Buraquinhos: vida comunitária no Vão dos Buracos

Tempo de Leitura: 9 minutos

Atualizado em 10/05/2026 por Sylvia Leite

Descida_Buraquinhos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAO caminho que precisamos percorrer até Buraquinhos – povoado localizado no distrito de Serra das Araras, município de Chapada Gaúcha, Noroeste de Minas –, já nos traz o primeiro impacto da viagem: uma descida íngreme, em chão de terra, que embora não seja tão longa – cerca de 900 metros -, parece não acabar mais e nos deixa apreensivos sobre o que encontraremos lá embaixo. A sensação se intensifica ao lembrarmos que essa comunidade quilombola está localizada no Vão dos Buracos – um dos lugares mais simbólicos do romance “Grande Sertão: Veredas”.

O Vão é um vale que vem sendo cavado ao longo dos séculos pelo Rio Pardo1, afluente do São Francisco, e em sua parte mais profunda atinge um desnível de 180 metros. No romance, é comparado pelo personagem narrador Riobaldo ao mítico Liso do Sussuarão – descrito por ele como um lugar que “não concedia passagem a gente viva, era o raso pior havente, era um escampo dos infernos”2.

A diferença entre os dois, de acordo com Riobaldo, é que no Vão dos Buracos existem rios, como o Preto e o Pardo, enquanto no Liso não há água nem vegetação:“Que nem o Vão-do-Buraco? Ah, não, isto é coisa diversa — por diante da contravertência do Preto e do Pardo… Também onde se forma calor de morte – mas em outras condições…”3.

Muitos acreditam que é ao Vão dos Buracos que Riobaldo se refere em outra parte do texto:”Eu sabia que estávamos entortando era para a Serra das Araras – revinhar aquelas corujeiras nos bravios de ali além, aonde tudo quanto era bandido em folga se escondia”, e essa, realmente, é a impressão que temos ao conhecer o lugar e Vao_dos_Buracos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAavistarmos as corujeiras, ou penhascos, que limitam o vale, mas nesse trecho o personagem não cita o nome do vão.

Mesmo com uma única menção explicita, o Vão dos Buracos é tido pelos leitores de Rosa como um dos lugares símbolo da obra e, ao longo dos anos, acabou se tornando um atrativo para jornalistas e estudiosos. A pesquisadora Raíra Saloméa Nascimento conta, em sua dissertação de mestrado sobre a região 4, que quando chegou à Chapada Gaúcha “não sabia quais comunidades iria visitar ou quais caminhos percorreria, mas já havia dois lugares anotados em seu roteiro: o Parque Nacional Grade Sertão Veredas e o Vão dos Buracos”.

Os moradores de Buraquinhos não leram o Grande Sertão: Veredas – ou pelo menos não haviam lido antes da nossa visita5 –, mas além de habitarem um lugar usado como referência pelo personagem narrador, cultivam as tradições mineiras que Rosa deixa transparecer em sua obra, especialmente as quitandas – guloseimas caseiras – e o artesanato.

A tradição do artesanato

A atividade artesanal mais forte em Buraquinhos talvez seja a produção de esteiras, feitas com palha de buriti – a palmeira das veredas. A líder comunitária Silvina Rodrigues Teixeira conta que o trabalho começa na extração do olho – isto é, o broto da planta. Já em casa, as artesãs sacodem os galhos para retirar os talos e colocam a palha para Fazendo_esteira-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAsecar. Dos olhos também é extraída a seda que será utilizada nos bilros6 “como se fosse a linha para fazer a tecelagem”. Com a palha seca e a seda enrolada nos bilros, é hora de começar a usar o tear, que elas chamam de teale.

Silvina calcula que quase todas as mulheres da comunidade sabem tecer a palha de buriti. Ela diz que a técnica é antiga, mas mudou a forma de uso: “A gente trabalhou a vida inteira só esteira de dormir, de botar na cama. Agora faz mais porta-copo, porta-prato, porta-panela, caminho de mesa”. Mudou também o destino das peças. Antes se fazia esteiras para uso próprio, para a família ou para trocar com vizinhos por alguma mercadoria. Agora, as esteiras são vendidas a turistas para gerar renda. E não são só as mulheres que trabalham com buriti. João José Teixeira, conhecido como João Grilo, usa a palha na confecção de uma espécie de capa que mais parece um manto indígena e são usadas que os roceiros  em dias de chuva.

Com o braço do buriti, é possível fazer esculturas e até móveis. Antônio Lopes Marques (Tico), por exemplo, se especializou em esculpir burrinhos, carros de boi e bonecos. Ele também faz móveis, mas apenas para uso próprio ou por encomenda. A matéria prima, nesse caso, é o braço do buriti. Silvina explica que o tronco nunca é usado “porque se utilizasse  tronco mataria o buriti e não é isso que a gente quer”.

Peta e biscoito quebrador

Fazendo_biscoitos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAEm várias comunidades, povoados e cidades do sertão mineiro, é mais comum se comer biscoitos de povilho no café da manhã do que o simples pão de sal a que estamos acostumados. Em Buraquinhos, não é diferente. A maioria das mulheres da comunidade sabe fazer tanto a peta – que é o tradicional biscoito de povilho leve e oco – como o biscoito quebrador, também chamado de biscoito doce porque leva açúcar. Ambos são consumidos também no dia a dia, mas não podem faltar nas festas da comunidade.

Matilde conta que aprendeu o segredo dos biscoitos com a mãe e a receita já vinha passando de geração em geração. A filha mais velha, Isis Maria, tem apenas seis anos, mas já está se interessando por essa herança: “quando eu faço, ela fica de olho, não vai demorar a aprender”. Matilde sabe fazer bem a peta, o pão de queijo, os bolos, mas sua especialidade é o biscoito quebrador – considerado mais difícil porque é preciso dar o pronto certo para ele quebrar na primeira mordida. Os ingrdientes, ela revela sem problema: polvilho doce, açúcar, ovos, gordura (manteiga, margarina ou óleo), coco ralado ou queijo ralado. Mas o segredo está nas quantidades e isso ela só vai contar para as filhas.

Roça de toco e agroecologia

O conhecimento tradicional é usado, também, na agricultura. O plantio segue as normas da Agroecologia como o cultivo simultâneo de várias espécies, a rotação de culturas, adubação orgânica e controle biológico das pragas. Isso, no entando, não é novidade para os moradores de Buraquinhos, como revela a líder Silvina: “a gente já vem Plantação_Buraquinhos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAfazendo a agrofloresta desde os ancestrais proque a gente nunca usou prduto químico e sempre plantou várias coisas juntas”.

Tico, por exemplo, cultiva maracujá, melancia, abóbora, milho, mandioca e gergelim em um terreno de meio hectare. Na mesma área, são plantados a crotolária e o feijão de porco que servem, respectivamente, para adubar e fixar nitrogênio na terra. E o mairor diferencial da atividade agrícola da comunidade, em sua opinião, é a técnica da roça de toco, que consiste em preparar o terreno para o plantio sem arrancar as raízes do cerrado e utilizando fogo controlado: “Se ficar um ano sem limpar o terreno, o cerrado já cresce de novo. É uma técnica de preservação. Nunca perde o cerrado.”

A preocupação dos mordores de Buraquinhos com a preservação ambiental tem razões que vão além da necessidade de extrair da terra a própria sobrevivência: é também uma forma de resistência às agresões que atingem o seu entorno. O Vão dos Buracos é considerado um importante corredor ecológico entre o Parque Nacional Grande Sertão Veredas e o Parque Estadual Serra das Araras. Sua preservação é tida como fundamental para a manutenção dos recursos hídricos da região que estão cada vez mais ameaçados pela expansão das monoculturas de soja, eucalipto, milho, algodão e também pela pecuária de grande e de pequeno portes.

A vida na comunidade

Espaço_de_convivencia-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAEmbora a terra seja de todos, cada um cultiva a área onde vive, mas, na hora de beneficiar a mandioca, por exemplo, o trabalho é feito em grupo, em uma casa de farinha coletiva. Há mutirão, também, para a construção de equipamentos sociais. Caso da cozinha comunitária e do espaço de convivência construído em forma de cúpula geodésica7. Nos dois casos, foram usadas técnicas que articulam conhecimento científico com o saber popular, dando prioridade a materiais disponíveis na comunidade.

A geodésica, por exemplo, é coberta com palha de butiti. A tecnologia, certificada junto ao Banco de Tecnologias Socais da Fundação Banco do Brasil, foi desenvolvida pelo instituto Rosáceas com apoio de diversos parceiros institucionais e está sendo aplicada em várias comunidades da região. A busca pela sustentabilidde se dá em todos os setores. A maioria das residências ainda utiliza energia elétrica, mas os equipamentos coletivos – como cozinha comunitária, sala de informática, casa de farinha e espaço de convivência são abastecidos por painéis solares.

Grande parte das realizações da comunidade é viabilizada com apoio de entidades socioanbientais e programas gvernamentais, mas as dificuldades ainda são grandes e os moradores começam a enfrentá-las desde muito cedo. A escola de Buraquinhos, por exemplo, só atende alunos do nível fundamental. Quem ingressa no nível médio precisa se desclocar cerca de vinte quilômetros para estudar na comunidade de Ribeirão de Areia. O trajeto é feito em Dança_em_Buraquinhos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIApelo menos duas etapas: a pé e de ônibus. Os que moram mais longe, cumprem um terceiro percurso em charretes da Prefeitura.

Embora composta por afrodescendentes, a comunidade é devota de Santa Terezinha – que consideram sua padreoeira – e tem projeto de construir uma igreja em sua devoção, mas até hoje não tiveram recurss para a obra. A comunidade já ganhou de presenta uma imagem de concreto com cerca de um metro e oitenta de altura.  A fé na santa está presente também na associação comunitária, que leva seu nome.

As dificudades não reduzem a alegria dos moradores, que costumam se reunir na geodésia para cantar e dançar. No dia a dia, predominam as danças de roda – como a Dança da Peneira, Zanzão, Cana Verde e Lundu8 – executadas pelo Grupo de Mulheres Raízes do Sertão, acompanhadas por tocadores de pandeiro, viola, caixa, rabeca e sanfona. O grupo se apresenta também no Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, na Chapada Gaúcha, e em comunidades e municípios vizinhos. Já no fim de dezembro e começo de janeiro, é a vez da Folia de Reis, que é dançada em conjunto com moradores das comunidades de Buracos e Aldeia e conduzida há décadas pelo mestre Givaldo.

O turismo de base comunitária

Nos últimos anos, Buraquinhos abriu as portas a viajantes que desejam conhecer a região e o modo de vida da comunidade. Há grupos que passam apenas algumas horas e Vereda_em_Buraquinhos-Foto_Sylvia_Leite-BLOG_LUGARES_DE_MEMORIAoutros que ficam pra dormir, às vezes até mais de uma noite. A acomodação é feita em casas de moradores ou em uma pequena pousada. As visitas são agendadas com antecedência e a programação depende do acerto feito por cada grupo, podendo incluir desde a simples visita à comunidade, a fim de conhecer seus principais pontos, até passeios pelas veredas, apresentações de dança e oficinas de biscoito e esteira, sempre aconpanhadas de uma mini feira de artesanato.

Notas

  • 1 O Rio Pardo tem esse nome porque está sempre com areia em suspensão
  • 2 Grande Sertão: Veredas, Companhia das Letras, pág 35.
  • 3 Idem
  • 4 Até a Raiz - Tessitura identitária pelas mestras e guardiãs do Sertão Veredas, dissertação de mestrado defendida por Raíra Saoméa Nascimento, na UFMG, 2022, pág 109
  • 5 Em todas as viagens coletivas que fizemos, levamos exemplares dessa e de outras obras – gentilmente cedidas pela família Tess, detentora dos direitos – para distribuir com o pessoal que nos recebeu
  • 6 Bilros são pequenas peças de madeira onde se enrola cada um dos fios a serem usados em tecituras de rendas e esteiras
  • 7 A cúpula geodésica é uma estrutura semiesférica, composta por redes de figuras geométricas, como triângulos, pentágonos ou hexágonos, que distribuem a tensão de maneira uniforme, conciliando resistência e leveza. Por ser baseada na Geometria Sagrada, é tida por algumas correntes como um espaço que concentra alta energia, proporcionando equilíbrio e bem estar
  • 8 O Lundu de Buraquinhos é uma dança de roda e não tem semelhança com o Lundu que conhecemos, que envolve flerte e sensualidade

Buraquinhos – Serra das Araras – Chapada Gaúcha – Minas Gerais – Brasil – América do Sul

Texto

Fotos

  • Sylva Leite

Referências

  • Grande Sertão:Veredas
  • Até a Raiz - Tessitura identitária pelas mestras e guardiãs do Sertão Veredas, dissertação de mestrado defendida na UFMG, 2022
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