Atualizado em 10/05/2026 por Sylvia Leite
Felixlândia tem cerca de 16 mil habitantes – segundo projeção dos moradores com base no último censo do IBGE (2022) – e não faz parte do circuito histórico tradicional de Minas Gerais. Apesar disso, foi o lugar escolhido para abrigar uma ‘Pietá’ de Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho) que, segundo estudiosos, é a única esculpida integralmente por ele1. As razões dessa distinção estão na história do município, desde sempre devoto a Nossa Senhora da Piedade.
Foi em torno de uma capela consagrada à santa que se formou o Arraial do Bagre – povoado que deu origem ao município. Segundo conta a professora de Historia Rose Vieira, autora do livro Para Felixlândia 2, tanto a capela como os moradores de seu entorno ocupavam terras antes pertencentes à sesmaria de mesmo nome, doadas à igreja por seu proprietário Padre Félix Ferreira da Rocha, que era devoto de Nossa Senhora da Piedade..
Na época, ainda no século 18, o local fazia parte do município de Sabará. De acordo com Rose, o município só foi criado oficialmente em 1948 – cerca de um século depois de tornar- se distrito de Curvelo, período em que foi conhecido como Piedade do Bagre 2 O nome de Felixlandia é uma homenagem ao padre benfeitor, que era devoto de Nossa Senhora da Piedade.
Os caminhos da santa
A escultura que retrata a dor de Maria ao receber no colo seu filho morto foi esculpida em Cedro e se compõe de 17 partes tão perfeitamente encaixadas que é impossível detectar suas divisões. Essa imagem foi provavelmente talhada entre 1782 e 1783, junto com outras obras religiosas, para a capela da Fazenda Jaguara, localizada no município de Matozinhos, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Daquela época até hoje, a Pietá de Aleijadinho cumpriu uma longa trajetória, segundo relata Elza Helena, presidente do Conselho Municipal do Patrimonio Cultural de Felixlândia. Enquanto pertenceu à capela da Fazenda Jaguara, nunca esteve no altar mor e teria sido usada como ‘santa do pau oco’ para transportar diamantes e outros materiais de contrabando ao longo de procissões que paravam em vários portos do Rio São Francisco. Na época, era costume levar o produto da mineração em santos de madeira oca para trocar por sal em cidades ribeirinhas. O ponto final da viagem era o município de Barra do Guaicuí, onde o Rio das Velhas deságua no Velho Chico. Em uma dessas idas, não se sabe exatamente quando, a imagem não voltou.
Passaram-se quase quatro décadas até que, entre 1820 e 1830, a imagem foi levada para a capela de Nossa Senhora da Piedade, em Felixlandia. A viagem, segundo Elza Helena, foi feita em carros de bois e teve duas paradas: uma na Fazenda Jacobina e outra em uma casa que pertencia à antiga fazenda do Bagre, onde ficou à espera da conclusão da obra.
A importância da Pietá para Felixlândia pode ser medida pela reação dos fiéis quando a imagem deixou a igreja para ser restaurada na Faculdade de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A comunidade tentou impedir da retirada da santa, temendo que os restauradores pudessem levá-la, depois de pronta, para um museu ou outro tipo de instituição cultural. Algumas religiosas chegaram até a desmaiar, segundo conta Elza Helena.
O Santuário, o Jubileu e o Café de Maria
A fé em Nossa Senhora da Piedade fez de Felixlândia um local de peregrinação que há mais de 150 anos recebe fiéis de várias cidades da região e até de locais mais distantes. Graças a toda essa devoção, a Igreja dedicada à santa foi elevada, em 1963, à categoria de santuário e cerca de uma década depois recebeu a condição de
Templo Jubilar Perpétuo, que é o reconhecimento de uma determinada igreja como local onde os fiéis podem renovar sua espiritualidade a qualquer tempo e não apenas nos Jubileus – que acontecem a cada 25 anos.
Os peregrinos chegam a pé ou a cavalo e são tantos que, para receber a todos de forma adequada, a paróquia precisa organizá-los em romarias. “Cada uma tem seu dia para chegar e deixar a cidade”, conta Alexandre Souza Pinheiro, gestor do Instituto Transforma em Ação – entidade que nasceu em torno da igreja, com rodas de leitura e prepara jovens por meio de cursos extra-curriculares e atividades voluntárias.
Segundo Alexandre, em 2025, a Romaria levou mais de cinco mil pessoas a Felixlândia. Para atender tanta gente, especialmente os que caminham a noite inteira e chegam de madrugada, foi criado o Café de Maria, que serve biscoitos fritos feitos pelas quitandeiras da cidade e bolos doados pelos fiéis. Alguns romeiros são autorizados a consumir sem custo, mas há uma cobrança simbólica para os que podem pagar. Alexandre calcula que passem cerca de 300 pessoas por dia por esse café.
O momento mais esperado da festa é a chegada dos carros de boi – muito respeitados no município por terem sido grandes apoiadores da construção da atual igreja. Na verdade, todos os fiéis contribuíram de alguma maneira, mas os carreiros carregaram as pedras usadas para erguer o edifício, erguido em substutuição a uma capela centenária de madeira que, lamentavelmente, foi demolida.
Uma comunidade hippie evangélica
Historicamente, a experiência religiosa de Felixlândia vai além da devoção a Nossa Senhora da Piedade e extrapola a sede do município. A poucos quilômetros do santuário, outro fenômeno de fé mobilizou, por cerca de uma década, a população do distrito São José de Buriti. Jovens evangélicos, autodenominados Hippies de Cristo em Missão, mas sem filiação a nenhuma igreja, criaram uma comunidade de artesãos à margem da lagoa formada pela represa de Três Marias.
Rosanna Ribeiro Leite, hoje com 39 anos, era criança quando os hippies apareceram em São José do Buriti: “a gente tinha medo porque chegou um monte de hippie, a gente nem sabia o que é que era”. Segundo Rosanna, o grupo inicial passou muita necessidade, mas conseguiu, com seu artesanato – que era vendido na Feira Hippie de Belo Horizonte – construir uma grande empresa e, com isso passou a empregar praticamente toda a população, além de atrair gente do Norte de Minas. Quem, por algum motivo, não podia dar expediente, como adolescentes, idosos e mães de filhos pequenos, trabalhava em casa e ganhava por produção. Os que iam à sede da empresa eram contratados com carteira assinada.
Rosanna foi uma da artesãs contratadas para trabalhar em casa. Começou aos 13 anos como colaboradora e teve a carteira assinada aos 16. Só parou quando os hippies tiveram que ir embora por causa da falência da empresa, provocada, segundo ela, por uma concorrência desleal feita por pessoas que aprenderam com eles. Depois do fechamento da empresa, Rosanna foi trabalhar para eles em belo Horizonte.
Além de toda a movimentação econômica que promoveram no povoado, na época com … habitantes, os Hippies de Cristo encantaram as pessoas com sua religião. Rosanna conta que, a partir das oito horas da noite, eles acendiam uma fogueira e começavam a cantar louvor com violão e atabaque. Isso teria atraído tanto os jovens que os cultos passaram a ser feitos na praça: “eles também faziam batismo lá no Rio São Francisco, louvando e cantando. Ah! era bonito demais”.
Hoje, não há mais rastros dos hippies em São José do Buriti. Segundo Rosanna, alguns ainda tem casa no povoado, mas quase não aparecem por lá. Restou apenas a história daqueles anos na memória de alguns moradores. Depois da saída do artesanato, a economia do distrito foi se transformando e hoje está concentrada no turismo de pesca e na criação de tilápias, o que colocou Felixlândia na condição de segundo maior produtor da espécie no Lago da Usina Hidrelétrica de Três Marias, que, por sua vez, é o primeiro produtor de Minas e o segundo do país.
Felixlândia na obra de Rosa
O topônimo Felixlândia não aparece na obra de Guimarães Rosa, mas a cidade está lá, com o nome de Bagre, como era chamada na época. Não é sede de grandes acontecimentos da narrativa, mas aparece como parte da paisagem regional. No romance Grande Sertão: Veredas”, é citada primeiro como exemplo de lugar que mudou de nome: “São Romão todo não se chamou de primeiro Vila Risonha? O Cedro e o Bagre não perderam o ser? O Tabuleiro-Grande? Como é que podem remover uns nomes
assim?”3.
A segunda menção é na condição de referência geográfica, quando o personagem Riobaldo Tatarana narra a viagem que fez de mudança, ainda menino, após a morte da mãe: “..até que um vizinho caridoso cumpriu de me levar, por causa das chuvas, numa viagem durada de seis dias, para a Fazenda São Gregório, de meu padrinho Selorico Mendes, na beira da estrada boiadeira, entre o rumo do Curralinho e o do Bagre, onde as serras vão descendo”4
No livro Sagarana, está presente em dois contos: ” Traços Biográficos de Lalino Salãthiel” e “Duelo”. No primeiro, é citado como o local onde o protagonista teria assistido a uma peça de teatro. Já no segundo, aparece com o nome de Piedade do Bagre – lugar onde o personagem Turíbio Tudo teria parentes e para onde foge após cometer um assassinato.
Notas
- 1 Existem pelo menos mais duas esculturas da Virgem Maria com Cristo no colo, atribuídas ao Aleijadinho: uma em Caeté, a outra delas encontra-se em Rio Espera - local onde o mestre escultor teria vivido entre 1791 e 1792. Presume-se que a ora tenha sido realizada em parceria com mestre Piranga
- 2 Arraial o Bagre foi o primeiro nome do povoado, que tambem foi chamado de Pedade do Bagre antes de ser rebatizado como Felixlandia. Na época em que era habitada por povos originários, o local era chamado de Porrangaba, que significa peixe leitoso, em referência aos bagres que são abundantes na região
- 3 Grande Sertão: Veredas, Companhia das Letras, edição do Kindle, pág.43
- 4 Grande Sertão: Veredas, Companhia das Letras, edição do Kindle, pág.109
Felixlândia – Minas Gerais – Brasil – América do Sul
Fotos
- Sylvia Leite

