Atualizado em 05/09/2025 por Sylvia Leite
Ao contar como conheceu seu grande amor Diadorim, ainda menino, à margem do Rio de Janeiro1, o personagem narrador do romance “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa – Riobaldo Tatarana – afirma ter ouvido dele que vivia com o tio em um lugar chamado Os-Porcos, “nos gerais de Lassance”.
Ao que tudo indica, ninguém conseguiu localizar precisamente esse ‘lugarin’, mas pelo menos até o momento, os leitores e estudiosos da obra parecem estar satisfeitos com uma determinação provavelmente mais simbólica do que geográfica. O lugar demarcado é a fazenda Santa Rita que, pelo menos em dois dados, coincide plenamente com a descrição de Os Porcos: fica nos Gerais de Lassance e à margem direita do São Francisco.
Seu atual proprietário, Hudson Armando Nunes Canabrava, não possui registros de que a Santa Rita tenha um dia se chamado Os-Porcos, ou que estivesse localizada em um lugarejo com esse nome. Tampouco pode provar que Guimarães Rosa aludia àquelas terras ao indicar a moradia de infância de Diadorim, mas orgulha-se de habitar esse lugar que, de uma forma ou de outra, está sendo imortalizado pela Literatura.
Tanto Os-Porcos como Lassance, são explicitamente citados no “Grande Sertão:Veredas”: inicialmente, quando Riobaldo narra o primeiro encontro: “Então ele foi me dizendo, com voz muito natural, que aquele comprador era o tio dele, e que moravam num lugar chamado Os-Porcos, meio-mundo diverso, onde não tinha nascido… Muito tempo mais tarde foi que eu soube que esse lugarim Os-Porcos existe de se ver, menos longe daqui, nos gerais de Lassance. — “Lá é bom?” — perguntei. — “Demais…” — ele me respondeu; e continuou explicando: — “Meu tio planta de tudo.” 2
A outra citação está no final do livro quando, após a morte de Diadorim, o próprio Riobaldo viaja até lá na esperança de obter mais informações sobre o segredo que a trágica morte acabara de revelar: “Aonde fui, a um lugar, nos gerais de Lassance, Os-Porcos. Assim lá estivemos. A todos eu perguntei, em toda porta bati; triste pouco foi o que me resultaram. O que pensei encontrar: alguma velha, ou um velho, que da história soubessem — dela lembrados quando tinha sido menina — e então a razão rastraz de muitas coisas haviam de poder me expor, muito mundo. Isso não achamos. Rumamos daí então para bem longe…”3
Por ter sido identificada como o lugar aproximado que inspirou Guimarães Rosa a criar um de seus cenários, a Fazenda Santa Rita recebeu duas tabuletas com inscrições dos respectivos trechos do romance. Essas placas integram um conjunto de 95 ‘Marcos Territoriais’ estabelecidos em 2012 pelo Museu Casa Guimarães Rosa, de Cordisburgo, 4 e foram solenemente trocados durante nossa visita – num procedimento de manutenção – por Dora Guimarães, que é prima de Guimarães Rosa e responsável, junto a Elisa Almeida, pelo grupo Miguilim de narradores da obra do escritor.5
Somente essa referência literária já bastaria para atrair a curiosidade dos viajantes, mas além de ser cenário da obra de Guimarães Rosa, Lassance é o local onde o infectologista Carlos Chagas descobriu a doença transmitida pelo inseto, popularmente conhecido como barbeiro, que foi batizada com seu sobrenome.
O memorial e o Hospital Carlos Chagas
A descoberta de Carlos Chagas é considerada uma revolução na Medicina Tropical e um dos fatos mais relevantes da Medicina Brasileira. Sua história está preservada em um museu – o Memorial Carlos Chagas – instalado no antigo laboratório do médico cientista. Na parte interna estão textos, fotos, instrumentos de trabalho e até amostras de insetos. Já do lado de fora, encontra-se a estrutura onde eram confinados os animais utilizados na pesquisas.
Carlos Chagas era mineiro de Oliveira e residiu alguns anos no Rio de Janeiro, onde trabalhou sob a chefia do sanitarista Oswaldo Cruz. Mudou-se para Lassance em 1907, com a missão de exterminar uma epidemia de malária que estava matando centenas de sertanejos, atrasando o avanço da construção da Estrada de Ferro Central do Brasil.
No ano seguinte, Chagas passou a observar a ação de um inseto que se alimentava de sangue humano e era popularmente conhecido como Barbeiro, por picar preferencialmente no rosto. Ele percebeu que sintomas como distúrbios neurológicos e dificuldades motoras que afetavam a população local surgiam em consequência dessas picadas.
Em cerca de um ano, conseguiu identificar o parasito que habita o inseto e o batizou com o nome de Trypanozama Cruzi, em homenagem a Oswaldo Cruz. Chagas descobriu, ainda, seu ciclo evolutivo, os hábitos do inseto que lhe serve de vetor e a doença que provoca nos seres humanos – a Tryponossomíase Americana, depois batizada em sua homenagem como Doença de Chagas.
Por sua complexidade, a pesquisa de Chagas provocou grande impacto, tanto no Brasil como no exterior. Era a primeira vez que um único cientista descobria a um só tempo uma enfermidade, o transmissor e o hospedeiro. A repercussão internacional pode estar relacionada não apenas às descobertas em si, mas também ao seu registro cinematográfico feito em Lassance pelo próprio Chagas, em película de 16 mm. O filme de 9 minutos mostra cenas chocantes de crianças, vitimas da Doença de Chagas, que não conseguem ficar em pé, e foi exibido tanto na Academia Nacional de Medicina, no Río de Janeiro, como na Exposição Internacional de Higiene, em Dresden, na Alemanha para europeus de vários países.
Tudo isso rendeu a Carlos Chagas diversos reconhecimentos, um deles inédito: a admissão como membro da Academia Nacional de Medicina sem
que houvesse vaga. Chagas recebeu os prêmios Schaudinn e Kummel, ambos na Alemanha, concedidos, respectivamente, pelo Instituto de Doenças Tropicais e pela Universidade de Hamburgo, ambos na mesma cidade da Alemanha. Foi considerado Doutor Honoris Causa das univerdsidades de Havard, de Paris e de Bruxelas. Foi, ainda, nomeado Membro do Comitê de Saúde da Liga das Nações e recebeu duas indicações ao Prêmio Nobel de Medicina: em 1913 e 1921. No Brasil, acredita-se que não obteve o prêmio máximo por ser de um país do terceiro mundo.
Além do Memorial, instalado em seu antigo laboratório, Lassance guarda o prédio do Hospital Carlos Chagas, onde o médico fazia seus atendimentos – ambos tombados pelo Iphan, mas o segundo em más condições de preservação e à espera de verbas para ser restaurado. Tanto esse patrimônio arquitetônico como a própria história da Doença de Chagas têm origem, como já foi dito, nas obras de ampliação da Estrada de Ferro Central do Brasil.
Lassance: a marca da estrada de ferro
Quando Carlos Chagas chegou a Lassance, em 1907, essa pequena localidade do Norte de Minas era apenas uma vila que nasceu com a chegada de Liberato Nunes Azevedo – um dos tropeiros que descansavam no local ao se deslocar de Diamantina para cidades do Norte de Minas como Pirapora e
Montes Claros – e se chamava São Gonçalo das Tabocas.
Embora a epidemia de malária que o levou à região atingisse indistintamente a população local, o problema só chamou a atenção das autoridades sanitárias por causa de sua incidência entre os trabalhadores contratados pela empresa Central do Brasil, pelo atraso que causou na ampliação da Estrada de Ferro. O controle da malária permitiu a inauguração, no ano seguinte, da estação Ferroviária de Lassance, batizada assim em homenagem ao engenheiro Ernesto Antônio Lassance Cunha, que liderou sua construção.
A meta da empresa Central do Brasil era facilitar o deslocamento entre as diversas regiões do país por meio de uma extensa malha ferroviária integrada ao transporte fluvial. Mesmo sem ser concluído, esse projeto ferroviário gerou grande impacto nas regiões onde foi concretizado e beneficiou diversas localidades do sertão de Minas Gerais e hoje integra o Patrimônio Histórico do Município.
Além de ter atraído ao local o médico que protegeria a população de duas graves doenças, a Estrada de Ferro Central do Brasil trouxe prosperidade ao povoado, que acabou rebatizado com o mesmo nome da estação. O nome anterior, São Gongalo das Tabocas, fazia referência a uma lenda em torno da imagem do santo.
A lenda da imagem fujona
Conta-se que na época dos tropeiros, quando Lassance era apenas um ponto de descanso às márgens do córrego Maria Grande, uma imagem de São Gonçalo foi encontrada no meio aos tabocais – para alguns, em cima de um toco, para outros, boiando na água – e levada à igreja mais próxima, ou a uma casa da região. No dia seguinte, a imagem havia desaparecido e foi encontrada um tempo depois nos tabocais de onde havia sido resgatada. A operação foi repetida várias vezes, mas a imagem sempre voltava ao mesmo local, por isso acabou conhecida como a imagem de São Gonçalo dos Tabocais e emprestou seu nome ao povoado que começava a se organizar.
Já os relatos históricos atribuem o nome do povoado a uma fazenda de mesmo nome que pertencia ao mesmo Liberato Nunes de Azevedo que deu início ao povoado e tornou-se dono de grande parte das terras da região.
Nessa fazenda, Liberato ergueu uma capela em devoção a São Gonçalo das Tabocas que abrigou por anos a imagem lendária. Mas a igrejinha não está mais lá. No local resta apenas um cemitério, provavelmente construído na mesma época.
Pinturas rupestres na Serra do Cabral
Antes disso tudo acontecer, as terras que hoje correspondem ao município de Lassance eram habitadas por povos originários, conhecidos também como cabralinos, ou pré-cabralinos, e disso teria vindo o nome de uma série de montanhas que se estende pela região: a Serra do Cabral. Segundo
o diretor de Meio-Ambiente de Lassance, Wenderson José Soares, não se sabe a que nação indígena esses povos pertenciam, mas eles deixaram inúmeras pinturas rupestres que poderão dar pistas aos pesquisadores.
O ponto mais citado pelos moradores de Lassance – não se sabe se por ser um dos mais acessíveis ou pela originalidade de sua forma – é uma pedra cuja parte de cima assemelha-se a um chapéu. Seu nome, Lapa do Chapéu, nomeia também o conjunto de lapas e boqueirões localizados no município, na vertente da serra voltada para o Rio das Velhas.
Lassance é um dos sete municípios que compartilham a Serra do Cabral e seus sítios arquelógicos. Em alguns vizinhos, como Buenópolis, já há oferta de passeios a essas rochas, mas segundo a Diretora de Patrimônio Histórico, de Cultura e de Turismo do Município, Karla Ferreira Dias de Oliveira, Lassance ainda estuda formas de estruturar essa visitação.6
Notas
Lassance – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- (1,2,3,4,5,6,7) Sylvia Leite
- (8,9) Prefeitura de Lassance
- (10) Wenderson José Soares
Referências
- “Grande
Consultoria
- Karla Ferreira Dias de Oliveira - diretora de Patrimônio Histórico, de Cultura e de Turismo de Lassance
- Wenderson José Soares - diretor de Meio-Ambiente de Lassance, Gestor da APA, Presidente do onselho da Apa e do CODEMA
- Hudson Armando Nunes Canabrava - proprietário da Fazenda Santa Rita
Colaboração
- Rosa Haruco
- Neli Defensor Sant'Anna Martins
- Marcos Viana
- Edilberto Assumpção de Araújo
- Ivan Carlos Maglio
- Maria Marismene Gonzaga
- Henrique Leroy
- Dora Guimarães
- Julia Viana Malatesta
- Fumiko Araújo
- André Zumzum


Quantas informações e memórias preciosas!
Bom saber que gostou. Acompanhe as próximas publicações.
Que texto cativante! Quantas histórias interessantes tem Lassance! Adorei!
Obrigada pelo comentário, Beatriz. O blog tem várias matérias com histórias interessatrs. E virão outras. Acompanhe!
.Encantada com tanta riqueza de informações!
Lassance é uma cidade fascinante, repleta de beleza natural e de histórias que transformam. Da imponente Serra do Cabral, com suas magníficas cachoeiras, ao Rio das Velhas, que carrega vida em suas águas, tudo aqui inspira encantamento.
É também terra de memórias literárias, eternizadas nos relatos de Guimarães Rosa, e de lugares únicos como a charmosa Fazenda Santa. Para completar, Lassance guarda com orgulho o legado do grandioso Carlos Chagas, médico sanitarista reconhecido em todo o mundo.
Obrigada pelo comentário, Irene. Volte sempre.
Adorei. Obrigada por compartilhar
Eu que agradeço. Pela leitura e pelo comrntário. Volte sempre!
Parabéns Sílvia pela bela reportagem. Moro em Corinto, bem próximo de Lassance e não tive a oportunidade de visitar a cidade com o olhar de buscar conhecimentos sobre a história do lugar.
Que bom que gostou, Fátima! O blog também tem matéria sobre Corinto e sobre outros lugares da região.
Muito boa sua matéria, adorei, temos mais motivos pata voltar a Lassance pois nossa visita com a Rosa no dia 11 de julho passado foi de apenas 3 horas, fizemos um bate-volta de Cordisburgo, tínhamos que estar de volta às 14h para o lançamento do livro sobre o Brasinha.
Parabéns pela reportagem!
Obrigada, Pedro. Bom saber que deu vontade de voltar a Lassance.
Muito bom, Sylvinha. Muitas novidades no “rastro de Rosa”. A grande maioria de nós nunca ouviu falar de Lassance e muito aprende aqui; o que desperta a curiosidade em várias frentes, além da turística. Inveja (benigna) de não ter participado dessa 3ª etapa…
Pois é, Jane. Faltou você. Já estamos articulate a próxima. Se una a nós.
Parabéns, ótimo texto, adorei.
Que bom wue você gostou! Volte sempre!
Bom dia. Passando para expressar a minha mais profunda gratidão por suas palavras e atenção para com a nossa amada Lassance.
Imagine, Karla, eu que agradeço a você e a sua equipe pela maneira isenta como nos apresentaram a cidade e pelas informações que nos transmitiram.
Sylvia /Karla. Maravilha o texto. Rico de informações valiosas. Não sabia que Carlos Chagas era aqui de Oliveira, cidade vizinha nossa, sou de Divinópolis. Conhecia Lassance só de passagem e admirava a serra de longe. Próxima vez quero visitar ambas.
Faça isso. Você vai gostar de Lassance.