Atualizado em 14/04/2026 por Lugares de Memória
“A Ponte Marechal Hermes está para Buritizeiro e Pirapora assim como a Torre Eiffel está para Paris”. Essa declaração, do guia de turismo e dono de pousada Romulo Melo, traduz a força simbólica da antiga estrutura de ferro que separa os dois municípios do sertão de Minas Gerais. Essa importância, no entanto, parece ser bem maior para Buritizeiro onde – ao contrário de Pirapora, que concentra inúmeras referências – a ponte reina absoluta como ícone cultural. Isso sem falar no aspecto prático, pois a antiga estrutura de ferro é muito mais usada pelo pessoal de Buritizeiro.
A explicação é simples: como lembra Rômulo, Buritizeiro se desenvolveu e vive até hoje em relação estreita com Pirapora, que concentra grande parte das empresas da região. Em consequência disso, “muita gente depende da ponte para ir e voltar do trabalho”. Buritizeiro e Pirapora estão separadas apenas pelo Rio São Francisco e a ponte, de 694 metros, tem uma localização estratégica por ligar as áreas centrais das duas cidades. “A travessia de moto é feita em cerca de dois a três minutos, enquanto o trajeto de carro pela rodovia pode levar até 20 minutos porque o motorista precisa sair do centro urbano e percorrer de 8 a 10 km, a depender do ponto de partida.
As motos tornaram-se os veículos dominantes na ponte Marechal Hermes desde que a estrutura foi interditada para carros, em 2006, a pedido do Ministério Público, que alegou graves problemas estruturais e riscos de desabamento. O trajeto é percorrido também de bicicleta ou a pé, sempre pelas passarelas laterais antes reservadas apenas
a caminhantes. A fim de evitar acidentes, motos e bicicletas transitam pelo lado esquerdo de quem parte de Buritizeiros e os pedestres ocupam o lado direito.
Embora seja extremamente útil aos moradores de Buritizeiro, a ponte não foi concebida com esse propósito. Sua construção, concluída em 1922 após dez anos de obras e interrupções, fazia parte de um projeto bem maior que pretendia estender a Estrada de Ferro Central do Brasil, com o fim de ligar o Rio de Janeiro – então capital federal – a Belém do Pará, no Norte do país. Devido ao alto custo do projeto e ao surgimento de uma política de transportes que priorizava a abertura de rodovias, os trilhos não foram além de Buritizeiro.
A Ponte Velha, como é carinhosamente chamada na região, foi a primeira a ser construída sobre o Rio São Francisco e, mesmo com a interrupção do projeto, ganhou relevância histórica por guardar a memória de um período importante da história do país. Está tombada, desde 1985, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Mianas Gerais (Iepha-MG). A ponte tem estrutura de ferro trazido da Bélgica, piso de madeira e é sustentada por 13 pilares de concreto.
A última estação
Junto com a ponte, foi construída, em Buritizeiro, a Estação Independência – chamada assim por ter sido inaugurada no ano em que se comemorou o centenário da Independência do Brasil. Era a primeira além do Rio São Francisco e, como o projeto foi interrompido, ficou sendo a última do caminho de ferro que começava no Rio de Janeiro, a mais de 1 mil km dali.
A estação, assim como a ponte, foi de grande importância para o desenvolvimento de Buritizeiro e para sua futura emancipação, mas com o fim do projeto de expansão da Central do Brasil a estação foi perdendo movimento até parar de funcionar na década de 1.970. Atualmente, a antiga estação abriga um centro cultural batizado como Estação Casa da Cultura, que realiza exposições, apresentações culturais e eventos gastronômicos.
A “Escola do Sertão”
Embora Buritizeiro só tenha começado a se desenvolver na década de 1920, com a inauguração da ponte Marechal Hermes, sua construção histórica mais antiga foi erguida em 1905 para abrigar o Tiro de Guerra do Exército brasileiro1. Rômulo Melo lembra que seus tios fizeram essa formação, mas o programa durou pouco “porque o pessoal tinha medo de alistar e ir pra guerra”. O prédio passou então a ser usado por uma escola agrícola que também não deu certo e, por fim, em 1920, foi instalado ali o Hospital Regional Carlos Chagas.
Sobre esse hospital, há poucas informações, mas se conta muitas histórias, ou lendas. Uma delas, segundo Rômulo Melo, diz respeito a uma espécie de eutanásia assistida quando ainda não se ouvia falar sobre isso em nenhum lugar do mundo: “dizem que tinha pacientes terminais, que não tinham cura, e às vezes, eles tomavam um chá, à noite, e não passavam dali”. Segundo a tradição oral, o medicamento ficou conhecido como “chá da meia noite”.
O hospital era famoso, também, segundo Melo, pela atuação do médico Rodolfo Mallard, que saia a cavalo para atender as pessoas da zona rural. Com sua morte, em um acidente de avião, o hospital acabou fechando e o prédio ficou abandonado.
Foi quando o coronel Manoel José de Almeida, da Fundação Caio Martins (Fucam), encontrou o casarão coberto de mato e decidiu instalar ali uma unidade da escola. Era um internato de tempo integral para meninos e meninas da zona rural que não tinham como frequentar aulas nas localidades onde viviam.
Além de estudar, as crianças e adolescentes aprendiam ofícios, faziam esportes e participavam de atividades culturais, como quadrilhas e sessões de cinema. Mas segundo Rômulo Melo, a escola também tinha fama de ser um local especializado em correção de crianças problemáticas: “quando os meninos aprontavam muito em casa, as mães diziam vou te internar no Caio Martins”.
O prédio, de influência Eclética, foi construido com todo o requinte exigido na época – as telhas vieram de Marselha, na França, a escada oval veio da Inglaterra, a madeira usada no telhado é o Pinho de Riga e o piso é de ladrilhos hidráulicos – mas hoje encontra-se em péssimo estado de conservação. Ainda sob administração da Fucam, funciona como Centro Educacional de Buritizeiro, ondem se realizam oficinas de educação complementar, além de atvidades cultuais e esportivas. É conhecido nas redondezas como “Fortaleza do Sertão” ou “Escola do Sertão”.
Sítio arqueológico
Bem próximo ao prédio histórico, encontra-se o Sítio Arqueológico Cemitério Caixa D’água onde foram encontrados esqueletos humanos e material lítico como facas, pontas de setas e bigornas, enterrados entre 6.100 e 5.000 anos Antes de Cristo. Trata-se, segundo pesquisadores que exploraram o local, do único sítio que reúne uma amostra significativa de esqueletos desse período em todo o Brasil.
O cemitério foi descoberto por acaso, quando trabalhadores preparavam o terreno para instalar a rede de esgotos da cidade. Ao fazer escavações, encontraram o que parecia ser um cemitério. Um dos profissionais da equipe, que tinha conhecimentos de Arqueologia, comunicou o fato ao Instituto do Patrimònio Histórico e Attístico Nacional (Iphan), que fez o tombamento da área.
As coletas e análises do material foram feitas pelas universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e Estadual de Montes Claros (Unimonrtes) em parceria com outras instituições do Brasil e do exterior. Segundo os pesquisadores, o estudo do material coletado poderá nos dar informações sobre as práticas funerárias desses grupos e sobre a maneira como utilizavam os recursos naturais.
Buritizeiro e o universo roseano
Somente por sua localização geográfica e pela concentração de veredas, Buritizeiro já nos remete à Literatura de Guimarães Rosa, especialmente ao romance “Grande Sertão: Veredas”. Mas apesar de não ter sido citado nenhuma vez pelo personagem narrador Riobaldo, nem como Buritizeiro1 nem pelo seu nome anterior São Gonçalo das Tabocas, o município tem uma forte relação com a obra.
Em Buritizeiro, viveu, depois de casada, a descendente de árabes Rosa’uarda, que teria inspirado o escritor na construção da personagem de mesmo nome. No livro, Rosa’uarda era uma jovem que iniciou o personagem narrador Riobaldo na vida sexual2. Quem também andou por lá, segundo relato de Romulo Melo, foi Manuelzão, o vaqueiro com quem Rosa viajou por dez dias pelo sertão: “Manuelzão cansou de vir aqui […] Ele era chefe de comitiva […] e engraçado, ele não ficava em casa. Meu avô tinha alojamento pra vaqueiro. Ele não ficava no quarto. Ele acampava embaixo do pé de baru, em frente ao alojamento”.3
Há uma possivel referência a Buritizeiro, também, na novela Campo Geral, do livro Corpo de Baile, mais específicamente à Escola Caio Martins. A relação é difícil de ser estabelecida porque na época em que o livro foi escrito o município ainda não existia e suas terras pertenciam a Pirapora, mas as informações deixam poucas dívidas.
Em uma certa altura do texto, o narrador conta que o menino Patorí, filho de Seu Deogracias, estava fugido por haver assassinado a tiros um rapazinho. A menção à escola é feita pelo pai, ao pedir que o capturassem sem brutalidade: “Seo Deográcias só perguntava, repetidas, se não achavam que o Patorí, sendo sem idade e sem culpa governada, não devia de escapar de cadeia”. Na sequência, misturando a escola de marinheiros com a Caio Martins, o texto prossegue, apontando uma solução menos drástica: “se não chegava ser mandado para a Marinha, em Pirapora, onde davam escola de dureza para meninos apoquentados”.
De resto, Buritizeiro, apesar da destruição que atinge todo o sertão, é um dos municípios mineiros com maior reserva de Buritis – a árvore típica das veredas. Além disso, é em suas terras que está localizado o Paredão de Minas – povoado onde Rosa localizou a batalha final do romance “Grande Sertão: Veredas”. Nesse episódio, Riobaldo vence o inimigo Hermógenes, mas perde seu amor proibido, Diadorim, que, somente depois da morte, revela-se uma mulher. 45
Notas
- 1 Em Pirapora se diz que o Tiro de Guerra era da Marinha. A confusão provavelmente decorre da presença dessa força na cidade em função da navegação no São Francisco
- 2 Encontre outras informações sobre a Rosa'uarda real na matéria sobre Pirapora
- 3 Leia mais sobre Manuelzão na matéria sobre Andrequicé
- 4 Alguns detalhes sobre a última batalha podem ser encontrados na matéria sobre Paredão de Minas, que será publicada em breve
- 5 Leia, aqui no blog, matérias sobre outros lgares relacionados à obra de Guimarães Rosa: Cordisburgo, Curvelo, Lassance, Corinto, Morro da Garça, Andrequicé, Araçaí, Serra das Araras, Morrinhos, Araçuaí
Buritizeiro – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- (1,2,3,4,5) Sylvia Leite
- (6) Capa do livro - divulgação
Colaboração
- Rosa Haruco
- Neli Defensor Sant'Anna Martins
- Marcos Viana
- Edilberto Assumpção de Araújo
- Ivan Carlos Maglio
- Maria Marismene Gonzaga
- Henrique Leroy
- Dora Guimarães
- Julia Viana Malatesta
- Fumiko Araújo
- André Zumzum


Quantas histórias interessantes de Buritizeiro!
Minas, Velho Chico e Rosa são patrimônios inseparáveis.
Amei a matéria, Sylvinha!
Abraços
Sim, Val! Buritizeiro é muito interessante mesmo.Obrigada pela leitura e pelo comentário!
Parabéns Sylvia por render tantas histórias interessantes a partir de uma ponte no sertão de Minas.
Augusta
O mérito é da ponte rsrsr e dos moradores de Buritizeiros que sabem contar suas histórias. O brigada pelo comentário!
Parabéns Sylvia, mais um excelente texto de suas viagens pelo “Rastro do Rosa” que certamente será um belo livro que aguardamos ansiosos.
Buritizeiro será nossa parada no dia 12 de abril de nossa viagem de Brasília para Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, Manga, Montes Claros e Pirapora.
Um grande abraço!