Atualizado em 10/05/2026 por Sylvia Leite
Para quem não conhece Guimarães Rosa, Paredão de Minas é apenas um dos muitos povoados perdidos no sertão do médio São Francisco, onde só há médico e dentista a cada 15 dias e missa uma vez por mês. Mas os leitores do “Grande Sertão: Veredas” sabem que nesse lugar aparentemente sem importância, o escritor mineiro ambientou acontecimentos decisivos do seu festejado romance.
Foi em Paredão, às margens do Rio do Sono, que o bando do personagem narrador Riobaldo finalmente enfrentou e venceu seu maior inimigo, Hermógenes, tido como desumano1. Essa vitória custou a vida de Diadorim – o jagunço que Ribado amou platonicamente desde criança – e trouxe uma grande revelação: “…Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita…”2 Segundo a história contada por Rosa na voz de Riobaldo, foi também nesse pequeno arraial, hoje distrito do município de Buritizeiro, que Diadorim foi enterrada, depois de descoberto o seu segredo, encerrando, assim, a longa história de amor proibido: “E todos meus jagunços decididos choravam. Daí, fomos, e em sepultura deixamos, no cemitério do Paredão enterrada, em campo do sertão”3.
Talvez poucos nativos do Paredão tenham lido por inteiro o “Grande Sertão: Veredas”, mas todos têm algum conhecimento do seu enredo desde que, em 1985, a TV Globo gravou em suas terras uma minissérie inspirada no romance. Foram 120 dias de gravação que marcaram a história do
lugar. Primeiro pela movimentação de pessoas, pela contratação de figurantes locais e pela presença de atores famosos, como Tony Ramos, que interpretou Riobaldo, e Bruna Lombardi, que fez o papel de Diadorim. Mas, acima de tudo porque fez chegar ao lugarejo o serviço de telefonia – uma reivindicação que os moradores já faziam há anos, sem qualquer resultado, e que segundo o ex-morador, ex-vereador e ex- dono de pousada e de cartório, Ananias Ferreira dos Santos, conhecido como Sidraque4, foi atendida em 48 horas quando a produção da minissérie entrou em cena: ‘muitas cidades ainda nem conheciam o DDD e nós já tínhamos aqui em Paredão”.
Essas e outras passagens da presença da Rede Globo em Paredão ainda estão vivas na memória dos moradores do povoado. Sidraque lembra do susto que todos levaram quando um figurante apertou o gatilho de um fuzil. Segundo ele, o tiro era de festim, mas machucou um dedo de Tony Ramos e causou rebuliço na cidade: “parecia um deus chegando no hospital. A mulherada fazia fila pra ver ele entrando”. Sidraque guardou como lembrança um sino de material leve (identificado por ele como uma espécie de papelão) usado como elemento de cena da minissérie.5
Outro momento que os moradores de Paredão nunca esqueceram foi a gravação da cena em que Diadorim – na verdade Bruna Lombardi – tomou banho em uma queda d’água do corrego Ponte da Pedra. Obviamente, ninguém teve acesso ao set de filmagem, mas a fantasia correu solta e a cachoeira foi ‘rebatizada’ com o nome da atriz. Além disso, tornou-se um dos pontos turísticos que cauam maior orgulho à população local.
Os quatro meses de gravações mudaram a rotina dos 250 moradores de Paredão. Eles contam que a emissora contratou cerca de 1800 figurantes. Chegou gente de toda a região e houve quem percorresse até cem 100 km a cavalo para atuar como figurante. As informações são confirmadas pelo repórter Marco Antônio Lacerda, em documentário da Rede Globo sobre os bastidores da minissérie. Segundo o jornalista, “a alimentação de toda a equipe consumia diariamente 2 mil kg de carne e todo o estoque de água mineral das cidades vizinhas.”6 A professora Gessika Barbosa ainda não havia nascido nessa época, mas dá seu depoimento com base nos relatos que ouviu do pai: “É como se houvesse um dilúvio de pessoas”.
Um arraial nascido do garimpo
O pai de Géssika, Givaldo Rodrigues Barbosa, é dono do Bar e Mercearia Barbosa – um dos poucos do lugar – e nos contou, sob o olhar atento de dois periquitos, como o Paredão nasceu, séculos atrás, em consequência da exploração de diamantes: “Isso aqui é da idade de São Paulo […] começou com os bandeirantes […] o nariz deles cheirava ouro, diamante, vieram nesse intuito de buscar”.
Givaldo diz que, no auge da extração de diamantes, os garimpeiros trabalhavam dois dias e passavam o resto da semana gastando dinheiro no Rio de Janeiro: “Teve um senhor que pegou uma pedra aqui, parece que ela deu dezessete quilates, mais ou menos do tamanho de uma bola de gude. Era dinheiro que você não tem noção. O apelido dele era Pedro Rico”. Segundo Givaldo, ainda existe diamante no Rio do Sono, mas agora é mais difícil de achar.
O que restou daquela época foi somente a memória dos mais velhos e as histórias da tradição oral, muitas delas fantasiosas. Uma das lendas relacionadas ao garimpo é a da “Luz Andeja” – uma espécie de clarão relatado também em outros lugares do sertão mineiro. Em Paredão, o fenômeno costuma ocorrer perto ou dentro do rio, e muitos acreditam que seja emitido pelos diamantes. Sebastião da França Gomes Pereira (Tião), chefe distrital do povoado, afirma que já viu e ouviu o tal fenômeno: “Eu tava pescando à noite e escutei a zuadinha dela assim zzzzz e é um azulado mais lindo. Ela veio a serra e subiu de rio acima”.
Apesar da antiguidade do lugar e dos acontecimentos acumulados ao longo dos séculos, os moradores afirmam que sua história nunca foi escrita. “Não podemos nem comemorar o aniversário de Paredão”, diz Givaldo, lamentando a falta de registros. Sabe-se apenas que a família Carneiro doou terras à paróquia para que ali se construísse a igreja de São Sebastião, e isso deu origem ao povoado.
O distrito já teve um cartório, que hoje funciona em Buritizeiro, mas Givaldo acredita que os documentos mais antigos tenham se perdido no incêndio do cartório de São Francisco – município vizinho que, no passado, abarcava toda a região.
O cemitério: entre a Literatura e as lendas
O cemitério onde, na ficção rosiana, Diadorim foi enterrada, também não tem registros. Os moradores acreditam que seja tão antigo quanto o povoado, mas a falta de conservação das tumbas impede a identificação. A lápide mais antiga com placa legível é a de Aprígio Alves de Mendonça, enterrado em 20 de janeiro de 1934, ou seja, há menos de cem anos.
Se por um lado faltam informações, por outro sobram histórias, ou lendas. Uma das tumbas sem identificação – a maior delas – é atribuída a uma moça que, segundo Givaldo, cometeu suicídio na Cachoeira Grande, no Rio do Sono, depois de ser repreendida pela mãe: “ela foi envergonhada. Ela deixou uma gamela cair da cabeça, a gamela quebrou e a mãe xingou ela. Quando chegou lá ela suicidou”.
Há pelo menos, mais um caso famoso de suicídio e este quem conta é o chefe distrital Tião. É a história de um casal que morava em Contagem, mas um deles era descendente de gente de Paredão. Como a família não queriam o casamento, eles fugiram de casa e morreram juntos no rio Paracatu, que passa na região.
Um sertão abandonado
Na vila atual do Paredão, o que mais impressiona são as casas fechadas. Não se sabe se já era assim na década de 1950, quando foi escrito o Grande Sertão:Veredas, ou se Rosa arriscou uma afirmação premonitória, mas o fato é que o abandono da cidade pelos moradores é registrado
pelo personagem Riobaldo: “O Paredão existe lá. Senhor vá, senhor veja. É um arraial. Hoje ninguém mora mais. As casas vazias. Tem até sobrado. Deu capim no telhado da igreja…” 8
Segundo o chefe distrital Sebastião, as difíceis condições de vida obrigam famílias inteiras a ir embora para a sede do município, cidades vizinhas, ou para a capital Belo Horizonte, em busca de trabalho e melhoria de vida.
“A vulnerabilidade social é gritante”, afirma a professora Gessika Barbosa, que precisou sair de Paredão para estudar em Buritizeiro, Pirapora e Montes Claros. “Quando minha avó sofreu um derrame, a gente teve que arrumar um carro, porque na época não tinha ambulância na época”, conta Gessika, esclarecendo, em seguida, que arrumar um carro em Paredão não significa chamar um taxi ou carro de aplicativo porque lá não existe nem uma coisa nem outra. É contar com o favor de alguém. Linha regular de ônibus também não existe. Uma vez por mês, a prefeitura de Buritizeiro oferece transporte gratuito à população. O ônibus sai num dia e volta no outro. Paredão não tem agência de Correios. As correspondencias, segundo Gessika, “vão até Buritizeiro e dependem da boa vontade de alguém trazer para paredão”.
O estudo como esperança

Para Paredão de Minas, a esperança se concentra duplamente nos estudos. Por um lado, ao receber pesquisadores da obra de Guimrães Rosa, o que, segundo Géssika, acaba divulgando e conferindo importância ao povoado. Por outro, devido às conquistas dos moradores na área de educação.
Enquanto no Brasil, apesar da queda dos últimos anos, a taxa de analfabetismo ainda é de 5,3%9, no povoado de aproximadamente 700 habitantes nenhuma criança está fora da sala de aula, segundo contam os professores do povoado.
Em Paredão, só não existe faculdade. A escola local oferece desde a educação infantil até o ensino médio e já ganhou três vezes o Prêmio Escola Transformação, concedido pela Secretaria de Estado da Educação a estabelecimentos com bons resultados de fluxo e desempenho. O diretor da escola, Tiago dos Santos Pires de Carvalho acredita que essa premiação repetida deve-se “à complexidade do grau
de gestão da escola que mesmo com todas as dificuldades, consegue fazer a diferença na aprendizagem dos alunos.” Segundo Tiago, a escola de Paredão tem a maior nota do Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb) da Superintendência Regional de Ensino (SER) de Pirapora, que abrange 37 escolas de dez municípios.
Além do ensino formal, os alunos recebem estímulo para se expressar por meio da música e da poesia. No comando de tudo, está Tião, que além de chefe do Distrito, é professor de educação física e também faz os garotos sonharem com sua famosa canção, que já se tornou hino da escola: “Eu tenho um sonho/ que é sempre estudar/ ter minha profissão/ e dar conforto pros meus pais / sei que o caminho não é tão fácil /mas vou conseguir, vou conseguir / pela graça de Deus / e por todos aqueles que confiam em mim.”10 11
[1] Letra e música de Sebastião da França Gomes Perira (Tião)
[1] O dado é do IBGE – Censo Escolar de 2024.
Notas
- 1 Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, em Ficção Completa, volume 2, primeira edição, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2017, p.1296.
- 2 Idem, p. 1299
- 3 Idem, p.1299
- 4 Como Sidraque já não dá mais entrevistas, as declarações dele foram reproduzidas do documentário Paredão de Minas, de Jacqueline Silva Santos, Projeto Amres do Velho Chico
- 5 A Luz Andeja é um fenômeno comum em várias regiões do sertão e em cada local se associa a diferentes lendas
Paredão de Minas – Buritizeiro – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- Sylvia Leite
Referências
- Reportagem de Marco Antônio Lacerda, em documentário da Rede Globo sobre os bastidores da minissérie


Como a educação fruto da vontade de pessoas como Tião fazem toda diferença em um vilarejo como Paredão de Minas. Se tenho um sonho para o Brasil é de que todos os cantos deste País tivessem a base de educação de Paredão de Minas. Haveria mais justiça social e dignidade entre os brasileiros. Assim se pode começar a sonhar. Parabéns Sylvia por nos levar a esse lugar, que não tão longe nos tempos atuais mas tão rico de esperança em sua simplicidade.
Augusta
Sim Augusta, muito em rico em esperança, cultura e história.