Atualizado em 08/02/2026 por Sylvia Leite
Nas décadas de 1960 e 1970, um dos sonhos de todo jovem que buscava experiências alternativas era navegar pelo Rio São Francisco em um tipo de barco conhecido, por sua aparência, como ‘Gaiola’ ou ‘Gaiolão’, e o ponto de partida – ou de chegada – da fascinante jornada era a cidade de Pirapora, no Norte de Minas. Cerca de meio século depois, não é mais possível fazer a tal viagem por causa do assoreamento do rio, mas uma daquelas embarcações a vapor – que na época transportavam pessoas, mercadorias e animais de pequeno porte – continua a existir e voltou a funcionar recentemente para passeios turísticos. É a única do gênero ainda em atividade no mundo, foi tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual (Iepha) e tornou-se o principal símbolo da cidade ribeirinha.
O vapor Benjamim Guimarães – nome oficial do único ‘Gaiola’ que ainda sobrevive – é o representante de várias embarcações e de uma época marcante na história do Rio São Francisco. O ‘Gaiola” foi fabricado em 1913, pelo estaleiro James Rees & Sons, navegou inicialmente no Rio Misssissipi e no ano seguinte foi comprado pela empresa Amazon River Play que fazia o transporte fluvial no Rio Amazonas durante o Ciclo da Borracha. Chegou a Pirapora desmontado, em 1920, e a partir daquele momento, passou a ser personagem central do desenvolvimento não apenas dos municípios ribeirinhos, mas de grande parte do Brasil.
Por ele, circulavam mercadorias como carvão, algodão e madeira. O vapor também levava passageiros que espalhavam suas mercadorias por todo o vale do Velho Chico, ou que viajavam para cumprir promessas e participar de romarias. O “Gaiola” Durante décadas, foi o único meio de transporte da região. Além de possibilitar o
comércio entre diversos municípios mineiros e baianos, o vapor serviu também como veículo de integração entre várias regiões do país. Levava produtos rio abaixo (de Minas para a Bahia), possibilitando que a novidades do Sudeste chegassem ao Nordeste e transportava retirantes rio acima (da Bahia para Minas) pois Pirapora tinha trem e por ele era possível chegar aos centros mais desenvolvidos.
Sua importância cultural não era menor. O apito de chegada do vapor quebrava a rotina das pequenas cidades, que se alvoroçavam para receber gente e mercadorias. Era motivo de alegria para as crianças que corriam para os portos, a pé ou de bicicleta, a fim de avistar o visitante e seus passageiros. Não é à toa que vários poetas e compositores regionais homenagearam a embarcação, como na canção ” O Gaiola”, de Josecé Alves dos Santos, lançada em seu disco “Rios e Sonhos” e gravada posteriormente pelo músico Marcus Viana.
“…Ehhh, lá vai gaiola, carregando na bagagem esperança e nostalgia/ sai de Pirapora, seu destino é Juazeiro da Bahia/ Sai do porto devagar, pra saudade aumentar, leva seu João e Maria, chegam com a mercadoria, que vai para o Ceará..”
Há tempos o ‘gaiola’ não traz mais rebuliço à cidade nem transporta sonhos e mercadorias por causa das mudanças nos meios de transporte e do assoreamento do rio. Depois de permanecer parado por alguns anos, foi restaurado com o fim de realizar passeios turísticos e de perpetuar, com isso, a memória de uma época.
A histórica ponte Marechal Hermes
Pirapora, apesar de pequena – aproximadamente 60 mil habitantes – tem mais ícones que muitas metrópoles. Um deles é a Ponte Ferroviária Marechal Hermes, inaugurada em 1922, que liga o município ao vizinho Buritizeiro. Sua
construção integrava o projeto de expansão da Ferrovia Central do Brasil, criada para estimular a interiorização do país, ligando o Rio de Janeiro, então capital do Brasil, a Belém do Pará, no Norte do país – um projeto que nunca foi consluído.
Olhar para a ponte de ferro é trazer a memória dos tempos de maior prosperidade do município, quando a navegação pelo rio São Francisco e sua travessia pela linha férrea possibilitavam o escoamento de gado, minérios e produtos agrícolas.
A Marechal Hermes foi a primeira ponte sobre o Rio São Francisco. Sua extensão, de 694 metros, era considerada monumental na época em que foi construída, estruturada em treliças de ferro vindas da Bélgica. Com o fim do transporte ferroviário, os automóveis começaram a circular sobre os trilhos, mas logo o corredor central da ponte foi interditado e hoje são usados apenas os passeios laterais. Do lado direito, passam ciclistas e motociclistas. O esquerdo é reservado aos pedestres.
Terra de “Zé Bebelo”
É quase impossível competir com o carisma do ‘gaiola’ e da ‘ponte de ferro’, mas no que diz respeito à fama histórica, pelo menos em Pirapora e região, o vapor e a ponte têm um concorrente à altura: o coronel Rotílio Manduca, que nasceu em Remanso, na Bahia, mas fez história por ali. O polêmico personagem e sua fazenda Baluarte foram nominalmente citados três vezes pelo personagem narrador Riobaldo no romance Grande Sertão: veredas, de Guimarães Rosa, duas delas em referência explícita à sua coragem e ao grande número de mortes que carregava:
No entanto, a presença de Rotílio no romance não se limita a essas citações. Segundo estudiosos da obra roseana, o bravo coronel foi duplamente lembrado no romance, pois teria também inspirado Rosa na criação do personagem Zé Bebelo – um jagunço que se diferenciava dos outros por pelos menos duas características: era instruído e agia a serviço do governo – traços também atribuídos a Rotílio Manduca. Segundo a tradição oral, o famoso coronel tinha hábitos finos e frequentava o meio intelectual do Rio de Janeiro, mas quando estava em Pirapora agia de forma violenta no combate ao cangaço e
teria sido assassinado a facadas por um integrante do bando de Lampião.
As versões sobre sua morte são tão numerosas quanto desencontradas. Uma delas afirma que após estupro de uma das filhas por um cangaceiro conhecido como Mesquinheza, o coronel Rotílio castrou o agressor e mudou-se com a família para o Mato Grosso prometendo nunca mais voltar. Dali em diante, visitava Pirapora usando disfarces, inclusive de padre. Segundo essa versão, ele teria sido morto pelo mesmo Mesquinheza durante uma dessas visitas, dentro do vapor Wenceslau Braz, que era comandado pelo irmão, Pedro Manduca.
A morte trágica de Rotílio é confirmada pela neta Iara Cristina Índígena do Brasil Coutinho (foto da esquerda), filha de Paulo, que conta a versão ouvida do pai: “Os três filhos estavam no vapor voltando da escola – eles estudavam em Salvador – e indo para a fazenda de férias. Ouviram a confusão desde o início, mas o pai tinha dito que eles não se envolvessem em brigas de marinheiro. Como aumentou o barulho e o corre corre, eles pensaram: e se for com papai? Foram e o pai morreu nos braços dele”. Segundo Iara Cristina, seu pai tinha apenas 15 anos quando Rotílio foi assassinado e não quis ir morar com o tio, por isso fugiu de caminhão para São Paulo e de lá para o Paraná. Quanto ao avô, Cristina acredita que ele
nunca tenha morado Mato Grosso: “devem ter confundido com Goiás porque meu pai nasceu em Formosa”.
Sandra Célia Brasil Carvalho, sobrinha neta de Rotílio (foto da direita), conta a história com base no relato do avô, Pedro Manduca, comandante do vapor onde ocorreu o assassinato: “o vapor ancorou na Barra (município da região) e Rotílio chegou no camarote do comandante, meu avô, pôs a mão no beiral e ficou conversando. O homem veio por trás e o esfaqueou”. Sandra Célia confirma a história do estupro e da castração do assassino, mas acredita que ele fosse um ex-empregado da fazenda e não um cangaceiro do bando de Lampião.
Curiosamente, nem Iara Cristina nem Sandra Célia carregam o sobrenome Manduca. Essa teria sido uma decisão de seus avôs, Rotílio e Pedro, para evitar que filhos e netos sofressem perseguições. Os descendentes de Pedro passaram a se chamar Brasil e os de Rotílio foram batizados como Indígena do Brasil. Após a morte de Rotílio, quase todos os filhos assumiram o sobrenome Manduca, menos Paulo, Pai de Iara Cristina que, por ter fugido, ficou sem contato com os irmãos por muitos anos.
As visitas de Rosa’uarda
Rotílio não é o único personagem roseano em Pirapora. Sandra Célia diz lembrar perfeitamente de Rosa’uarda – a filha de um comerciante libanês que foi citada 16 vezes em Grande Sertão: veredas. No livro, a personagem é
mostrada como uma mulher experiente, que inicia o personagem narrador Riobaldo na vida sexual e, a certa altura, fica noiva de um árabe que, como seu pai, também era comerciante.
Guimarães Rosa não conta, mas, segundo Sandra Célia, na vida real, Rosa’uarda foi morar com o marido em Buritizeiro – cidade vizinha separada de Pirapora apenas pelo leito do rio – e frequentava a casa de sua avó Esmeraldina: “todo mês ela atravessava a ponte e ia buscar dinheiro no Banco do Brasil de Pirapora, acho que era o pai dela que mandava, e ela ficava na casa da minha avó. A gente chamava ela de Uarda”.
Sandra Célia era criança, e não entendia muito bem as coisas, então não sabe dizer se as características da Rosa’uarda que conheceu coincidem com as da personagem literária, mas acredita que ela era casada com um velho, pois não esquece que a avó perguntava: “e o marido, cadê? e ela falava assim: ah, o veio ficou em Buritizeiro”. Sandra lembra, ainda, que Uarda “era bonita, tinha um cabelo pesado, grosso, sobrancelhas grossas de árabe e falava sorrindo. Mas os olhos, que no livro são pretos, eram esverdeados, de um verde escuro”.
As carrancas protetoras
Os personagens reais e literários de Pirapora, dividem espaço com figuras de madeira. São as carrancas ou cabeças de proa – esculturas entalhadas a mão, que retratam cabeças humanas ou de amimais. Essas peças foram originalmente usadas pelos navegantes como proteção contra os espíritos malignos das águas e o ataque de ladrões, mas viraram peças de decoração em casas, hotéis e restaurantes de várias partes do Brasil.
Não se sabe ao certo qual é a origem das carrancas, embora haja registros de imagens semelhantes ente os Vikings, que viveram na Europa e nas ilhas do Atlântico Norte entre os séculos 8 e 11. É incerta, ainda, a data em que essas esculturas passaram a ser usadas no Rio São Francisco, provavelmente na segunda metade do século 19. O que se sabe com certeza sobre elas é que se tornaram ornamentos indispensáveis a qualquer embarcação e passaram a ser produzidas especialmente por artesãos de Pirapora, em Minas, de Juazeiro e Santa Maria da Vitória, na Bahia, e de Petrolina, em Pernambuco.
Em Pirapora, a sobrevivência da tradição das carrancas pode ser creditada especialmente aos escultores Expedito Viana Rodrigues, ou Mestre Expedito, e Sabino Xavier Carneiro, conhecido como mestre Sabino. Expedito veio de Santana do Sobrado, na Bahia, quando o rompimento da barragem construída pela Companhia Elétrica do São Francisco inundou a cidade onde nasceu e vivia até então. Seu trabalho ganhou visibilidade mundial depois que Jacques Cousteau comprou algumas de suas peças. Há quem diga que uma delas foi colocada na proa da embarcação Calypso mas, até onde foi possível apurar, não há imagens ou textos que comprovem essa informação.
O mestre Sabino era mineiro, mas também veio de outras paragens. Recém chegado de São Romão para trabalhar no setor de carvoaria, ele se encantou com as carrancas que via nas proas das embarcações e como já tinha experiência com madeira – na produção de canoas, colheres de pau e carros de boi -, decidiu fazer também carrancas. Ao perceber seu talento, um comerciante conhecido como Dedeco Boaventura começou a comprar suas peças e a apoiar sua produção.
Mas naquela época a navegação comercial no São Francisco já estava diminuindo e as carrancas do mestre Sabino acabaram não chegando às proas. Em vez disso, ficaram famosas como obras de arte e se espalharam pelo país. Uma das peças mais famosas produzidas por ele é uma carranca gigante (foto) que foi levada para o Sesc Pompéia, em São Paulo.
O mestre Sabino desenvolveu um estilo próprio – marcado por orelhas pontudas, presas afiadas e olhos esbugalhados, bastante distinto do que se faz em outros municípios ribeirinhos. Seu legado, no entanto, vai além dessa marca estilística. A fim de atender a demanda do comerciante Dedeco Boaventura, ele ensinou sua técnica a inúmeros parentes e até hoje a irmã Luzia, os filhos Martinha e Gelson, o neto Alexandro, os sobrinhos Valdir e Boni (foto) e o sobrinho neto Silvano seguem mantendo viva a tradição de esculpir carrancas.
Boni conta que todos eles vivem na rua vereadora Rosa Isabel, conhecida como rua dos Carranqueiros: “a rua tem umas vinte casas e antigamente todos os moradores eram da nossa família e todos faziam carrancas”. Hoje, apenas Boni e mais três parentes do mestre Sabino – o filho, a irmã e o sobrinho neto – continuam residindo no local. Ainda assim, a associação da categoria luta para que o nome da rua seja oficialmente trocado para Rua dos Carranqueiros.
O bordado que registra a vida
Em Pirapora, a transmissão familiar dos saberes artesanais ocorre também nos bordados – uma antiga tradição entre as mulheres da região perpetuada pela bordadeira Antônia Zulma Diniz Dumont e seus descendentes, hoje organizados em um coletivo que já chegou à terceira geração e é coordenado por uma das filhas, Sávia Dumont.
Sávia explica que o grupo atua em duas frentes: a produção familiar voltada especialmente para a ilustração de livros, reunida sob a marca Matizes Dumont e o trabalho psicopedagógico, socioambiental, de desenvolvimento humano e de geração de renda realizado pelo Icad (Instituto de Promoção Cultural Antônia Diniz Dumont), – entidade que já capacitou mais de 40 mil pessoas em todo o país e também no exterior.
Embora tenha extrapolado fronteiras de toda espécie, o bordado produzido pela família Diniz guarda a essência da arte da matriarca, que desde os nove anos de idade se dedicava a retratar a vida, a alma e a cultura ribeirinhas, ou barranqueiras, como se costuma chamar, na região, as pessoas, as coisas e as tradições que vivem ou existem na beira do São Francisco.
Esses retratos poéticos, que à primeira vista parecem pertencer apenas ao local de onde brotaram, foram capazes de encantar e ganhar espaço em vários setores da cultura nacional: chegaram ao São Paulo Fashion Week pelas mãos do estilista Ronaldo Fraga, ilustraram capas de inúmeros livros, entre os quais “A Bola e o Goleiro”, de Jorge Amado, “A Moça Tecelã”, de Marina Colasanti e “O Menino do Rio Doce”, de Ziraldo e a capa do CD “Pirata”, de Maria Bethânia.
O trabalho da família Diniz foi registrado em vídeo no documentário “Transbordando”, produzido por meio do Edital de Apoio à Produção de Documentários Etnográficos sobre o Patrimônio Cultural Imaterial (Etnodoc). Mas grande parte de sua divulgação ocorre por meio das próprias ações sociais. Um dos trunfos do Icad -, além da disseminação do bordado por meio do trabalho sócio-pedagógico – é a manutenção do grupo de bordadeiras locais de Pirapora, em sua maioria discípulas diretas de dona Antônia, que constituem um importante foco de resistência dessa tradição, e uma fonte de renda para mulheres da comunidade. O grupo, que já chegou a ter 100 mulheres, reúne-se três vezes por semana para tomar café e bordar. A cada mês, recebem a visita de uma das irmãs Dumont e orientações para a condução do trabalho.
O cordel escrito e falado
Muito menos divulgado, mas ainda resistente é a Literatura de Cordel que tem como principal referência o poeta popular já falecido Israel Pereira Mourão, conhecido como Gardel. Assim como outros tantos artistas locais, ele foi criado fora da cidade. Veio de Ibiaí, quando assassinaram seu pai: “minha avó e ele saíram corridos para não morrer também”, conta a filha, Elaine, que perpetua o trabalho do pai recitando seus versos. Ela relata, ainda, que quando a avó morreu, seu pai, que ainda era criança, ficou três dias no cemitério porque não tinha para onde ir, até ser acolhido por um comerciante local, chamado Carlos Nogueira: “A partir daí teve uma vida normal e estudou na melhor escola da cidade, o Colégio São João Batista”.
Já na adolescência, Israel começou a compor versos e canções. Depois vieram os cordéis, quase sempre sobre Pirapora, o que segundo a filha, foi uma maneira dele agradecer a acolhida que recebeu na cidade. Elaine conta que tudo era motivo para ele escrever um cordel: “se acontecia uma coisa, ele contava em Cordel, se uma pessoa fazia aniversário, ele fazia um Corel e dava de presente”. Mas Israel também cantava e tocava violão. O apelido Gardel, que virou nome artístico, veio na juventude, quando fazia serenatas para a futura esposa (mãe de Elaine) cantando musicas do repertório de Carlos Gardel – o cantor de tango franco-argentino que fazia sucesso na época.
Mesmo com toda essa atividade, Gardel nunca conseguiu sobreviver da sua arte, que ficava relegada às horas vagas. O ganha pão vinha da companhia Ligas e Alumínio S.A. (Liasa), onde exercia o cargo de eletricista. Mas apesar de não ter ido muito longe nos estudos, e de exercer um cargo técnico, a filha conta que presenciou ele escrevendo discursos para os chefes da empresa.
Gardel não deixou herdeiros na Literatura de Cordel, mas o talento para as artes foi passado ao filho Robson que canta e toca samba, além dos netos Cauã, de 15 anos, que recita, escreve e pinta; e Alana, de 9 anos, que recita versos do avô. A Elaine coube a vocação para as artes cênicas. Desde cedo, passou a fazer uma espécie de parceria com o pai. Ele escrevia os Cordéis e ela ia aos eventos com ele para recitar.
Como funcionária da Empresa Municipal de Turismo, Elaine tem entre suas atribuições, a tarefa de receber e acompanhar visitantes e ela aproveita esses momentos para presenteá-los recitando versos de Cordel sobre Pirapora escritos pelo pai. As apresentações acontecem na sede do Centro de Apoio ao Turista (CAT) ou nos locais de visitação, como é o caso do Vapor Benjamim Guimarães.
Tamboril: a ação dos mais jovens
As antigas tradições convivem e interagem com novas iniciativas. Caso do Clube Literário Tamboril, que tem uma história inspiradora. Contam os piraporenses que num certo momento histórico, o então prefeito do município decidiu fechar a Bilblioteca Municipal, e há quem diga até que muitos livros foram jogados no lixo. Foi aí que entraram em cena os atuais presidente do clube, Jean Matheus Peixoto de Brito, e tesoureiro, Rafael Ferreira de Oliveira, apoiados por professores, artistas, escritores, uma contadora de histórias e outros intelectuais do município que hoje integram a diretoria da entidade.
A fim de preencher a lacuna deixada pelo fechamento da biblioteca, eles começaram a mobilizar a comunidade em torno de saraus e de empréstimo de livros. No começo, os livros eram doados pelos próprios integrantes do grupo ou por pessoas da comunidade e levados em malas para serem distribuídos com os leitores. Depois, o grupo passou a usar carrinhos de cachorro quente ou de
picolé. Em seguida passaram a fazer “gelotecas” com geladeiras velhas doadas pela própria população: “às vezes os livros não voltavam, mas o importante era as pessoas lerem”, diz a coordenadora pedagógica da entidade, Idianeile Cardoso Rodrigues, que nos guiou durante a visita à biblioteca.
.À medida em que o movimento foi crescendo, o grupo passou a criar pontos de leitura inclusive na zona rural. O gerenciamento dos pontos era feito pela própria comunidade e os organizadores se encarregavam de enviar agentes aos locais para fazer a reposição do que não era devolvido.
Passaram-se cinco anos até que o grupo conseguisse criar a Biblioteca Comunitária e o Clube de Leitura, esse último idealizado pela escritora Charmene de Fátima Santos Figueiras Sopas Porto. Hoje, a biblioteca reúne mais de 10 mil volumes – a maioria de Literatura – e mantém parcerias com escolas da região, com a APAE, Além de atuar na área de Literatura, a biblioteca promove oficinas e espetáculos em praticamente todas as áreas culturais.
Além disso, tem sua própria editora, a Editora Tamboril.
Segundo Rafael Oliveira, que além de tesoureiro do clube, é criador e gestor da editora, “o fato de ter gente de diferentes áreas ajudou o movimento a se destacar e ganhar credibilidade junto à comunidade” Mas embora seja plural, tanto na diversidade de seus fundadores como no legue de áreas nas quais atua, o Clube de Leitura Tamboril dirige um olhar voltado para as tradições locais. O Cordel, por exemplo, tem recebido especial atenção tanto da edição de livros como nas oficinas de de textos e de Xilogravura para a produção de suas capas.
Pirapora preta: um sertão diferente
A jornalista Iris Carolina, nascida e criada em Pirapora, mas hoje residente em Vitória do Espírito Santo, enxerga sua terra natal como uma nota dissonante nos caminhos roseanos pois “embora esteja cravada no sertão mineiro, onde a calma, os silêncios e o recolhimento costumam dar o tom das conversas e dos comportamentos, a cidade é
pura vibração exterior, com uma Bahia inteira pulsando em suas veias”.
Os baianos, em sua maioria afrodescendentes, vieram pelo rio, durante a Segunda Guerra – e continuaram a vir por um tempo – com o sonho de um dia chegar a São Paulo, a terra das oportunidades. Mas a viagem era longa, cansativa, e muitos decidiram parar pelo caminho. Ao parar, adquiriram novos hábitos e saberes, mas também descarregaram os seus.
Foi assim que a cidade mineira, antes discreta, reservada e coberta de poeira, passou a ser um sertão que dança, canta, fala alto e se ilumina. Tudo isso, lembra Íris, está bem expresso em uma estrofe da canção “Trem de Pirapora”, de Sá e Guarabira, que diz assim: “Pirapora preta, preta barranqueira, luz acesa até altas horas da noite”.
Mas como diz Riobaldo, “as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando” e a própria Iris reconhece que com o fim da navegação comercial no São Francisco, e a redução da chegada de imigrantes da Bahia, Pirapora, embora continue preta e barranqueira, já não está mais tão barulhenta como foi em sua infância.1
Notas
- 1 Leia, aqui no blog, matérias sobre outrs lugares relacionados à obra de Guimarães Rosa: Cordisburgo, Curvelo, Lassance, Corinto, Morro da Garça, Andrequicé, Araçaí, Serra das Araras, Morrinhos, Araçuaí
Pirapora – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- (1,2,4,10,11,12,14,16,17,18) Sylvia Leite
- (3) Acervo Iphan
- (5) Reportagem Jornal Estado de Minas sobre Rotílio - Acervo da sobrinhaneta
Referências
- As diversas vidas de Zé Bebelo - artigo de Mraco Antônio Tavares Coelho, Scielo
Colaboração
- Rosa Haruco
- Neli Defensor Sant'Anna Martins
- Marcos Viana
- Edilberto Assumpção de Araújo
- Ivan Carlos Maglio
- Maria Marismene Gonzaga
- Henrique Leroy
- Dora Guimarães
- Julia Viana Malatesta
- Fumiko Araújo
Agradecimentos
- Iris Carolina - Jornalista
- Romulo Melo - Guia de turismo e dono de pousada
- Adélio Brasil (Delin) - Artista plástico
- Sávia Diniz Dumont - coordenadora do Matizes Dumont e diretora do Icad


Matéria abrangente, cheia de informações interessantes, agradável de ler. Parabéns, Sylvinha.
Obrigada, Jane!
Que matéria deliciosa de se ler!
Fico encantada com a riqueza de detalhes de seus textos, cada vez melhores.
Afetuoso abraço
Obrigada, Val. Beijo
Matéria muito bacana! Quanta informação interessante. Nunca estive em Pirapora, mas já ouvi falar muito desse lugar. Agora me deu vontade de conhecer pessoalmente, pois este texto é um guia fabuloso.
Você não vai se arrepender, Bia. Pirapora é uma cidade vibrante e agradável. Quando for, não deixe de mergulhar no rio rsrs
Parabéns sempre, Sylvia! Foi muito boa essa viagem pela Pirapora! O seu texto me remeteu a Maleita de Lúcio Cardoso, autor que nasceu em Curvelo e escreveu sobre Pirapora.
Obrigada, Geraldo, pela leitura e pelo comentário! Bom saber que gostou!
Quase um romance! Parabéns Sylvia, viajamos com os seus textos!
Obrigada, Hugo. Bom saber que gostou.