura.

Outro tipo de disputa foi travada historicamente entre os clãs rivais Nicolotti e Castellani e acabou nomeando a Ponte dos Socos ou dos Punhos (Ponte dei Pugni) (foto). O motivo das lutas seria a prioridade sobre o uso da ponte, mas além de não conquistar o privilégio, o grupo vencido era atirado no canal, o que se fazia sem qualquer dificuldade pelo fato de, na época, a ponte não ter parapeito.

As lutas foram proibidas em 1705, depois de um episódio sangrento, com utilização de facas e pedras, mas sua memória está guardada tanto na ponte como em obras de arte como a pintura “Competição na Ponte dei Pugni em Vezeza”, de 1673, atribuída ao alemão Joseph  Heintz, o Jovem.

As pontes que cortam o Grande Canal

Ponte_da_Academia_Foto_de_Didier_Descouens_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAQuatro das inúmeras pontes de Veneza ganharam fama, entre outras razões, por ligarem as duas margens do Grande Canal (Canal Grande ou Canelasso). A primeira é a de Rialto, citada no início do texto. A segunda é a da Academia (della Accademia) que recebeu esse nome por estar localizada nas proximidades da Academia de Belas Artes. Sua primeira versão surgiu em 1854, toda em ferro. Anos depois foi organizado um concurso para eleger o arquiteto que a reconstruiria em pedra, mas o projeto não vingou e uma nova estrutura foi erguida em madeira (foto).  Ao longo dos anos, a ponte recebeu reforço metálico para garantir sua estabilidade, mas manteve sua forma original. A reforma concluída em 2018, também não trouxe alterações estruturais. Houve apenas a troca das peças de madeira e a pintura das partes metálicas.

A religião católica, tão tradicional na Itália, teve sua presença marcada na terceira ponte sobre o Grande Canal, a Ponte dos Descalços, batizada assim em alusão à Igreja de Santa Maria de Nazaré, que fica nas proximidades e é conhecida como Igreja dos Descalços. A estrutura de pedra da ìstria é também conhecida como Ponte da Estação ou Ponte da Ferrovia por estar próxima ao terminal Ferroviário de Santa Lúcia. Foi construida em 1858, mas sua aparência atual é resultado da reforma realizada em 1934.

Ponte_da_Constituição_Foto_de_Christoph_Radtke_em_Wikimedia_BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAA quarta ponte sobre o Grande Canal distancia-se de todas as outras tanto na idade como por na forma. Foi denominada oficialmente Ponte da Constituição (Ponte della Costituzionne), por ter sido inaugrada em 2008 – quando os italianos comemoraram os 60 anos de sua Constituição -, mas ficou conhecida como Ponte de Calatrava (Ponte di Calatrava) em referência ao arquiteto que a projetou. Desde o início de sua construção, essa  ponte, embora muito bonita, provocou polêmicas seja por destoar da arquitetura de Veneza, com suas linhas e materiais contemporâneos, shttps://calatrava.com/eja pelo alto custo, que excedeu, em muito, o orçamento inicial de  6,7 milhões de euros. Para completar, os 106 degraus em vidro tornavam-se escorregadios sempre que chovia e acabaram provocando acidentes e processos contra a prefeitura, que decidiu trocá-los por outros de pedra.

Atravessar ou pelos menos avistar todas essas pontes é um roteiro que deve estar em qualquer visita a Veneza. Entre uma e outra, vale passear com calma pelas ruas dessa cidade única, admirar sua arquitetura e atravessar pontes desconhecidas, que embora não tenham fama, guardam também muita poesia.1

Notas

Pontes de Veneza – Veneza – Veneto – Itália – Europa

Texto

Fotos

  • (1) Livioandronico2013 em Wikimedia - CC BY-SA 4.0
  • (2,5,6,7) Didier Descouens em Wikimedia - CC BY-SA 4.0
  • (3) Di Godromil em Wikimedia
  • (4) Ethan Doyle White em Wikimedia - CC BY-SA 4.0
  • (8) Christoph Radtke em Wikimedia - CC BY-SA 3.0

Referências

 

 

https://www.tudosobreveneza.com/historia

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Joaquim Sobral
Joaquim Sobral
12 dias atrás

Estou sempre viajando com você. Delícia de ler.

Margareth
Margareth
11 dias atrás

Que viagem maravilhosa nos proporcionou essa matéria!
Qtas curiosidades históricas, qtas belezas!!!