Redenção: lugar de integração afro-brasileira

Tempo de Leitura: 7 minutos

Atualizado em 02/05/2024 por Sylvia Leite

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia LeiteO atual município de Redenção, no interior do Ceará, foi o primeiro no país a abolir oficialmente a escravatura, cerca de cinco anos antes da decretação da Lei Áurea. Apenas isso já seria suficiente para despertar alguma curiosidade sobre o lugar, mas foi também ali que se instalou, em 2010, a Universidade da Integração da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab) – um centro educacional público e federal voltado para a cooperação internacional solidária com os países de língua Portuguesa, especialmente os africanos (conhecidos como PALOP) visando, entre outros objetivos, uma reparação histórica.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia LeiteDesde a chegada da Unilab, a pequena cidade – que na época tinha pouco mais de 26 mil habitantes1 – recebe anualmente estudantes de diversos estados brasileiros e de países africanos como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe e os asiáticos Timor Leste e Macau. Os novos moradores, nos quais se incluem, também, grande parte dos professores da Universidade, são agentes de mudanças que vão desde o aquecimento do comércio e do mercado imobiliário até o aumento da escolaridade na região, a busca de soluções inovadoras para o desenvolvimento sustentável e novos entendimentos dos fatos históricos.

Unilab: integração e sustentabilidadeBLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia Leite

Por ser uma instituição comprometida com essa integração internacional, a Unilab está voltada para a formação de profissionais e cidadãos capazes de atender às necessidades e interesses mútuos dos países envolvidos, priorizando cursos nas áreas de desenvolvimento agrário, processos de gestão e saúde pública, engenharia e licenciaturas.

O ensino das diversas especialidades têm como principal foco a busca de soluções inovadoras e sustentáveis. No Campus das Auroras,- um dos três que compõem a Unilab em Redenção1 -, esse compromisso está representado pela escultura Árvore Solar – símbolo do Projeto Prioritário de Eficiência Energética e Estretégico de P&D que foi selecionado em uma chamada pública da Aneel e é responsável por uma economia de energia elétrica de 640 MWh/ano.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia LeiteA Árvore Solar tem 11 metros de altura e 10 painéis fotovoltaicos instalados em suas folhas. Foi construída com o propósito de divulgar o projeto, aguçando a curiosidade e disseminando o conceito de energia limpa e sustentável, mas também contribui para o fornecimento de energia e serve como minilaboratório aos estudantes do curso de engenharia de energias.

Além do foco no desenvolvimento sustentável e nos interesses mútuos dos países de língua portuguesa, a Unilab tem uma preocupação permanente com as questões sociais, especialmente o preconceito racial e a interpretação da escravatura e da Abolição no Brasil. Esses temas estão no foco de inúmeras pesquisas cujos resultados têm provocado intensos debates, não apenas sobre os acontecimentos históricos do Ceará, mas também sobre a maneira como os negros, africanos ou não, são tratados pela sociedade.

BLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia LeiteEm uma dessas pesquisas, por exemplo, constatou-se que pelo menos parte dos moradores de Redenção mantêm uma visão preconceituosa em relação aos estudantes africanos e a seus países de origem. Até mesmo funcionários da Unilab, segundo esse levantamento, tratariam de modo diferente estudantes brasileiros e africanos – o que parece surpreendente para uma cidade que demonstra orgulhar-se de ter se antecipado à Lei Áurea.

Redenção: entre a história e suas versões

A libertação dos escravizados na região ocorreu em janeiro de 1883, quando Redenção ainda fazia parte da Vila de Acarape – hoje município vizinho – que pertencia à província de Baturité. Pouco mais de um ano depois, foi a vez doBLOG LUGARES DE MEMÓRIA - Matéria Redenção - Foto Sylvia Leite estado fazer a sua parte. Assim, não só Redenção, mas todo o Ceará, anteciparam-se à Lei Áurea, de 1888 e, mais que isso, antecederam também a Lei do Sexagenário – que libertou, em 1885, os escravizados com mais de 60 anos.

Dois fatos ainda mais antigos reforçam a posição do Ceará na vanguarda da abolição e o primeiro é anterior até mesmo à Lei do Ventre Livre, de 1871: consta que, em 1850, o deputado cearense Silva Guimarães teria feito a primeira tentativa de libertar os negros recém-nascidos, ao apresentar um projeto com esse teor na Câmara Federal. O segundo fato seria uma espécie de detonador do movimento que resultou nos acontecimentos de Redenção: no comecinho de 1881, um grupo de jangadeiros liderados por Francisco José Nascimento, conhecido como Chico da Matilde e posteriormente como o Dragão do Mar, decidiu parar o transporte de escravizados no porto de Fortaleza.

 Polêmico monumento Negra Nua -Foto de Sylvia Leite -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Esses acontecimentos fizeram com que o Ceará fosse considerado a Terra da Luz e com que Redenção criasse uma identidade que confunde a história da abolição com sua própria história, como atestam o nome do município e os monumentos espalhados pela cidade.

Em cada praça, encontra-se uma referência à libertação dos escravizados. Até uma loja maçônica tem nome alusivo à Abolição. Mas estudos realizados na Unilab, e também por pesquisadores de outras instituições, indicam que os símbolos utilizados ali refletem uma visão unilateral de quem continua enxergando os negros em condição subalterna e sua liberdade como fruto da benevolência de brancos.

O monumento mais criticado por essa corrente é o painel da Negra Nua, ironicamente localizado em frente a um dos campi da Unilab, em Redenção. Objeto de inúmeras formas de protesto, o monumento acabou se transformando em um catalisador de discussões em torno das questões raciais e abolicionistas. Até sua posição geográfica reafirma essa condição de pivô das divergências pois o painel encontra-se na entrada da cidade, no canteiro central de uma avenida que tem, de um lado, um campus da Unilab – com o olhar para o futuro e um discurso libertário – e, do outro, o Museu Senzala Negro Liberto, que é visto com reserva por pelo menos uma parte dos pesquisadores.Museu Senzala do Negro Liberto - Foto de Sylvia Leite -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA

O Museu Senzala do Negro Liberto

Para quem visita Redenção, seja qual for a posição que tome nesse debate – aqui mencionado apenas superficialmente – é praticamente impossível não conhecer o monumento e o museu. O primeiro porque se impõe implacavelmente na entrada da cidade, o segundo por ser o maior conjunto de memórias existente na região.

Instalado em um antigo engenho, onde hoje funciona uma fábrica de cachaça, o museu é dividido em três partes: o engenho, a casa grande e a senzala. Além de antigas máquinas de moagem de cana e documentos históricos referentes à produção açucareira e à compra, venda e libertação dos escravizados, o Museu Senzala do negro Liberto - Foto de Sylvia Leite -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA museu reúne fotos, utensílios domésticos e instrumentos de tortura.

O porão onde teria funcionado a senzala impressiona pelo realismo, embora pesquisadores indiquem a inexistência de provas de que ali tenha funcionado realmente uma senzala. Compartimentos insalubres, escuros e povoados por morcegos de verdade (embora inofensivos) abrigam reconstituições de algemas, troncos e outros instrumentos utilizadas pelos feitores para prender e castigar os mais rebeldes.

Logo na entrada, um compartimento elevado cujo pé direito diminui à medida em que se avança até o fundo, exibia aos recém-chegados a condição a que seriam expostos caso não obedecessem as regras. Quanto maior a desobediência, mais fundo o escravizados era colocado no local de castigo e menor era o espaço que tinha para se movimentar.

Museu Senzala do negro Liberto - Foto de Sylvia Leite -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA A limitação de movimentos também era o tema de outro castigo, talvez o pior de todos. Os escravizados que cometiam ações consideradas muito graves eram trancados em uma espécie de armário e ali ficavam por horas, ou até dias, sem água nem alimentos e sem qualquer possibilidade de movimentar-se. A maioria não resistia.

A visita só não traz mais realismo porque, em alguns cômodos, foram pintadas imagens de negros, o que reforça o caráter de reconstituição dos espaços.

Corredor da Unilab - Foto de Sylvia Leite -BLOG LUGARES DE MEMÓRIA Caso se vá a Redenção em um dia útil, vale também uma visita ao Museu Histórico e Memorial da Liberdade, mantido pela Prefeitura e aberto somente de segunda a sexta. É imprescindível, também, conhecer pelo menos um dos campus da Unilab, de preferência o de Redenção onde se pode sentir o clima de integração entre nações e observar coloridos painéis com temas raciais; ou o das Auroras, para conhecer a Árvore Solar.23

Notas

  • 1 Além dos campi localcalizados em Rendenção e no município vizinho de Acarape - Campus da Liberdade (Redenção), Campus das Auroras (Entre Redenção e Acarape) e Campus dos Palmares (Acarape) -, a Unilab tem uma unidade em São Francisco do Conde - Bahia, o município brasileiro com maior percentual de negros - mais de 90% declarados em censo, segundo dados da própria universidade.

Redenção – Ceará – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • Lúcia Simões
  • Márcia Alves
  • Sylvia Leite

Colaboração

  • Dayane Moreira, aluna da Unilab

Referências

  • Site da Unilab
  • Texto acadêmico: Relações raciais, identidades étnicas, gênero e autobiografias: o cotidiano dos estudantes africanos e brasileiros na Unilab/CE (PDF)
  • Texto acadêmico: O Espetáculo da Abolição - A Negra Nua (PDF)
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Van
5 anos atrás

Nunca tinha ouvido falar em Redenção! Essa materia ficou super completa, com certeza um lugar cheio de histórias.

Angela Beatriz Camara Martins

Sempre aprendendo com seu blog! Não conhecia Redenção. Adorei sobre esse esse de integração afro-brasileira. Ótimo post

Nathalia geromel
Nathalia geromel
5 anos atrás

Sylvia, que bacana a sua postagem! Eu realmente não tinha conhecimento sobre o assunto e acho super bacana essa integração afro.
Gostei do museu do Senzala do Negro Liberto, quero visitá-lo

Deyse
Deyse
5 anos atrás

Muito interessante a cidade de Redenção no Ceará, eu não a conhecia até ler seu texto! Realmente, é um lugar de integração afro-brasileira e isso é muito bacana. Vou adorar conhecer o museu e mergulhar na história local e no contexto da escravidão e abolição. Quero muito conhecer, espero que seja breve.

LeoSV
5 anos atrás

Ler seus artigos é sempre conhecer mais sobre o nosso Brasil. Não sabia dessa questão da abolição ter acontecido antes em Redenção. O Museu do Senzala do Negro Liberto despertou muito meu interesse. A quanto tempo de Fortaleza fica a cidade?

Unknown
7 anos atrás

Muito legal! Adorei.

Val Cantanhede
7 anos atrás

Excelente matéria, Sylvinha!
Que essa integração entre povos prospere e que a Unilab se firme como instituição promotora de uma necessária consciência socioambiental, imprescindível nestes tempos sombrios!
Abraços

Margareth
7 anos atrás

Esse é um verdadeiro "lugar de memória", memória essa que jamais pode se perder. Um lugar sustentável, de integração, de aprendizado de coisas que podemos fazer e de outras que jamais devemos repetir.

sonia pedrosa cury
7 anos atrás

Maravilha, Sylvinha! Texto maravilhoso para descrever o que o Ceará tem de bom!

consul
7 anos atrás

Muito bom, ja fui varias vezes ao Ceará entretanto nunca fui a Redenção, após sua materia com certeza darei uma ida ate este município

BETANIA
7 anos atrás

Maravilhoso

Virginia Finzetto
7 anos atrás

Que super matéria. Parabéns, Sylvia. Aqui a gente viaja aos lugares e no tempo.